O que as palavras do Papa Francisco significam para o debate sobre a Comunhão dos divorciados novamente casados?

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06 Agosto 2015

Analisar as palavras do Papa Francisco é uma tarefa nada simples, posto que ele tende às vezes a dizer coisas que parecem deliberadamente abertas a múltiplas interpretações – lembremos do “Quem sou eu para julgar?” – e, em seguida, lança ideias termos de quais as implicações políticas podem se seguir delas, caso houver.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 05-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis um assunto válido de nota, principalmente neste momento, em que as suas palavras proferidas na Audiência Geral desta quarta-feira (5) aos católicos divorciados e recasados se fazem presentes na imprensa internacional. A questão de fundo é: embora sejam interessantes as coisas que o papa falou, elas não sinalizam nenhuma escolha política específica.

No momento, a Igreja Católica está envolvida num debate sobre se os católicos divorciados e recasados deveriam poder receber a Comunhão. Este foi o assunto candente no Sínodo dos Bispos sobre a família em outubro do ano passado, e assim será novamente no Sínodo deste ano, a ocorrer em outubro em Roma.

Hoje, as regras da Igreja proíbem comungar aqueles fiéis divorciados e que novamente se casaram fora da Igreja. Uma ala do catolicismo, que inclui vários cardeais, apoia uma certa flexibilidade no sentido de que estas pessoas possam participar do sacramento após uma análise de caso.

Uma outra ala, que também inclui vários cardeais, acredita que uma tal mudança seria uma traição ao ensinamento tradicional a respeito da permanência do casamento.

Embora não existam dados exatos sobre o número de católicos em tal situação, eles constituem um conjunto estimado em 4,5 milhões de pessoas só nos Estados Unidos. Como se vê, esta é uma questão que não é meramente simbólica, mas que possui um impacto pastoral no mundo real.

Nesse contexto, qualquer coisa que o papa diga sobre o assunto acaba gerando reações. Na quarta-feira, ele falou sobre o tema em uma breve reflexão de 660 palavras. A principal mensagem aqui foi no sentido de convidar a Igreja para uma maior compaixão pelas pessoas nesta situação.

De início, Francisco falou que se casar fora da Igreja depois do divórcio “contradiz o sacramento cristão”. Ao mesmo tempo, insistiu que tais pessoas continuam fazendo parte da Igreja – elas “não estão excomungadas”, disse ele – e precisam ser cuidadas, em parte por causa de seus filhos.

“Se olhamos para estas novas uniões também pelos olhos de criancinhas (…) vemos a urgência de despertar na nossa comunidade um verdadeiro acolhimento para com pessoas nestas situações”, disse o papa.

O bem-estar das crianças parece ser a preocupação primordial do papa.

“Como é que podemos recomendar a estes pais que façam tudo o que possam para educar os seus filhos na vida cristã, dando-lhes o exemplo de uma fé segura e vivida”, perguntou-se o pontífice, “se os distanciamos da vida da comunidade, como se fossem excomungados?”

Citando o Papa Bento XVI, Francisco disse que não há “uma receita simples” para a forma certa de acolher os divorciados novamente casados. No entanto, disse que alguma tem de ser feita.

O papa também insistiu na necessidade de um “discernimento” em casos individuais, citando a diferença entre alguém que “sofreu” o rompimento de um casamento versus alguém que “o provocou”.

Ele apontou para a necessidade de “se demonstrar abertamente e de forma coerente a disposição da comunidade em acolher e encorajar” os divorciados e recasados “para que possam viver e desenvolver, cada vez mais, a sua pertença a Cristo e à Igreja com oração, escuta da Palavra de Deus, participação na liturgia, educação cristã dos seus filhos, caridade e serviço aos pobres, além do compromisso com a justiça e a paz”.

Então, o que isso significa para o debate sobre a Comunhão?

Pode-se interpretar este apelo por uma acolhida e encorajamento como um apoio indireto à reforma, ou seja: como uma forma de preparar a opinião católica para uma eventual mudança. Essa é uma conclusão particularmente tentadora à luz de sua ênfase no discernimento em situações diferentes.

Com a mesma facilidade, no entanto, pode-se interpretar esta sua linguagem como uma forma de preparar para a decepção aquelas pessoas que esperam pela tal mudança. Francisco poderia estar dizendo: “Mesmo se não abandonarmos a proibição à Comunhão, isso não significa que estamos abandonando vocês”.

É válido de nota observar que Francisco diz explicitamente que um segundo casamento após o divórcio “contradiz” o sacramento. No mais, fora a enumeração das formas nas quais estes fiéis ainda podem fazer parte da Igreja – através da oração, participando de liturgias, etc. –, Francisco não disse nada sobre a Comunhão.

A questão é: ambos os lados da problemática poderão interpretar de tal forma aquilo que Francisco disse na quarta-feira e se sentirem encorajados, mas nenhum poderá reivindicar um endosso papal.
No final, talvez, seja isto o que ele buscou.

Talvez o que Francisco realmente quis dizer é que, independentemente do que ele venha a fazer sobre a questão da Comunhão após o Sínodo de outubro, ninguém deve fingir que o trabalho árduo de sensibilização e reconciliação com os católicos divorciados e recasados estará concluído.

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