25 Março 2025
Emagrecido e fraco, mas ainda firme. Também desta vez, Francisco se superou para deixar a doença para trás, apesar das pesadas sequelas. Tanto para sair do barco em um mar tempestuoso ou para cruzar novamente a soleira da Casa Santa Marta em condições extremamente frágeis, as palavras do apóstolo João se aplicam ao pontífice de 88 anos: “No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo”. Quase como o profeta Elias, que sabe que deve continuar a perseverar na batalha. A nova fase do pontificado que se abre a partir de hoje é um desafio para governar a “sua” Igreja de campo, um projeto ainda em construção que exige enfrentar os tempos tumultuados no horizonte.
A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 24-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Nessas cinco longas semanas de singular “governo hospitalar”, Bergoglio exerceu seu ministério fechado em seu quarto no hospital Gemelli com indubitável tenacidade e esforço, organizando nomeações episcopais, documentos importantes e até mesmo divulgando o ambicioso roteiro para continuar o programa sinodal até 2028. É um processo que começou há sete anos e que prevê, a partir de baixo, o envolvimento cada vez mais intenso das periferias por meio de caminhos de implementação em nível local, assembleias de avaliação pelas conferências episcopais nacionais, até chegar a junho de 2028, com um documento básico sobre o qual, em outubro daquele ano, haverá o debate de uma grande Assembleia da Igreja, praticamente uma espécie de miniconcílio para fazer com que todos digiram o conceito de que a Igreja deve se abrir para todos, deve se reformar, virar a página com as mulheres, com os homossexuais, nas relações com a sociedade civil e com as outras religiões.
Já o fato de Bergoglio ter autorizado esse plano durante sua internação deixa claro o quão firme é sua vontade de dar concretude ao caminho percorrido até agora. E a renúncia nem sequer passa por sua cabeça, como seus colaboradores mais próximos têm repetido de forma incessante.
A essa altura, no entanto, a pergunta que muitos dentro e fora do Vaticano estão se fazendo, considerando sua evidente fragilidade física, é como será organizada a nova fase do governo no ambiente fechado de Santa Marta, com oxigênio à mão e temores de recaídas. Os médicos do Gemelli lhe disseram que ele não poderá mais trabalhar como estava acostumado e sempre fez, com ritmos intensos, uma audiência atrás da outra, conversas e trocas contínuas com bispos, cardeais e comunidades. Ele também terá que esquecer as viagens exaustivas ao exterior e talvez muitas celebrações ao ar livre em condições climáticas adversas. No entanto, continua sendo difícil conceber uma maneira diferente de governar daquela que Francisco estabeleceu até agora.
Nos doze anos de seu pontificado, ele deu prova de grande capacidade de decisão, bem como uma marcada aptidão para o controle meticuloso de cada etapa executiva. Na cúria, além disso, a falta de propensão do pontífice para a delegação levou a uma centralização progressiva do poder. O efeito pode ser visto nos órgãos da cúria cada vez mais esvaziados ou enfraquecidos, por exemplo, o papel da Secretaria de Estado. Antigamente era considerada o coração do sistema, agora não mais.
Provavelmente, nessa primeira fase de recuperação física que certamente durará vários meses (os médicos falaram, não por acaso, de uma “convalescença protegida”), Francisco poderia recorrer a uma espécie de correia de transmissão para emitir ordens e medidas.
Seus dois secretários pessoais de confiança, o italiano Pe. Fabio Salerno e o argentino Pe. Juan Villalon (a quem Bergoglio ordenou padre em Buenos Aires quando ainda era arcebispo). Ambos moram no mesmo andar que o Papa em Santa Marta. Além deles, também é possível que cardeais da cúria de seu convívio próximo, como Grech, Prevost ou Fernandez, estejam envolvidos. Há alguns dias, este último falou de possíveis “surpresas”. Não se sabe a que surpresas ele se referisse, mas parece ser garantido que o Vaticano está navegando à vista para encontrar uma maneira nova e mais ampla de administrar os muitos compromissos papais. Caso contrário, o risco é a paralisia do sistema.
Atualmente, o Papa se vale de um Conselho - chamado C9 - que é composto por nove cardeais, embora no momento apenas seis estejam no cargo (Parolin, Ambongo, Omella, Lacroix, Hollerich, Da Rocha). Os outros três, nesse interim, perderam o mandato devido ao seu 80º aniversário, mas deveriam ser substituídos em breve. Enquanto isso, os dossiês na mesa do Papa aguardando solução estão se acumulando. O primeiro deles é como trazer de volta a unidade em uma Igreja cada vez mais polarizada. Depois, há as questões muito práticas, como a necessidade de responder ao déficit financeiro da Santa Sé, que agora se arrasta inexoravelmente e que este ano deverá apresentar um déficit de nada menos que 70 milhões de euros.