André Mendonça, ou pode chamar de Virgem da pedreira. Artigo de Hugo Souza

Foto: Erica Viana/Unplash

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28 Setembro 2026

Então não há “lastro probatório mínimo” de que a “família miliciana” ataca religiões diversas daquela do terrivelmente?

O artigo é de Hugo Souza, jornalista, em artigo publicado por Come Ananás, 27-09-2026.

Eis o artigo.

No início de agosto, o PT acionou o TSE contra um vídeo publicado por Flavio Bolsonaro que associa o partido ao Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital. O vídeo, feito com IA, não é nada sutil na vinculação cometida via prompt: Flavio aparece na cabine de um caça-bombardeiro explodindo uma lancha com a sigla “CV” e uma segunda com a sigla “PCC”, para depois perseguir uma terceira com “PT” escrito na proa em letras garrafais.

Tudo ao som de Danger zone, música tema do filme Top Gun, e no enredo dos ataques do Comando Sul dos EUA a lanchas “de narcotraficantes” no Caribe e no Pacífico. Não lembra? Os ataques a lanchas que precederam a invasão da Venezuela pelo Departamento “de Guerra” de Donald Trump, no começo do ano, para arrancar Nicolás Maduro de Caracas e levá-lo, sequestrado, para o Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, em Nova York.

A ação do PT no TSE contra a “associação falsa, dolosa e difamatória” caiu com André Mendonça, que negou tirar o vídeo do ar sob a fundamentação algo bizarra de que é caso de “narrativa evidentemente ficcional” e portanto não teria o condão, para usar palavra da moda, de induzir o eleitor a crer em laços do PT com as maiores facções criminosas do país. Derrubar o vídeo seria, segundo Mendonça, “restrição excessiva” à liberdade de expressão.

Agora, caiu também com André Mendonça o pedido de Flavio Bolsonaro para remoção de postagem do humorista Antonio Tabet que dizia o seguinte: “A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”. “Dizia” porque Mendonça mandou derrubá-la junto com outras 1.600 manifestações semelhantes feitas na internet no lastro da informação de que bolsonaristas estariam tentando reanimar um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

A informação foi dada pela jornalista Maria Cristina Fernandes no programa Em Pauta, da GloboNews, da última quinta-feira, 24. Trata-se de informação de bastidor, como são 99% daquilo que Valdos, Camarottis e Sadis trazem à baila, “para o assinante”, dia sim, dia também, no mesmo canal. “É notícia, é bastidor, é Estúdio I”, diz Andreia Sadi de segunda a sexta, em todo início de tarde, na GloboNews. Horas depois do Em Pauta da última quinta, porém, estranhamente, a emissora resolveu desmentir Maria Cristina Fernandes.

A justificativa para o desmentido foi que um projeto de lei para “destituir” Aparecida já tinha sido arquivado na Câmara dos Deputados. Neste adiantado da degeneração do Congresso Nacional, de repente o Grupo Globo não acredita mais em ressurreição de matérias legislativas já envoltas em sudário por José de Arimateia — milagre tantas vezes documentado —, a ponto de entregar Maria Cristina Fernandes aos cães bolsonaristas, conforme enfatizado pelo Diário do Centro do Mundo.

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Em sua decisão, André Mendonça disse não haver “lastro probatório mínimo para a narrativa” — ataques à figura de Nossa Senhora Aparecida pela “família miliciana”, carapuça, aliás, assumida de pronto e sem enrubescer pelo litigante e por seu padroeiro na Justiça Eleitoral.

Como se nunca tivessem acontecido os tumultos causados em Aparecida do Norte, em 2022, por cachorrada bolsonarista atiçada por seu tutor (outra palavra em voga) bem no dia de Nossa Senhora Aparecida, episódio que ficou conhecido como o “segundo chute na santa”. Como se o pastor da Universal Sergio Von Helder, autor do primeiro chute na santa, em 1995, na TV Record, não fosse hoje terrivelmente bolsonarista. Como se o ex-deputado Victório Galli, autor do projeto de lei anti-padroeira — o PL arquivado —, não tivesse ocupado cargo no Palácio do Planalto no governo de Jair Bolsonaro.

E por aí vai.

No conto A Virgem da pedreira, da excelente escritora argentina Mariana Enriquez, Natália, tomada por ressentimento e seu desdobro, o ódio, quer ver Silvia “arruinada, desamparada, destruída”, porque é Silvia quem tem a atenção de Diego, seu amado. Um dia, no lago de calcário onde a turma toda ia nadar nos fins de semana, Natália vai até a gruta às margens do lago onde, diziam, havia o altar de uma santa. Lá, constata que não se trata de uma Virgem, mas de “algo brasileiro”. Quando o manto branco virginal da imagem cai por terra, diante de seus olhos, Natália faz um pedido.

Minutos depois, Silvia e Diego são atacados à beira do lago por cães do tamanho de potros surgidos de súbito, de trás de uma colina. Natália observa, impávida, e diz: “São os meus cachorros!”.

“São os meus cachorros!”

A virgem da pedreira foi adaptado recentemente para o cinema, ou melhor, pelo streaming da HBO. Alô, Mendonça, você sabe: qualquer semelhança, trata-se de “narrativa evidentemente ficcional”.

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