''Serei obrigado a deixar a minha Síria''

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15 Junho 2012

O padre Paolo Dall'Oglio já fez as malas. Nos próximos dias, ele deixará, contra a sua vontade, o país em que passou 30 anos. "A decisão da minha saída da Síria é uma decisão eclesiástica", diz ele por telefone, de Damasco. "Mas não é só eclesiástica. O governo sírio já interrompeu a minha permissão de residência". "Deixo o país para evitar danos piores devidos à minha situação pessoal", explicou laconicamente à Rádio do Vaticano. Provavelmente, ele tema represálias.

A reportagem é de Viviana Mazza, publicada no jornal Corriere della Sera, 13-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para o Pe. Dall'Oglio, a revolução síria marcou "uma libertação dos corações e das línguas, uma emancipação cultural de massa que responde à Primavera Árabe". E se "não se conseguiu salvaguardar a natureza pacifista" do movimento, ele diz que a culpa é da "repressão do regime, imediata, radical e protegida pela indolência internacional". E acrescenta que "é do interesse do regime só ter pela frente as milícias. Esvazia-se o espaço democrático não violento, dando-lhe como alimento para os extremistas armados contrários".

Trinta anos na Síria, "uma vida inteira". "A minha Síria começou com os estudos de língua árabe e do Islã", conta Dall'Oglio, nascido em Roma em 1954, jesuíta desde 1975 e "Apaixonado pelo Islã, crente em Jesus", como diz o título de um de seus livros. Nos anos 1980, reconstruiu no deserto o mosteiro de Mar Musa: "uma grande paixão". "Ele foi um palco do diálogo islâmico-cristão. Escrevemos livros em árabe com amigos muçulmanos e cristãos, e houve o grande compromisso civil e social de luta contra a desertificação pela criação de um parque regional".

Nos anos 1980 e 1990, "a visão era de ampliar o consenso nacional em sentido progressista e reformista, esperando que, com o fim da Guerra Fria, houvesse uma aproximação progressiva à democracia madura. Muitos intelectuais esperavam que Bashar Assad fosse o protagonista da democratização síria", conta o jesuíta. Isso não aconteceu e, durante anos, "para evitar um imaginário pior, os sírios permaneceram reféns de uma lógica de regime". Até março de 2011.

O Pe. Dall'Oglio se enfurece: "Com essa imensa desculpa da luta mais ou menos real contra o terrorismo, são negadas as esperanças e os imensos sacrifícios dos jovens democráticos sírios de todas as pertenças religiosas". E acrescenta: "Agem no movimento sírio centros de produção de mentiras pagas como o Réseau Voltaire, muito hábil para empregar as fobias da minoria cristã para veicular a imensa mentira de que, na Síria, não há revolução democrática, mas apenas luta do Estado contra o terrorismo islâmico".

No fim de maio, em Quseir, perto de Homs, o padre obteve a libertação de três cristãos sequestrados. "Isso aconteceu por causa de violentos incidentes de caráter confessional entre cristãos e muçulmanos, impulsionados por quem tinha interesse em transformar a situação síria em uma guerra religiosa. Quseir está nas mãos do chamado Exército Livre, o mais politicamente confiável, mas que não é capaz de controlar todo o território. Há grupos caracterizados religiosamente de modo extremo, e é difícil de dizer se estão ou não ligados à Al Qaeda. Restam grupos de natureza clandestina, até mesmo dentro do âmbito revolucionário. São pré-existentes à revolução, manipuláveis pelas máfias e pelos serviços secretos. Acredito que seja uma presença marginal, mas, indo rumo a uma guerra civil, os espaços se ampliam".

Quseir não é um acaso. "A balcanização da Síria é um fato, não um perigo. A leste do Orontes, a população é majoritariamente sunita; a oeste, majoritariamente alauíta e cristã. Homs está quase toda a leste, mas se diz que os alauítas querem-na toda para si e que a bombardeiam para esvaziá-la. Os cristãos, que se mantiveram neutros, foram empurrados para fora pelos muçulmanos sunitas revolucionários, e os bairros foram bombardeados pelo regime, as igrejas destruídas, por um imenso erro diplomático dos responsáveis eclesiásticos tanto ortodoxos quanto católicos, porque a Rússia podia ter contribuído com uma boa palavra. Em algumas áreas, os cristãos estão armados e fazem parte do cantão alauíta".

Nesse contexto, massacres como os de Hula e de Qubair nascem do "espírito de autoconservação do grupo étnico alauíta, que se considera em perigo com o enfraquecimento do Estado e agora busca cavar uma trincheira étnica. Quando Assad diz que não tem nada a fazer, bem, ele tem um pouco de razão: as ações in loco estão desligadas da sua capacidade para gerir a crise. Mas há uma responsabilidade objetiva dos dirigentes que será verificada pelos tribunais internacionais, que julgarão, infelizmente, depois dos eventos".