Não é tragédia, é omissão de planejamento

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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27 Fevereiro 2026

Desastre com mais de 50 mortes em Juiz de Fora explicita, uma vez mais, o que ocorre quando governos não investem em adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

A reportagem é Roberto Kaz, publicada por Observatório do Clima, 26-02-2026.

O dado é do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden: Juiz de Fora ocupa o nono lugar na lista de municípios com a maior população em área de risco. São 130 mil pessoas – quase um quarto da população – vivendo em encostas. E, diante disso, o que fez Romeu Zema (NOVO), o governador de Minas Gerais? Reduziu em 96% o investimento estadual para prevenção contra impactos da chuva. O valor empenhado minguou de R$ 135 milhões em 2023 para pífios R$ 6 milhões em 2025 – isso para atender todas as 21 milhões de pessoas que vivem no segundo estado mais populoso do país.

As 55 mortes contabilizadas até agora em Juiz de Fora e as seis em sua vizinha, Ubá, não ocorreram ao acaso. São o retrato repetido à exaustão, ano a ano, do que ocorre quando governantes não investem na adaptação de suas cidades e seus estados aos efeitos das mudanças climáticas.

“Esse caso é emblemático por mostrar o quanto essas narrativas dos políticos, principalmente das prefeituras, chegaram no limite” diz Thaynah Gutierrez, assessora internacional de Clima e Racismo Ambiental no Geledés – Instituto da Mulher Negra. “As prefeituras geralmente dão a desculpa de que têm se preparado, mas que lidaram com um volume de chuva muito maior do que o esperado. Só que o preparo é geralmente só o sistema de alerta.”

Em Juiz de Fora, a população recebeu repetidos alertas a respeito da chuva nos últimos dias. “O alerta dizia que você precisava sair de casa. Você saía. No dia seguinte voltava e recebia um novo alerta. Então saía de novo. Nesse vai e vem a população vai ficando sem amparo. É urgente que se aprimore esse sistema, para que as pessoas saibam o que é preciso fazer depois do alerta.”

O dado do Cemaden, que colocou Juiz de Fora como a nona cidade entre 1.942 com mais pessoas em situação de risco, é de 2023. Ou seja: não faltou aviso, e nem tempo, para que tanto o governo de Zema quanto a prefeitura, sob o comando de Margarida Salomão (PT), se preparassem. Mas não: a prefeitura só conseguiu liberar 15% de R$ 70 milhões destinados pelo Ministério das Cidades a obras do PAC para encostas em Juiz de Fora. Cerca de R$ 21 milhões estão parados por atraso no envio dos papéis necessários.

“Está na hora de começarmos a responsabilizar esses atores”, prossegue Thaynah Gutierrez, referindo-se de modo amplo aos prefeitos e governadores. “É preciso haver uma ação maior das Defensorias, do Ministério Público e da sociedade civil. Se não há dinheiro suficiente para fazer toda a adaptação necessária, então que se faça uma adaptação mínima, priorizando aqueles que morrem primeiro nesse tipo de desastre. Em Juiz de Fora, boa parte dos corpos são de pessoas negras. No Rio Grande do Sul foi a mesma coisa. No Recife também.” Ela sugere que parte do dinheiro que costuma irrigar o setor da construção civil seja revertido para requalificar as moradias dos que estão mais vulneráveis. “Mas os governos preferem privilegiar quem já é mais privilegiado.”

Em alguns casos, privilegiam a si mesmos. O urbanista e professor Roberto Andrés, estrategista de cidades da rede Nossas, lembra que o corte de 95% feito por Zema no combate aos impactos das chuvas não se repetiu quando ele decidiu aumentar o próprio salário em 300%: “Quem corta recursos para combate a enchentes quer ver mais tragédias como essas que estamos vendo.” (Em uma resposta cretina enviada à imprensa, o governo Zema disse que sua administração “realizou o maior investimento da história em proteção e defesa civil nos últimos anos”, destinando R$ 94 milhões para 494 municípios. Dividindo, chega-se à quantia de 190 mil reais por município, o preço de um jipe Compass.)

“O caso de Minas é muito pior do que a redução de orçamento”, explicou o geógrafo Diosmar Filho, da Associação de Pesquisa Iyaleta. “Minas Gerais tem 853 municípios. Desses, só 38% contavam, em 2021, com um plano diretor”, disse ele, referindo-se ao instrumento de planejamento urbano que tem papel fundamental para a prevenção a desastres.” O dado, extraído do IBGE, consta de um texto publicado por Filho no livro “Federalismo, Cooperativismo e Desastres“, da editora PUC-Rio. O livro também mostra que apenas 28% dos planos diretores no Brasil contam com planejamento para prevenir enchentes ou inundações. “O que está acontecendo é uma tragédia programada pelo próprio Estado pela ausência de política de gestão territorial. A gente convencionou chamar de tragédia, mas o nome mais correto é omissão de planejamento.”

Os eventos extremos, como as chuvas de Juiz de Fora, têm origem climática, sobretudo em um mundo que pelo terceiro ano seguido atingiu temperatura acima ou próxima de 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. Mas, como qualquer meteorologista sabe, tragédia = clima + vulnerabilidade. Se não dá mais para evitar o primeiro termo da equação, já que a mitigação da crise climática não foi feita a tempo, é preciso minimizar o segundo.

“Isso tem um impacto social profundo. Olha o quanto de infraestrutura o Estado precisa mobilizar, no que poderia ser um gasto com prevenção”, continuou Diosmar Filho, lembrando que o Brasil conta, agora, com um Plano Clima para políticas de adaptação. “Esse instrumento não pode ficar na gaveta, e uma forma de implementá-lo é através dos planos diretores urbanos, priorizando as áreas com populações mais vulneráveis. Agora, se nada for feito, daqui um ano voltamos à mesma conversa, só mudando o nome da cidade.”

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