Nós e os animais. As escolhas erradas

Foto: Wilfredorrh | Flickr CC

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14 Abril 2021

 

Quem compra carne no supermercado, limpa, rosada, lacrada em celofane, não pensa no que está por trás daquela embalagem, não conhece o caminho que fez aquele pedaço de carne até chegar à prateleira. Muitos nunca viram uma criação de animais em confinamento e comem carne bovina, embutidos e frango sem imaginar o que estão colocando na boca. Se pudesse, eu obrigaria os grandes comedores de carne a visitar uma fazenda de confinamento.

O comentário é de Dacia Maraini, escritora e poetisa italiana, autora do roteiro, entre outros, do filme Storia di Piera, publicado por Corriere della Sera, 13-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

A começar pelo cheiro que queima as narinas e dá vontade de vomitar. E depois, os pobres animais amontoados aos milhares: sejam galinhas empilhadas umas em cima das outras, ou porcos entupidos com farinha de peixe e soja, trancados em currais onde não conseguem nem ficar de pé, ou bezerros forçados a engolir hormônios para crescer rapidamente.

A falta de movimento os deixa doentes, e é por isso que os entopem de antibióticos. Esses antibióticos chegam à nossa mesa criando tolerância e bactérias resistentes ao medicamento. Não quero falar da piedade, da agonia de ver aqueles olhos desesperados pedindo ajuda, porque seria imediatamente acusada de bom mocismo.

Quero falar sobre interesses coletivos, sobre o futuro das nossas sociedades. Em todo o mundo, 70 bilhões de animais são mortos para consumo humano todos os anos. Dois em cada três crescem em sistemas de confinamento.

Na Itália, berço do bom presunto e dos famosos embutidos, 95% dos porcos se reproduzem e crescem em campos de concentração nazistas. As pastagens desapareceram. Um terço da colheita de grãos vai alimentar essa enorme quantidade de animais de abate, assim como um terço do pescado, conforme explica Philip Lymbery, diretor da Ciwf internacional.

Todos os anos, é desmatada uma área de floresta correspondente à metade da Grã-Bretanha para criar animais de corte. Isso sem falar no consumo de água em um mundo que caminha cada vez mais para a desertificação.

Se nos lembrarmos que 690 milhões de pessoas passam fome e sede no mundo (estatísticas da ONU), podemos nos perguntar se não seria absurdo desperdiçar cereais, soja e peixes para alimentar animais de corte.

A organização mundial de defesa dos animais de criação repete que não quer eliminar a carne da mesa, mas apenas pede que os animais de criação sejam tratados com humanidade e respeito às suas necessidades vitais. Um pouco de imaginação, por favor, a carne vem de um corpo, não do refrigerador.

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