Igreja da Inglaterra vota a favor de bispas; passo visto como como empecilho ecumênico

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15 Julho 2014

O Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra votou nessa segunda-feira a favor da ordenação de bispas e aprovou propostas comprometendo-se a respeitar e a trabalhar com as pessoas que acreditam que, teologicamente, a aprovação foi um erro.

A reportagem é de Cindy Wooden, publicada pelo Catholic News Service, 14-07-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Antes da votação, o arcebispo de Canterbury, Justin Welby, líder espiritual da Comunhão Anglicana, disse ao sínodo que "passar esta legislação é comprometer-se com uma aventura de fé e esperança. Como todas as aventuras, ela carrega perigos (...) e incertezas, e o sucesso vai exigir integridade e coragem".

Uma dessas incertezas é o impacto da medida na busca pela unidade cristã. A Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa ensinam que Jesus escolheu apenas homens como seus apóstolos, por isso só homens podem ser ordenados sacerdotes e bispos.

O padre Anthony Currer, responsável pelas relações com os anglicanos no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, disse ao Catholic News Service que o voto "não está criando uma nova realidade para o nosso diálogo", porque outras províncias da Comunhão Anglicana, incluindo os Estados Unidos e o Canadá, já têm bispas.

No entanto, ele disse, "é importante" que a mudança tenha sido feita pela Igreja da Inglaterra - a Igreja-mãe da Comunhão Anglicana - pois ela é um ponto de referência para os anglicanos em todo o mundo.

Com os anglicanos, Currer disse, "temos comunhão, que descrevemos como prejudicada ou imparcial. Uma área que temos a explorar com os nossos parceiros de diálogo é o que é suficiente para a plena comunhão que estamos buscando".

Quando o Sínodo Geral deu os primeiros passos em direção à ordenação de mulheres-bispos em 2008, o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos disse: "Essa decisão significa uma ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas do primeiro milênio e é, portanto, mais um obstáculo para a reconciliação entre a Igreja Católica e a Igreja da Inglaterra".

Welby descreveu que o debate envolve "argumentos teológicos genuínos que diferem", e não simplesmente diferenças baseadas nas influências culturais sobre o papel das mulheres.

O arcebispo pediu à câmara dos bispos para que cumpra suas promessas criando um procedimento que assegure um lugar na Igreja para aqueles que discordam da medida.

"Você não exclui sua família ou dificulta a sua permanência em casa, você a ama e busca o seu bem-estar, mesmo quando você discorda", disse ele.

A votação aconteceu depois de várias horas de debate, em grande parte para verificar se a medida oferecia garantias suficientes para a permanência e o cuidado pastoral das pessoas que se opõem à ordenação de mulheres por motivos teológicos, e sobre os compromissos para manter a Igreja da Inglaterra unida apesar das diferentes posições.

Após a votação, o grupo anglo-católico Forward in Faith emitiu um comunicado dizendo que estava satisfeito que a Igreja da Inglaterra "está empenhada em fornecer bispos e padres para as nossas paróquias, permitindo-nos prosperar na vida e nas estruturas de nossa Igreja". No entanto, o grupo também disse que estava "profundamente preocupado com as consequências para a unidade mais ampla de toda a Igreja".

O Sínodo Geral é formado por leigos e membros do clero de cada diocese e se reúne pelo menos duas vezes por ano para analisar a legislação da Igreja. O Sínodo tem 484 membros divididos em câmaras de bispos, clérigos e leigos. As resoluções devem receber o consentimento da rainha antes de se tornarem lei.

A votação para a ordenação de bispas faz parte da reunião do sínodo que acontece entre os dias 11 e 15 de julho em York, Inglaterra.

A Igreja da Inglaterra começou a ordenar mulheres para o sacerdócio em 1994. Consultas de opinião nas 43 dioceses da Igreja na Inglaterra mostraram apoio esmagador à ordenação de bispas. Os membros sinodais foram informados de que a maioria das pessoas em todas as dioceses votou a favor e apenas nove dioceses relataram um voto favorável inferior a 90%.

Em 2012, a moção sobre a ordenação de bispas fracassou no sínodo por uma pequena margem; observadores, na época, disseram que ela não passou porque não garantia acomodações para que os adversários continuassem na Igreja.

Para abordar essas preocupações, a câmara dos bispos apresentou "cinco princípios" para o sínodo, incluindo um que reconhece que "aqueles dentro da Igreja da Inglaterra, que, em razão de sua convicção teológica, são incapazes de aceitar o ministério de mulheres como bispas ou sacerdotisas continuam dentro do espectro do ensino e da tradição da Comunhão Anglicana".

Os bispos prometeram aos tais anglicanos uma "provisão pastoral e sacramental" de forma a "manter o mais alto grau de comunhão possível e contribuir para um florescimento mútuo em toda a Igreja da Inglaterra".

Quando o cardeal Walter Kasper, o então presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, foi convidado a participar da Conferência de Lambeth da Comunhão Anglicana, em 2008, ele disse aos delegados de todo o mundo que a ordenação de mulheres, especialmente como bispas, criava um obstáculo ao reconhecimento das ordenações anglicanas por parte da Igreja Católica Romana, um passo fundamental para a plena unidade.

O Concílio Vaticano II reconheceu que os anglicanos ocupam um lugar especial entre as comunidades cristãs formadas na época da Reforma, porque eles mantiveram o ministério tríplice de diáconos, padres e bispos, e reconheciam o papel do bispo como um guardião da fé e o ponto de unidade entre a Igreja universal e a Igreja local.

O Papa Bento XVI, em resposta a uma pergunta de um jornalista em um vôo para a Austrália em 2008, disse que esperava que a Comunhão Anglicana pudesse "evitar cismas e divisões", no que diz respeito ao debate sobre a ordenação de mulheres "e que eles possam encontrar soluções que respondam às questões de nossa época, mas que também sejam fiéis ao Evangelho".