“É imprescindível superar os preconceitos racistas”. Entrevista com Elodie Edwards-Grossi e Delphine Peiretti-Courtis

Fonte: Wikimedia Commons

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21 Março 2026

Na véspera do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, celebrado neste sábado, 21 de março, a socióloga Elodie Edwards-Grossi e a historiadora Delphine Peiretti-Courtis lançam luz sobre o ressurgimento do racismo na área médica hoje e sobre os meios para acabar com ele no futuro.

A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 20-03-2026. A tradução é do Cepat.

Elodie Edwards-Grossi e Delphine Peiretti-Courtis enfatizam desde o início que o racismo científico e médico está “longe de ter desaparecido”. Herdado da história colonial e escravista, ele “permeou os tempos e ainda tem um impacto significativo” hoje em pacientes racializados, que são expostos a preconceitos raciais prejudiciais. Embora esse fenômeno permaneça em grande parte oculto, a socióloga e a historiadora, em seu livro mais recente, Le Racisme scientifique et médical, du XIXe siècle à nos jours (O racismo científico e médico: do século XIX aos dias atuais), editado em fevereiro pela PUF, buscam lançar luz sobre seus mecanismos de produção, circulação e ressurgimento, a fim de mudar o status quo no mundo da medicina.

Na véspera do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, Elodie Edwards-Grossi e Delphine Peiretti-Courtis (respectivamente, professora titular de Sociologia na Universidade Paris-Dauphine-PSL e professora associada de História Contemporânea na Universidade Aix-Marseille) nos concederam uma entrevista para explorar o ressurgimento do racismo científico e médico e delinear estratégias sustentáveis para combatê-lo no futuro.

Eis a entrevista.

Na introdução do livro, vocês constatam um “ressurgimento de estereótipos biológicos direcionados a pessoas racializadas, que remetem às principais teorias do racismo científico do século XIX”. Como isso se manifesta?

Élodie Edwards-Grossi: O que observamos foi, em primeiro lugar, a circulação nas redes sociais de estereótipos relacionados ao corpo. Por exemplo, um mapa que mostra supostas diferenças de QI com base em áreas geográficas (originalmente produzido por um psicólogo britânico altamente controverso, Richard Lynn) circulou em inúmeras contas, principalmente nas da extrema-direita.

Mas o que aparece nas redes sociais é apenas um reflexo dos discursos presentes na sociedade. Esses mesmos discursos também são encontrados – embora formulados de maneira diferente – entre alguns profissionais da saúde que continuam acreditando que existe uma base biológica para as categorias raciais. Na medicina, essa ideia gira em torno da “síndrome mediterrânea”, uma crença errônea que sugere que pessoas do Norte da África e da África Subsaariana exageram sua dor.

Delphine Peiretti-Courtis: Outro exemplo marcante vem de Donald Trump, que emprega uma retórica herdada do século XIX, especialmente a ideia de que o sangue dos imigrantes contamina a população estadunidense. Esse tipo de discurso também é encontrado entre supremacistas brancos que buscam reativar o conceito de raça na ciência.

Sem generalizar a persistência ou o ressurgimento de estereótipos raciais a todos os cientistas, algumas pesquisas atuais – especialmente na genética ou em torno de testes de QI – reativam a teoria da existência de raças biológicas. Esse fenômeno é especialmente pronunciado nos Estados Unidos, mas também existe na Europa. Alguns cientistas são colocados no ostracismo quando endossam esse tipo de ideia herdada da era colonial, mas, mesmo assim, alcançam certo grau de sucesso. Eles afirmam produzir ciência “de verdade”, em oposição a uma ciência considerada ideológica e politicamente correta – o tipo que desconstruiu a ideia de raças humanas biológicas.

Esses preconceitos raciais têm repercussões dramáticas no atendimento aos pacientes. Uma pesquisa realizada em 2024 com 1.500 profissionais da saúde de salas de emergência na França, Bélgica, Suíça e Mônaco revelou que, com sintomas idênticos, 63% dos homens brancos foram internados em unidades de terapia intensiva, em comparação com apenas 42% das mulheres negras…

Delphine Peiretti-Courtis: Este estudo demonstra claramente que, em situações de emergência, os estereótipos raciais – às vezes agravados por estereótipos de gênero – podem ser mobilizados, muitas vezes sem que os profissionais da saúde estejam totalmente cientes de seus próprios preconceitos.

Élodie Edwards-Grossi: O problema é que essa negligência com a dor leva algumas pessoas a se autoexcluírem das instituições de saúde. Esse mecanismo é especialmente visível nos Estados Unidos, onde medicamentos como o BiDil (um tratamento para insuficiência cardíaca) foram desenvolvidos pela indústria farmacêutica estadunidense com uma estratégia de marketing voltada principalmente para afro-americanos. Alguns pacientes antecipam esse tipo de tratamento diferenciado ou prescrições específicas e, por essa razão, preferem se afastar do sistema de saúde, correndo o risco de perder cuidados vitais.

