Bolívia. Os militares antes do golpe. Radiografia das Forças Armadas do País

Foto: Kental MacElwee | Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Janeiro 2020

A posição dos militares tem sido cambiante. Que papel tiveram antes da chegada de Evo ao poder e qual adquiriram durante seu mandato? O que houve com as Forças Armadas que, durante os governos do MAS, incorporaram a wiphala aos uniformes e modificaram seu clássico lema “Subordinação e constância. Viva a Bolívia” pelo revolucionário “Pátria ou morte! Venceremos!”? .

O artigo é de Agostina Dasso, graduada em Estudos Internacionais pela Universidade Torcuato Di Tella, de Buenos Aires, Argentina, e professora assistente de Segurança e Conflitos Internacionais na mesma instituição, publicado por Nueva Sociedad, edição de Janeiro de 2020, e reproduzido por CPAL Social, 09-01-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O papel dos militares é um elemento chave para esclarecer o tipo de golpe que se levou adiante na Bolívia. O êxodo do poder de Evo Morales não foi, nem é o resultado de um plano do poder militar para derrotá-lo. A renúncia motiva-se, em primeiro lugar, por um levante massivo de setores urbanos e de classe média que paralisou o país. A manobra de Morales para desconhecer o referendo de 2016 e as irregularidades do processo eleitoral de 20 de outubro decantaram em uma mobilização social radicalizada e em um motim policial. Em 10 de novembro, o chefe do comando militar, Williams Kaliman, enviou uma carta onde “sugeriu” a Morales que renunciasse, a modo de evitar, ou pelo menos apaziguar, a violência que se desatava nas ruas. De acordo com a sucessão dos fatos, a renúncia se produziu imediatamente depois deste pedido, permitindo inferir que resulta causa e consequência da sugestão das Forças Armadas.

Para boa parte da sociedade boliviana e membros da comunidade internacional o que acontece na Bolívia, é produto de uma “revolução popular”. Porém, a situação é, desveladamente, mais complexa que a que se expressa no binômio “revolução-golpe. Se o conceito é o que se faz dele, uma situação igual e uma mesma realidade pode derivar em uma atribuição de classificações diferentes com significados claramente antagônicos. Neste contexto faz-se necessário analisar as relações entre civis e militares mais além da conjuntura.

Estado é Pátria

Depois das ditaduras de Hugo Banzer (1971-1978) e Luis García Meza (1980-1981), o modelo burocrático-autoritário boliviano começou a esgotar-se. As práticas repressivas, o desprestígio das cúpulas militares e a fragmentação corporativa conduziram ao acaso da Junta Militar que entregou o poder em 1982. A pós-transição democrática obrigou as Forças Armadas a mostrar uma imagem institucionalista e de respeito à Constituição. No entanto, esta imagem não esteve acompanhada de uma classe política dirigente que assumisse uma condução civil adequada e limitou o processo de democratização boliviano a um “pacto de coexistência pragmática civil-militar”, em palavras do militar e sociólogo Juan Ramón Quintana.

Em 1985, no marco de um contexto político conhecido como Pacto pela Democracia, o general de brigada César López questionou abertamente a Doutrina de Segurança Nacional que comprometia os militares à luta contra o narcotráfico, o terrorismo e a subversão. Antes da chegada de Morales ao poder, as filas armadas começaram a reconhecer que as ameaças à segurança boliviana estavam interpeladas pela pobreza, a corrupção, a desigualdade e a debilidade das instituições. Para 1985, a doutrina mudou. O inimigo da Bolívia passou a ser a injustiça social.

Chegados os anos democráticos, as Forças Armadas viraram seu foco a manter a ordem interna e conservar certa autonomia para tutelar a institucionalidade e a democracia boliviana sob o princípio de “Estado é Pátria”. Dois momentos críticos precederam o triunfo eleitoral de Evo Morales em 2006. No ano 2003 ocorreu o “Outubro Negro”. Foi uma violenta repressão dos militares frente à insurreição popular que levou ao julgamento político do então presidente Sánchez de Lozada e do Alto Comando militar. Em 2005, a saída de Carlos Mesa do governo a partir de uma poderosa insurreição popular que exigia a nacionalização do gás, voltou a mostrar as Forças Armadas no centro da cena. Esse último evento dividiu os militares entre um comando mais tradicionalista e os setores ligados ao Movimento ao Socialismo (MAS), a base operativa e política de Evo. Quando Morales assumiu a presidência, boa parte dos militares jovens respondiam diretamente a ele. A chegada de Evo em 2006 encaminhou um projeto para recuperar a tradição nacionalista declarando às Forças Armadas “socialistas, anti-imperialistas e anticapitalistas” e convertendo-as em uma peça central de seu projeto político.

