Que as religiões não sigam os fundamentalismos e colaborem com os pobres, pede o Papa Francisco

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Por: André | 30 Outubro 2015

“Por causa da violência e do terrorismo, difundiu-se uma atitude de suspeita e até mesmo de condenação das religiões”, mas que, “embora nenhuma religião esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos, é necessário olhar para os valores positivos que elas vivem e propagam e que são fonte de esperança”, tendo em conta que “o mundo olha para nós crentes, convida-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas efetivas sobre numerosos temas: a paz, a fome, a miséria que aflige milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular aquela cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e, sobretudo, da esperança”. Poucos dias após o término do Sínodo ordinário sobre a família, o Papa Francisco dedicou a catequese da Audiência Geral na Praça São Pedro ao 50º aniversário da Declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II, documento que marcou uma mudança nas relações com hebreus, muçulmanos e féis de outras religiões não cristãs.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada por Vatican Insider, 28-10-2015. A tradução é de André Langer.

O Papa, que primeiro saudou os doentes que acompanharam a Audiência da Sala Paulo VI devido à chuva (“Estão aqui não porque os prendemos, mas por causa do mau tempo”), depois expressou, na Praça São Pedro, o seu agradecimento e as boas-vindas a “pessoas e grupos de diferentes religiões que hoje quiseram estar presentes, especialmente a quantos vêm de longe”.

O Concílio Vaticano II “foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja católica sobre si mesma e sobre o mundo”, recordou Francisco. “Uma leitura dos sinais dos tempos – continuou – em vista de uma atualização orientada por uma dupla fidelidade: fidelidade à tradição eclesial e fidelidade à história dos homens e das mulheres do nosso tempo. De fato, Deus, que se revelou na criação e na história, que falou por meio dos profetas e completamente no seu Filho feito homem dirige-se ao coração e ao espírito de todo ser humano, que busca a verdade e os meios para praticá-la”.

Após retomar os pontos mais importantes da Nostra Aetate, o Papa recordou alguns eventos representativos dos últimos anos no âmbito do diálogo inter-religioso: o encontro de Assis, em 27 de outubro de 1986, “desejado e promovido por São João Paulo II, que um ano antes, ou seja, há 30 anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca desejava que todos os crentes em Deus favorecessem a amizade e a união entre os homens e os povos (19 de agosto de 1985). A chama, acesa por Assis, estendeu-se em todo o mundo e constitui um permanente sinal de esperança”.

O Papa destacou a “verdadeira e própria transformação que teve nesses 50 anos a relação entre cristãos e judeus”. A indiferença e a oposição “transformaram-se em colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, nos tornamos amigos e irmãos. O Concílio, com a Declaração Nostra Aetate, traçou o caminho: ‘sim’ à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo; ‘não’ a toda forma de antissemitismo e condenação de toda injúria, discriminação e perseguição que delas derivam”. Francisco quis acentuar que também os muçulmanos (que, como dizia o Concílio, “adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens”), “referem-se à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Mãe virgem, Maria, esperam o dia do julgamento e praticam a oração, a esmola e o jejum”.

O mundo, disse o Pontífice argentino, “olha para nós crentes, convida-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas efetivas sobre numerosos temas: a paz, a fome, a miséria que aflige milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular aquela cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e, sobretudo, da esperança. Nós, crentes, não temos receitas para esses problemas, mas temos um grande recurso: a oração. E nós crentes rezamos. Devemos rezar. A oração é o nosso tesouro, à qual chegamos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons que a humanidade anseia”.

E prosseguiu: “Por causa da violência e do terrorismo, difundiu-se uma atitude de suspeita e até mesmo de condenação das religiões. Na verdade, embora nenhuma religião esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos, é necessário olhar para os valores positivos que elas vivem e propagam e que são fonte de esperança. Trata-se de elevar o olhar para ir além. O diálogo baseado no confiante respeito pode levar a sementes de bem que, por sua vez, se tornam brotos de amizade e de colaboração em tantos campos e, sobretudo, no serviço aos pobres, aos pequenos, aos idosos, no acolhimento aos migrantes, na atenção a quem está excluído. Podemos caminhar juntos – disse o Papa entre aplausos – cuidando uns dos outros e da criação. Todos os crentes de todas as religiões”.

O próximo Jubileu da Misericórdia, destacou o Papa Francisco, também é “uma ocasião propícia para trabalhar juntos no campo das obras de caridade. E neste campo, onde conta sobretudo a compaixão, podem se unir a nós tantas pessoas que não se sentem crentes ou que ainda estão em busca de Deus e da verdade, pessoas que colocam no centro a face do outro, em particular do irmão ou da irmã necessitados”.

Jorge Mario Bergoglio concluiu reflexão convidando os fiéis a uma “oração silenciosa”. “Possa a nossa oração – cada um segundo a própria tradição –, possa aderir plenamente à vontade de Deus, que deseja que todos os homens se reconheçam como irmãos e vivam como tal, formando a grande família humana na harmonia da diversidade”.

A Audiência começou com a leitura de algumas passagens da Declaração Nostra Aetate em diferentes idiomas e em seguida tomaram a palavra para dirigir uma saudação o cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, e o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, além de presidente da Comissão Hebraico-Cristã, que deplorou as “novas ondas de anti-semitismo” de nossos dias.

Na Sala de Imprensa vaticana aconteceu a apresentação do Congresso Internacional sobre a Declaração Nostra Aetate, que aconteceu entre os dias 26 e 28 de outubro na Pontifícia Universidade Gregoriana.