Se esta for a religião verdadeira, podem me considerar ateu

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

26 Agosto 2014

"O que há com a religião e a violência? Um homem se serve da cabeça de outro, em nome de Deus... Se esta é a religião verdadeira, podem me considerar um ateu. Mas esta é a religião verdadeira, ouço dizerem. A história da crença religiosa é uma história de violência horrenda: intolerância para com os outros, queimadas, linchamentos, guerras religiosas nas quais milhões morrem, torturas, perseguição", escreve Giles Fraser, pároco da St Mary's Newington, no sul de Londres, e ex-pároco da St. Paul's Cathedral, publicada pelo jornal The Guardian, 22-08-2014.

Segundo ele, "ser exclusivamente aliado da verdade é sempre uma forma útil de justificar a própria violência, por tudo o que está sendo feito em nome de algo mais, algo diferente de mim. Como se fosse feito por Deus".

A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O que há com a religião e a violência? Um homem se serve da cabeça de outro, em nome de Deus... Se esta é a religião verdadeira, podem me considerar um ateu. Mas esta é a religião verdadeira, ouço dizerem. A história da crença religiosa é uma história de violência horrenda: intolerância para com os outros, queimadas, linchamentos, guerras religiosas nas quais milhões morrem, torturas, perseguição. É fácil enxergar o apelo imaginado por John Lennon de um mundo sem religião.

Então, por que a religião muitas vezes não tem a força moral suficiente para resistir à sua própria capacidade para a violência? Em seu núcleo, a religião é aquela categoria de crença em que o mundo não gira em torno de mim, mas em torno de algo outro que não eu. É uma espécie de revolução copernicana onde os seres humanos não são o centro de todas as coisas. Isso não apenas é característico, mas essencial dela.

Há, porém, dois caminhos que este pensamento pode seguir. Ele pode seguir o caminho da humildade, um motivo para admitirmos que há tanta coisa sobre o mundo que não podemos conhecer, uma base para o sentimento de admiração daquilo que está além de mim, de que isso não pode ser recolhido para dentro de meus próprios planos e esquemas mentais. Mas também, e em total contrariedade, a religião pode ter a crença de que somos destinados a (e que temos o acesso especial para) algo mais elevado e além de nós mesmos, que ela pode, em si, servir para nos fazer sentir mais poderosos, mais virtuosos, mais em contato com a verdade – exatamente o oposto da revolução copernicana do espírito. Ser exclusivamente aliado da verdade é sempre uma forma útil de justificar a própria violência, por tudo o que está sendo feito em nome de algo mais, algo diferente de mim. Como se fosse feito por Deus.

Sempre defendi haver diferença entre a boa e a má religião. Porém, estou ciente – e preocupado – de que o problema com esta distinção é que a boa religião pode servir para dar à má religião um bom nome. Esta é uma queixa dos ateus contra os crentes liberais: estes fornecem uma camuflagem ideológica para os seus irmãos mais mortíferos, e, ao assim fazerem, mantêm a má religião existindo. Contra isso, continuo afirmando que a maneira mais eficaz de nos livrarmos da má religião – e com isso quero dizer, principalmente, a religião violenta – é desafiando-a em seus próprios termos, em vez de insistir na erradicação da religião por si.

De qualquer forma, não creio que a erradicação seja possível. A velha tese moderna de que o progresso científico iria nos fazer, cada vez menos, religiosos provou estar inteiramente infundada. A religião irrompeu no século XX. Na realidade, em termos numéricos o cristianismo, por exemplo, cresceu mais no século XX do que em qualquer outro século. Além do mais, o que seria a erradicação da religião se não outra fonte para novas oportunidades de violência?

No começo desta semana, o grande mufti Sheikh Abdulaziz Al al-Sheikh, alta autoridade religiosa da Arábia Saudita, disse que o Estado Islâmico e a al-Qaeda são “os inimigos número um do Islã”. Pense por alguns instantes nestas palavras. Estas palavras não são pouca coisa. O grande mufti na Arábia Saudita não é a mesma coisa que um religioso liberal de esquerda com que estamos acostumados: a Arábia Saudita é o lar espiritual do islamismo wahhabista, ramo do Islã que se inspira no religioso do século XVIII chamado Muhamed Ibn Abd al-Wahhab, normalmente associado como sendo o progenitor ideológico do fundamentalismo islâmico. Ainda assim, o Estado Islâmico e a al-Qaeda não tem nada que ver com o Islã, diz o grande mufti.

Estas coisas estão longe de serem suficientes. Mas já são um começo. Se a crença religiosa quiser recuperar o seu lugar na mesa da humanidade civilizada, terá um bocado a realizar a respeito de seus próprios pecados e fracassos.