Pátria ou morte. Venceremos!

A incorporação de um paradigma de “segurança integral” como parte do processo de mudança encarada por Evo Morales conduziu um aumento das funções das Forças Armadas. Para o primeiro Ministro de Defesa da era evista, Walker San Miguel, a visão clássica de segurança já não se acomodava ao projeto boliviano, mas sim que estava sendo substituída por uma visão multidimensional que fazia foco na integração e desenvolvimento.

À diferença de outros países da região, a política de defesa boliviana compromete explicitamente os militares em tarefas de segurança tanto externa como interna. É a própria Constituição vigente desde 2009 que assegura às Forças Armadas a missão de “defender e conservar a independência, segurança e estabilidade do Estado, sua honra e sua soberania; assegurar o império da Constituição, garantir a estabilidade do governo legalmente constituído e participar no desenvolvimento integral do país” (artigo 244). Se entende, então, que a extensão do papel das Forças Armadas (mais além do que tem tradicionalmente) lhes permite abarcar aspectos internos relacionados à estabilidade política e o desenvolvimento. O Plano Nacional de Desenvolvimento decretado em 2007 reafirma um papel onde a política de defesa tem “o objeto de restabelecer e fortalecer as capacidades institucionais”.

Em 2010, o documento “Bases para a Discussão da Doutrina de Segurança e Defesa do Estado Plurinacional da Bolívia” fixou entre seus objetivos a “segurança e a defesa integral”, isto é, a proteção do território e sua população, assim como a defesa dos seus recursos naturais de caráter estratégico frente a ameaças de índole externa e interna. Outro elemento de grande aproximação de Evo às Forças Armadas foi a reivindicação marítima da soberania, objetivo destacado na Política de Defesa do Estado. A partir desse momento, o processo de modernização e equipamento da instituição castrense começou a crescer de maneira exponencial. O orçamento, diretamente relacionado com o PIB, manteve-se entre 1,5% e 1,9% entre 2008 e 2018.

A transformação não somente foi constitucional, como também atraiu medidas simbólicas: a incorporação da Wiphala aos uniformes e o novo lema “Pátria ou Morte! Venceremos!”. A isso se somou um maior financiamento, a outorga de cargos civis na administração pública nacional e a criação da Escola Anti-imperialista. Ademais, para manter sua relação livre de rivalidades, Evo reconheceu publicamente que os militares não haviam sido os culpados dos cruéis atos da ditadura, justificando-o com o argumento segundo o qual haviam se limitado a obedecer às ordens civis e imperialista.

É uma armadilha

A grande expansão da missão dos militares na Bolívia levou ao envolvimento nas políticas sociais, à retenção de uma importante cota de poder e a um alto nível de autonomia para a planificação orçamentária, o desenho de planos e o controle de gastos, enfraquecendo a supervisão civil das atividades militares. A identificação das Forças Armadas com essas medidas também permitiu a proteção dos interesses da instituição e a relegitimação do papel militar.

Não é curioso que um país com déficits estruturais, uma burocracia enfraquecida e um Estado que não atenda às necessidades sociais em todo o território, empregue suas Forças Armadas para atender às suas necessidades institucionais. No entanto, a lógica do MAS consistiu em um estilo de liderança personalista e na concessão de autonomia e poder em troca de lealdade e apoio político. Em um continente de instituições e partidos políticos fracos, esse tipo de relacionamento pode ser perigoso. É gerada uma situação de grande dependência que deteriora a qualidade da institucionalização do controle civil e limita os governos à contenção do poder militar. O papel do Ministério da Defesa é prova dessa passividade: um ministério menos relevante que o Comando Militar Conjunto e que não se submete hierarquicamente ao comandante em chefe das Forças Armadas (depende do presidente e exerce um poder paralelo ao Ministro da Defesa). Na ausência de uma burocracia especializada, o planejamento e a administração permaneceram nas mãos dos próprios militares.

Foi o projeto político de Evo que levou os uniformizados a alcançar altos níveis de relevância, mas acabou condicionando a dimensão política e democrática onde ele fez mais transformações. No final do dia, a necessidade de evitar rivalidades, a construção de relações pessoais íntimas, a má implementação de mecanismos eficazes de supervisão e a limitação de contenção, aumentaram a explosão legal e constitucional de quem construiu esse esquema e liderou diretamente em direção a uma armadilha.

Quando o governo de fato assumiu o poder, as Forças Armadas tornaram-se responsáveis em conjunto mais por omissão do que por ação. Seu envolvimento foi subsequente, protegendo a transição – muito menos perigosa – do governo interino. Enquanto isso, a Bolívia e sua democracia interrompida agonizam.

Leia mais