Teologia da libertação: saindo do inverno

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05 Mai 2014

A teologia da libertação definitivamente saiu do inverno, se as recentes declarações do cardeal Gerhard Ludwig Müller podem ser tomadas como base. O cardeal Müller é o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o guardião da ortodoxia na Igreja Católica.

A reportagem é de Francis McDonagh, publicada na revista The Tablet, 02-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o cardeal Müller prefere enfatizar o lado positivo do seu papel, "promover e preservar a fé" e reconhecer que há "tentativa e erro" na teologia. E, nesse contexto, o cardeal menciona Gustavo Gutiérrez no mesmo fôlego que Agostinho, Tomás de Aquino e Newman. A era do "Rottweiler de Deus" – como o antecessor de Müller, o cardeal Joseph Ratzinger, era chamado às vezes – parece ter acabado.

Quem também está no caminho de saída do inverno, ao que parece, é a Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), em Lima. Na mesma entrevista com o Frankfurter Allgemeine Zeitung, o cardeal Müller tinha muitas coisas boas a dizer sobre a universidade, que lhe concedeu um doutorado honorário.

Ele estava falando um mês antes do anúncio da comissão papal composta por três cardeais nomeados para chegar a "uma solução negociada" para a disputa entre a universidade e as autoridades da Igreja, mas não é impossível que ele tivesse alguma ideia sobre essa proposta.

De qualquer forma, o cardeal Müller descreve a "renomada" universidade como uma instituição que tem "um enorme potencial para o desenvolvimento social positivo e uma grande oportunidade para testemunhar o Evangelho em uma época de globalização".

No centro disso está o diálogo. O cardeal disse que a Igreja não pode "abandonar descuidadamente a sua responsabilidade pelos cerca de 70 milhões de alunos e estudantes nas instituições educacionais católicas, recuando em um grupo de pessoas que pensam de uma forma totalmente igual".

Essa atitude pode muito bem descrever a posição do grão-chanceler da PUCP, o arcebispo de Lima, cardeal Juan Luis Cipriani, conhecido pela sua não tolerância da dissidência e que se acredita que orquestrou o decreto vaticano que removeu o "P" (pontifícia) e o "C" (católica) do título da universidade.

Na entrevista, o cardeal Müller levanta o assunto do cardeal Cipriani, "o bispo local de Lima", em resposta a uma pergunta sobre o Opus Dei, do qual Cipriani é membro, e observa que "não é nenhum segredo que existem diferenças consideráveis de opinião" com ele. O papel de um grão-chanceler de uma universidade católica, diz ele, é ver se a orientação geral da universidade está orientada pelos princípios da fé católica e da lei moral natural, "que tem a dignidade humana como seu centro dinâmico". O grão-chanceler "não governa a universidade em assuntos acadêmicos ou administrativos".

Mas a dúvida é se é precisamente assim que o cardeal Cipriani vê a questão. E "o processo de apelação" – contra a remoção por parte do cardeal Cipriani das faculdades de ensino de professores de teologia? – "é julgado por critérios técnicos, em teologia, assim como em qualquer outro lugar".

Será que isso significa que a nova comissão irá supervisionar um processo de apelação contra a proibição levantada pelo cardeal Cipriani? É difícil fugir da impressão de que a mensagem está sendo enviada nesse sentido.

Em fevereiro, houve o lançamento de um livro em Roma. O livro era uma série de artigos sobre a teologia da libertação de autoria do cardeal Müller com contribuições de Gustavo Gutiérrez e um prefácio do Papa Francisco.

O evento se transformou em uma homenagem ao Pe. Gutiérrez, que apareceu sem avisar. Ao lado dele e de Müller, estavam o cardeal Oscar Rodríguez, chefe do "C8", o Conselho dos Cardeais do papa criado para aconselhar sobre as reformas, e o reitor da PUCP. Todos estavam sorrindo muito. Talvez eles tivessem mais de um motivo para sorrir.