Para que os estereótipos raciais existam, eles precisam de um “vazio epistemológico” que, como vocês explicam, perpetua a “produção da ignorância”. Por que esse vazio persiste ainda hoje?

Élodie Edwards-Grossi: Porque o conhecimento médico ainda é predominantemente produzido por pessoas brancas. A maioria, senão todos, dos autores estudados em nosso livro são homens brancos que ocuparam posições de autoridade em instituições médicas e científicas reconhecidas antes de serem, em alguns casos, colocados no ostracismo por causa de suas ideias.

Embora a produção da ignorância seja certamente obra de pessoas brancas, indiferentes aos sofrimentos de pessoas de cor, ela também decorre da forma como o aparato estatal se recusa a produzir uma análise rigorosa das relações sociais de raça. Na França, as estatísticas étnicas são proibidas, criando efetivamente um vazio epistemológico. Sem as ferramentas necessárias, é estruturalmente difícil analisar a discriminação, na saúde como em outros campos, deixando amplo espaço para a persistência e a disseminação de crenças. Ora, é precisamente essa ignorância que contribui para a contínua disseminação de estereótipos e teorias nocivas na medicina e nas ciências naturais.

Delphine Peiretti-Courtis: Hoje, temos principalmente relatos de violências médicas e ginecológicas ligadas à discriminação racial. Essas pesquisas e narrativas, embora valiosas, ainda são insuficientes. Isso é especialmente verdadeiro, visto que os afetados se sentem ignorados. A falta de pesquisas e estatísticas étnico-raciais perpetua, portanto, o atendimento inadequado e uma luta ineficaz contra a discriminação baseada na raça, na cultura ou na origem.

Isso é especialmente visível na dermatologia, uma área em que a sub-representação de pessoas negras dificulta o tratamento de doenças como eczema ou psoríase, cujas manifestações são diferentes na pele negra. Um estudante de medicina nigeriano, Chiedebere Ibe, relata nunca ter visto pele negra em seus livros didáticos de medicina sobre doenças dermatológicas. Ele agora se dedica a criar ilustrações para livros de medicina de modo a preencher essa lacuna.

Delphine Peiretti-Courtis: Mas houve alguns avanços: dentro da Sociedade Francesa de Dermatologia, foi criado um grupo “Pele Negra” para abordar essas deficiências e levar melhor em consideração essas especificidades. Hoje, iniciativas desse tipo estão surgindo na comunidade médica para mudar essas práticas e integrar melhor essas questões.

Élodie Edwards-Grossi: Nos últimos vinte anos, também temos visto vários profissionais da saúde dialogando com pesquisadores de história e ciências sociais para entender melhor como os determinantes sociais da saúde, como classe e raça, influenciam a prestação de cuidados.

Essas iniciativas ainda são marginais?

Delphine Peiretti-Courtis: Embora algumas organizações, como a Migration Santé Alsace, ofereçam formação sobre a história dos preconceitos raciais, a medicina colonial e seus legados, e algumas faculdades de medicina também estejam começando a integrar essas questões, esses tipos de iniciativas ainda são, em grande parte, impulsionados pelos próprios profissionais da saúde.

Por exemplo, a pneumologista Patricia Lemarchand entrou em contato comigo para trabalhar no espirômetro, um instrumento para medir o volume de ar exalado pelos pulmões que, ainda hoje, é calibrado de acordo com diferentes categorias raciais (“caucasiano”, “africano”, “asiático” ou “outro”), usando classificações herdadas do século XIX. Essas ferramentas atribuem uma capacidade respiratória 15% menor a pessoas identificadas como negras. Esses são legados diretos da escravidão, quando os corpos e as capacidades respiratórias de indivíduos escravizados, que eram debilitados, eram medidos.

Esses padrões, transmitidos dos Estados Unidos para a Europa, permanecem em uso até hoje, muitas vezes sem que os profissionais da saúde tenham conhecimento de sua origem. Eles podem levar à subestimação de certas patologias respiratórias nos pacientes em questão, ao subestimar imediatamente sua capacidade vital.

Élodie Edwards-Grossi: Embora novas dinâmicas estejam surgindo, ligadas à maior diversidade entre os profissionais da saúde, não existe, neste momento, uma posição majoritária entre os principais órgãos médicos que reconheça plenamente essas questões, seja na França ou nos Estados Unidos. Muitos estereótipos e teorias persistem, sutilmente presentes em manuais, cursos e currículos.

