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04 Agosto 2015

"Kane acredita que, até o momento em que a Igreja atinja uma igualdade radical, “teremos, como mulheres, a responsabilidade de perseguir esta visão. De fato, podemos nos fortalecer e mantermos firmes, dizendo que a igualdade de gênero é um dom de Deus", escreve Kate Stoltzfus, que completou o seu primeiro ano de estágio na WATER no fim do mês de julho, em artigo publicado pela National Catholic Reporter, 01-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Ouvir a Irmã Theresa Kane falar é pedir para ser atingido por uma vontade forte de agir.

Quando esta irmã, membro da Congregação da Divina Misericórdia, saudou o Papa João Paulo II em outubro de 1979 na qualidade de porta-voz das religiosas americanas, ela escolheu usar aquele breve momento para pedir por igualdade e pela ordenação feminina em nome das católicas de todo o mundo. Ainda que tenham encontrado uma forte negação por parte do papa e das autoridades vaticanas, as suas palavras foram transmitidas ao vivo para todo o planeta.

Poucas são as pessoas que se atrevem a falar em voz alta as suas verdades na presença de uma oposição tão poderosa e diante do público. Kane está entre elas, pois não se esquivou em dizê-las no ano de 1979. Na ocasião, ela pediu pelo fim da opressão contra as mulheres na Igreja. Kane continuou a ser uma voz de liderança no movimento religioso feminista posterior.

Para comemorar o 35º aniversário da saudação de Kane ao pontífice polonês, a organização Women’s Alliance for Theology, Ethics, and Ritual – WATER [1] falou com ela como parte da série WATERtalk. Como nova participante da equipe da WATER e menonita de nascença e criação que chegou sem saber muito sobre o catolicismo progressista, ocorre que eu nunca havia ouvido falar do nome de Theresa Kane, muito menos sobre este seu discurso corajoso.

A sede local da WATER fervilhou nos dias que antecederam a nossa conversa; estávamos prestes a falar com “a” Theresa Kane. Com o passar do tempo, este nome meio que acabou recebendo uma espécie de reverência.

Mas eu ainda não entendia o que se passava nem o porquê dessa tal reverência. Assisti a trechos do discurso, em películas coloridas com Kane em um palco diante de milhares de pessoas. Ela se expressou ao papa e à nação americana com um contato visual impressionante, sem mostrar vacilo algum, naquilo que, na década de 1970, era uma opinião minoritária. Eu cresci imaginando freiras com hábitos pretos e auras, que lembravam certa calma e reverência. Mas ali, vi Kane vestindo um terno e expressando-se numa forma surpreendente.

Durante toda a nossa conversa, a urgência e o espírito apaixonado de Kane também me impressionaram. Com 77 anos, ela permanece lecionando na Mercy College, em Nova York. Percebi uma sensação vibrante de ativismo, movido por um desejo de seguir o trabalho de sua vida pela justiça, era palpável, tão inabalável e bem-articulada como o foi a sudação ao pontífice anos atrás.

A luta pela igualdade feminista nas igrejas continua, assim como a necessidade de termos a liderança e a defesa de Kane. Há uma pergunta que esta religiosa ainda ouve seguidamente: Será que ela repetiria aquele discurso outra vez?

“Sim, muito provavelmente. E eu expressaria o meu apelo com maior urgência e maior paixão”, diz ela. “Ao longo desses anos, percebi que a igualdade é, de fato, uma questão absolutamente urgente, apaixonada, fundamental, uma questão a que devemos nos voltar, tanto como Igreja quanto como sociedade”.

A defesa da igualdade feminina existia antes de Kane proferir o seu discurso no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, DC. Em 1975, num encontro da Conferência de Liderança das Religiosas LCWR (sigla para Leadership Conference of Women Religious), foi aprovada, quase unanimemente, uma resolução para que as mulheres se fizessem presentes em todos os ministérios eclesiais, e dois anos mais tarde as Irmãs da Misericórdia da União (“Sisters of Mercy of the Union”) aprovavam um documento que defendia algo semelhante.

Na época em que Kane, como presidente da LCWR, saudou o papa, ela sabia o que iria dizer. Reflexos visíveis de apoio estiveram presentes entre a multidão naquele dia; um grupo de irmãs usava braçadeiras azuis para significar a defesa à ordenação de mulheres.

“Foi aí que me dei conta de muitas coisas”, disse Kane. “Esta defesa se transformou numa visão, numa paixão, num foco para a minha vida; se tornou uma prioridade. Aquela minha saudação foi considerada um início. Não foi o fim das minhas responsabilidades. (...) Para mim, este momento deu um significado para a minha vida”.

