Rupnik passou a ser ex-jesuíta, mas mantém-se padre, já sem diocese

Marko Iván Rupnik. (Foto: reprodução)

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Julho 2023

O presbítero e artista Marko Rupnik foi declarado expulso da Companhia de Jesus, devido à sua “recusa repetida” de abordar com os responsáveis da congregação as alegações de abuso sexual e de cumprir as restrições a ele impostas.

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7Margens, 18-07-2023. 

A informação acaba de ser prestada pelo superior direto de Rupnik, o padre Johan Verschueren, que não fez, por ora, qualquer comentário a uma posição do Centro Aletti, onde o artista trabalhava, segundo a qual o próprio Rupnik havia solicitado a sua saída dos jesuítas, já em 21 de janeiro deste ano, “observando todas as condições canônicas exigidas”.

Em qualquer caso, o desfecho passaria pela saída do padre. De acordo com a posição da Companhia, ele tinha até sexta-feira passada, dia 14, para recorrer da decisão de expulsão, tornando-se esta efetiva, caso não houvesse resposta, o que aconteceu.

A separação da Companhia de Jesus não acarreta o abandono do ministério presbiteral, ainda que Marko Rupnik precise de encontrar um bispo que aceite acolhê-lo e incardiná-lo na sua diocese, para que possa exercer como padre.

Com a saída de Rupnik há vários aspectos que se mantêm indefinidos. Um deles, que o padre Verschueren não referiu, é o que acontecerá aos restantes padres jesuítas que trabalhavam com Rupnik no Centro Aletti e que, segundo a diretora desta instituição artística e editorial, Maria Campanelli, tinham pedido igualmente para abandonar a Companhia.

Por outro lado, o Centro Aletti, fundado por Rupnik em meados dos anos 90, ocupa um edifício que foi doado aos jesuítas para dar vida e desenvolvimento ao projeto artístico, ao passo que a instituição que nele funciona passou a ser uma “associação pública de fiéis”, reconhecida e dependente da arquidiocese de Roma. O cardeal vigário, que representa o Papa Francisco como bispo, prometeu, há alguns meses, dar a conhecer oportunamente decisões que teriam de ser tomadas quanto ao Centro, não o tendo feito até agora, pelo menos publicamente.

“Acusações difamatórias e não provadas”

Finalmente, cabe referir que a carta de defesa de Rupnik, divulgada no último mês pela diretora do Centro Aletti, considerava as múltiplas e graves denúncias de abusos sexuais e de poder por parte daquele padre “uma campanha mediática baseada em acusações difamatórias e não provadas”. Negava, assim, pelo menos dois processos apreciados e julgados na então Congregação para a Doutrina da Fé, um dos quais foi arquivado por prescrição, em 2022, e outro resultou em reconhecimento de excomunhão automática (latae sententiae), em maio de 2020, levantada umas semanas depois em circunstâncias não totalmente esclarecidas.

De qualquer modo, segundo a responsável do Aletti, terá sido a credibilidade manifestada pelos superiores dos jesuítas à referida “campanha mediática” que terá levado Rupnik a tomar a iniciativa de pedir para abandonar a congregação.

O comunicado de Maria Campanelli silencia, porém, a recusa do padre Rupnik a corresponder a várias tentativas do seu superior, Johan Verschueren, para dialogar com ele, desde o fim de 2022.

Um outro tema que continua a desencadear polêmica diz respeito às muitas dezenas de obras em mosaico (fala-se em mais de 200) da autoria de Rupnik e da sua equipa, espalhadas um pouco por todo o mundo, as quais, em alguns casos, têm suscitado problemas. Há quem entenda que uma coisa é o artista e outra a sua obra e que esta não se pode questionar a partir de eventuais “pecados”, mesmo que graves, do seu autor. Mas há situações problemáticas. Várias vítimas de abusos insurgiram-se contra o fato de o santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em França, ter vários painéis de Rupnik e o bispo local criou uma comissão para ponderar o que fazer. Numa basílica polaca toda decorada pela equipe do ex-jesuíta, um grupo de vítimas que aí se reunia regularmente para rezar teve de procurar outro local, por se sentir incomodado com os trabalhos de um abusador. Em outros locais, discute-se a possibilidade de manter os painéis, mas colocar uma legenda a explicar quem foi o seu autor.

Recorde-se que, desde a basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, ao santuário da Senhora Aparecida, no Brasil, passando pela capela Redemptoris Mater no Vaticano, algumas das obras de Rupnik se destacam pela sua imponência e visibilidade, sendo difícil ou mesmo impossível a quem ali frequenta o culto ou simplesmente visita esses locais fazê-lo sem ruído e alguma perturbação.

Leia mais