Gramática do Ocidente. Artigo de Giorgio Agamben

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30 Abril 2026

"O Ocidente é, do princípio ao fim, uma civilização gramatical, que fez da análise da linguagem e de sua construção gramatical a base de seu conhecimento do mundo e de seu domínio sobre a natureza", escreve Giorgio Agamben, filósofo italiano, em comentário publicado por Quodlibet, 20-04-2026.

Eis o artigo.

Em um ensaio de 1942, Louis Renou afirmou que "o raciocínio gramatical fundamenta o pensamento indiano". As três categorias em que toda a realidade se divide, segundo a filosofia indiana — substância, qualidade e ação — derivam inquestionavelmente da análise gramatical da linguagem: substantivo, adjetivo e verbo. A gramática sânscrita de Panini e o comentário de Patañjali, de fato, são anteriores à maioria dos textos filosóficos indianos.

Pode-se questionar até que ponto isso também se aplica à filosofia grega que fundamenta nossa cultura. Essa hipótese parece ser contradita pela tradição que atribui a Platão e Aristóteles a descoberta das classes de palavras e, consequentemente, a invenção da gramática. O contraste se desvanece e desaparece assim que se compreende que o que estava sendo sugerido era que, para serem filósofos, Platão e Aristóteles deveriam primeiro ter sido gramáticos.

O Ocidente é, do princípio ao fim, uma civilização gramatical, que fez da análise da linguagem e de sua construção gramatical a base de seu conhecimento do mundo e de seu domínio sobre a natureza. A ciência, que se tornou a religião do Ocidente, pressupõe, como toda religião, um mundo nomeado, no qual a ontologia — isto é, o fato de o ser ser expresso e ordenado na linguagem — se divide em regiões, cada uma delas abordada por uma ciência específica. O destino do Ocidente, portanto, está inscrito na gramática indo-europeia, com seus casos e conexões lógico-sintáticas de dependência hierárquica nas quais, juntamente com sua linguagem, articula seu pensamento.

Talvez seja por isso que, ao olharmos para a China — isto é, para uma cultura que não analisou e construiu sua própria língua dentro de uma gramática, mas vê nela monossílabos sem qualquer articulação gramatical — encontramos, senão um novo pensamento, pelo menos uma saída para o sombrio destino que, sem que percebamos, a análise lógica da linguagem, que não por acaso nos é ensinada no ensino fundamental, inevitavelmente nos reservou.

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