Como porta-voz da LCWR, Kane também estava ciente de si mesma como uma “voz no deserto”: “Eu precisava falar não apenas em nome das religiosas, mas de todas as mulheres. Aquele momento em particular contou com uma lógica inclusiva, que aprofundou o tema da solidariedade”.

A saudação foi altamente divulgada pela imprensa americana e internacional. Mas, hoje, mesmo na biblioteca do Santuário Nacional de Washington, DC, inexistem evidências daquele dia em que Kane se dirigiu com tais palavras ao pontífice, inclusive na seção dedicada à primeira visita de João Paulo II aos EUA É como se o discurso nunca tivesse acontecido.

No entanto, no local há milhares de cartas deixadas pelos visitantes. Quando Kane foi convidada a dar esclarecimentos sobre a sua saudação semanas depois a sacerdotes em Roma durante a visita anual da LCWR à cidade, ela apresentou cerca de 100 cartas tiradas do local. Explicou que muitas pessoas se escandalizaram com a sua alocução, mas que também havia muitas pessoas que a apoiavam.

“Acho que o que precisamos é sermos mais fortes em nossa ação conjunta”, afirma Kane durante o programa WATERtalk. “Como levarmos a nossa mensagem ao mundo? Como podemos fazê-la conhecida, se não de alguma maneira dramática? Penso que temos de ter coragem nesse sentido”.

Quando a Irmã Kane recebeu o Prêmio de Liderança de Destaque em 2004, o seu discurso na cerimônia mencionou aquilo que ela chama de “espírito colonizante” – ideia segundo a qual, não havendo igualdade de gênero, as mulheres, sem querer, acabam possuindo um papel secundário e deixam de reconhecer o seu próprio poder.

Kane acredita que, até o momento em que a Igreja atinja uma igualdade radical, “teremos, como mulheres, a responsabilidade de perseguir esta visão. De fato, podemos nos fortalecer e mantermos firmes, dizendo que a igualdade de gênero é um dom de Deus. Como mártires do passado, nós estamos dispostas a morrer por isso, mas o mais importante é: estamos dispostas a viver por esta ideia”.

Eu vi o lado mais progressista da minha denominação religiosa. Em minha comunidade menonita, em Indiana, as mulheres são tratadas como iguais. A pastora de minha congregação era do sexo feminino. Meus orientadores espirituais eram do sexo feminino. Fui batizada por uma mulher. Comunidades vizinhas me mostraram mulheres que eram capazes de viver o seu chamado na igreja, sem estar ligadas às estruturas patriarcais – tão presentes em muitas religiões (até mesmo em setores da minha própria denominação).

As mesmas causas defendidas pela Irmã Kane estão, ainda, no limbo: o direito à ordenação, o direito de ter voz nos organismos religiosos de decisão, o direito a ser ouvidas como iguais e de agir com a mesma postura. Há uma luta em nome da representação das mulheres. Seja com braçadeiras ou com um discurso diante de milhares de pessoas; seja com a voz trêmula ou não, as mulheres continuam a pressionar em direção ao que Kane chamou de um momento crítico urgente.

Kane abriu os meus olhos para o caminho estabelecido por ela e milhares de outras lideranças a quase 40 anos atrás. Este trabalho não é novidade; é uma obra continuada. Kane tem um alcance que vai muito além de sua denominação religiosa, muito além de sua saudação ao Papa João Paulo II. Independentemente de filiação religiosa, o seu convite à ação se faz necessário à juventude líder e pensadora. As suas palavras merecem reconhecimento para o que veio antes. Um grande trabalho de base foi feito. E tanta coisa ainda está por vir.

“A fonte de minha coragem é a enorme solidariedade que eu vivencio junto a inúmeras mulheres e a um número crescente de homens”, diz ela. “Quando me ponho diante de Deus, sou responsável por quem eu sou e pelo que fiz. (...) Sou verdadeiramente responsável pela minha psique, por minha alma e meu espírito, por aquilo que faço com algo que eu acredito tão fortemente”.

Eu, também, agora entendo o que significa proferir as palavras “Theresa Kane”.

Nota:

[1] WATER é sigla em inglês para Women’s Alliance for Theology, Ethics, and Ritual. Como rede mundial de variadas organizações, WATER é um espaço educacional e espiritual, um centro para o diálogo sobre feminismo, fé e justiça.

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