Um "turbossanto" que passará para a história com a sombra da suspeita

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15 Janeiro 2011


Decepção. Não tanto pelo fundo, mas sim pela forma da subida aos altares de João Paulo II. Um Papa que, a estas alturas, ninguém pensa em negar-lhe um lugar na história. E talvez também nos altares. Mas, a seu devido tempo, o Papa Magno não merece essa turbobeatificação, rodeada de polêmica, de suspeitas e, talvez, de manchas. Pouco favor lhe é feito, assim como à instituição.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada no sítio Religión Digital, 14-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Igreja que vive e presume atuar na divisão do tempo eterno encurta prazos e se lança em uma corrida santificadora que só pode trazer más consequências. Já se sabe que a pressa é má conselheira e, em assuntos tão delicados como o da santidade, pode se converter em um contrassenso, em um antiexemplo.

Para isso, é melhor que se volte a reimplantar o processo de beatificação por aclamação. Pelo menos, o povo seria o artífice. Dessa forma, também fica comprometida a figura do Papa atual. Porque ele, e só ele, é o último responsável pela decisão.

É verdade que a "direita católica" lhe pressionava de uma forma atroz. Essa direita, mais ratzingeriana do que o próprio Ratzinger, mas só para o que lhes convêm. Nestes mesmos dias, enquanto urgia Bento XVI insistentemente para acelerar o processo para o santo subito, também lhe criticava abertamente pela sua convocatória do encontro inter-religioso de Assis.

Outros dizem que o Papa Ratzinger se viu obrigado a dar o seu consentimento à beatificação do seu "amado" antecessor não só por causa das pressões da "direita católica", mas também para se adiantar aos eventuais acontecimento e pôr a salvo a figura do Papa polonês. Já se sabe (e ficou comprovado com Escrivá) que, uma vez que um personagem público sobe aos altares, torna-se quase imune às críticas e às acusações.

Mas isso era há algumas décadas. Hoje as coisas mudaram. E se surgirem novas implicações, novas acusações, novas conivências provadas do Papa Wojtyla com Maciel ou com algum caso de pedofilia, vai ser atingido igual. Ou mais. E para sempre. E sem voltar atrás. E com outro Papa comprometido em sua autoridade.

É difícil de explicar a decisão do Papa Ratzinger. Haverá outras razões que só ele sabe e não pode nem deve explicitar publicamente? Como é possível que o Papa varredor de Deus, comprometido com a limpeza a fundo da Igreja e das hipotecas do passado mais recente, eleve aos altares o seu antecessor, ao qual já se acusa (e, pelo que parece, com provas) de pelo menos saber (quando não de favorecer) o "profeta da maldade", Marcial Maciel?

Tristeza e decepção. O que, dentro de 10 ou 15 anos, poderia ser uma festa universal de alegria e esperança em memória do Papa Magno, vai se converter em uma solenidade gozosa para alguns e triste para outros. Mais uma vez, um "turbossanto" que passará para a história com a sombra da suspeita.