Que medidas concretas poderiam ser tomadas para reduzir o racismo na área médica? Deveríamos começar reformando o ensino médico?

Élodie Edwards-Grossi: Acredito que isso envolva, em particular, a quebra de barreiras disciplinares para aprofundar o diálogo entre pesquisadores das ciências biológicas e médicas, profissionais da saúde e pesquisadores das ciências sociais que trabalham com relações raciais. O objetivo é permitir que os profissionais da saúde compreendam tanto as origens como o ressurgimento dessas práticas.

Certos temas podem servir como pontes, especialmente as questões ambientais. No caso de doenças como a asma, a exposição e o diagnóstico estão intimamente ligados aos determinantes sociais da saúde: local de residência, proximidade de uma fábrica ou rodovia, exposição a emissões tóxicas, etc. Essas questões convidam os profissionais da saúde a prestarem mais atenção aos determinantes sociais e abrem caminho para uma reavaliação da abordagem “puramente biológica”, ou seja, a busca sistemática por causas genéticas para explicar as diferenças entre populações.

Delphine Peiretti-Courtis: Na minha opinião, a formação é um ponto central. Ela deve começar na faculdade de medicina, mas também continuar ao longo da carreira profissional, a fim de destacar estereótipos que podem persistir, às vezes inconscientemente. Todos fazemos parte de uma sociedade permeada por preconceitos e discriminação racial; portanto, é essencial reconhecer que podemos ser portadores desses preconceitos. Na área da saúde, onde vidas estão em jogo, é imprescindível nos livrarmos desses preconceitos racistas. Isso também requer uma conscientização mais ampla, tanto nas escolas quanto na sociedade em geral, para desmantelar esses estereótipos.

É também necessário desenvolver inquéritos estatísticos sobre as discriminações raciais na medicina, a fim de avaliar a extensão do fenômeno e poder agir eficazmente. Podem ser consideradas várias abordagens: questionários enviados aos pacientes após as consultas para recolher informações sobre eventuais experiências de discriminação, ou a criação de comissões de vigilância nas unidades de saúde, com a missão de garantir a igualdade de tratamento. Tais mecanismos já existem na Grã-Bretanha e no Canadá, sobretudo após dramas como o vivido pela Joyce Echaquan (da tribo dos Atikamekw) em 2020, relacionado com a subestimação da sua dor.

Após séculos de preconceitos raciais, será que a medicina pode realmente se reinventar no futuro?

Delphine Peiretti-Courtis: Tudo depende da direção que a França tomar. Atualmente, o que preocupa é um racismo descarado, um discurso liberal presente na mídia, entre políticos, na sociedade, nas redes sociais, etc. O contexto, portanto, é desfavorável a uma desconstrução efetiva de estereótipos e discriminações, já que esses discursos são expressos com muita liberdade. Dito isso, diante desse racismo descarado, grupos de resistência se organizam, disponibilizando cada vez mais recursos para aprender sobre o assunto.

Em Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), o psiquiatra e ensaísta Frantz Fanon já denunciava os estereótipos raciais na medicina e defendia a superação dessas lógicas de categorização. Hoje, essas reflexões continuam em novas esferas. Penso na conta do Instagram @tantquejeserainoire, apoiada especialmente pela Tsipora Sidibé, que aborda o preconceito na saúde, oferecendo soluções concretas, de uma perspectiva que considero esperançosa. O L'Observatoire féministe des violences médicales (Observatório Feminista das Violências Médicas) também é um recurso importante, oferecendo soluções para pessoas racializadas que enfrentam violências em ambientes de saúde, especialmente em relação a como agir e se proteger. Por fim, o livro curto e acessível de Camille Aumont Carnel, Être raciste, c’est quoi? (O que é ser racista?), aborda, entre outros temas, a violência ginecológica.

Élodie Edwards-Grossi: Um ponto positivo é a existência de canais para disseminar essas análises, que começam a permear a ciência médica. Essas questões estão agora mais visíveis e, à sua maneira, contribuem para a evolução dos debates e das práticas. Penso de modo especial no podcast Kiffe ta race, que não trata apenas da saúde ou da medicina, mas oferece uma reflexão acessível sobre a construção de estereótipos racistas, suas origens e as formas de racismo estrutural na França e no exterior.

Gostaria também de mencionar um livro, ainda não traduzido para o francês: Medical Bondage (University of Georgia Press, 2018), de Deirdre Cooper Owens. Este livro revisita a história da ginecologia no século XIX, mostrando como certas teorias e experimentos foram desenvolvidos nos corpos de mulheres escravizadas. Ele lança luz, a partir de uma perspectiva histórica, sobre a violência ginecológica contemporânea e os estereótipos que continuam a pesar sobre os corpos negros, frequentemente marginalizados e tratados de forma diferente nas práticas médicas.

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