09 Fevereiro 2026
Em uma sala da Universidade de Chicago, um grupo de cientistas revelou a nova posição de um relógio que não mede horas, mas, sim, a proximidade da humanidade de um ponto crítico. Nesta terça-feira, o Boletim dos Cientistas Atômicos anunciou que o Relógio do Juízo Final passou a marcar 85 segundos para meia-noite, a menor distância em suas quase oito décadas de história. A notícia mexeu com a comunidade científica e os líderes mundiais, colocando em primeiro plano a dimensão dos riscos atuais.
A reportagem é de Cecilia Castro, publicada por Infobae, 27-01-2026. A tradução é do Cepat.
O Relógio do Juízo Final não é um relógio comum. Criado em 1947 por cientistas como Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer, ele mede metaforicamente o quão perto a civilização está de uma catástrofe. Todos os anos, o conselho de ciência e segurança do Boletim, que inclui oito laureados com o Prêmio Nobel, avalia o estado do mundo e decide se deve mover os ponteiros. A marca de 85 segundos para a meia-noite representa o nível máximo de alerta desde a criação deste indicador.
Alexandra Bell, presidenta e diretora-executiva do Boletim, explicou no comunicado oficial: “O Relógio do Juízo Final é uma ferramenta para comunicar o quão perto estamos de destruir o mundo com tecnologias que nós mesmos criamos. Os riscos que enfrentamos pelas armas nucleares, mudanças climáticas e tecnologias disruptivas são cada vez maiores. Cada segundo conta e o tempo está se esgotando.”
Ameaças crescentes: armas nucleares, clima e desinformação
A decisão de adiantar o relógio se apoia em um diagnóstico preocupante. O Boletim dos Cientistas Atômicos cita o risco de uma nova corrida armamentista nuclear, a falta de avanço em acordos globais sobre a mudança climática, a proliferação de conflitos armados e a expansão da desinformação como fatores determinantes.
O comunicado oficial da Universidade de Chicago apontou que uma das principais razões é a expiração do Novo Tratado START entre os Estados Unidos e a Rússia, que regulamentava os arsenais nucleares de ambas as potências. Daniel Holz, presidente do comitê científico do Boletim, alertou: “Pela primeira vez em mais de meio século, nada impedirá uma corrida armamentista nuclear descontrolada”.
O impacto da desinformação e as novas tecnologias
A propagação global da desinformação ocupou um lugar central na avaliação dos especialistas. A ausência de “fatos compartilhados” enfraquece os laços sociais e a confiança nas instituições. Foi o que expressou a jornalista e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Ressa, durante a coletiva de imprensa do Boletim: “Sem fatos, não pode haver verdade; sem verdade, não pode haver confiança. Sem esses três, não há realidade compartilhada, não pode haver jornalismo, nem democracia”.
Além disso, os cientistas do Boletim ressaltam que as ferramentas tecnológicas, quando utilizadas sem regulamentação, podem agravar qualquer crise global existente.
Ao longo dos anos, o Relógio do Juízo Final oscilou de acordo com o ritmo da política internacional e os avanços tecnológicos. Após a assinatura do primeiro tratado de redução de armas estratégicas, em 1991, marcou seu ponto mais distante da meia-noite: 17 minutos. Em 2023 e 2024, marcou 90 segundos, e, em 2025, marcou 89 segundos. Hoje, a margem é a menor já existente.
O Boletim lembra que o relógio não foi projetado para medir definitivamente as ameaças existenciais, mas para fomentar o debate sobre temas científicos complexos e as crises que o planeta enfrenta. Apesar das críticas quanto ao seu caráter simbólico, o conselho defende sua utilidade para mobilizar a opinião pública e pressionar os líderes a tomarem medidas.
O que é possível fazer para se distanciar da meia-noite?
O alerta do Boletim dos Cientistas Atômicos não é uma mensagem de fatalidade, mas um apelo à ação coletiva. O grupo afirma que as ameaças listadas são “autoinfligidas” e que existem caminhos para reverter a avanço rumo à meia-noite.
Os especialistas insistiram que se a cooperação internacional e a responsabilidade política prevalecer sobre o confronto e a inação, o relógio pode retroceder.
Da redução de armas nucleares à adoção de acordos climáticos e a regulamentação de novas tecnologias, a mensagem enfatiza a capacidade da humanidade de mudar de rumo. Como Alexandra Bell nos lembrou: “Temos tempo para resolver os problemas que nós mesmos criamos”.
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