Chile. “Foi uma marcha massiva”. Entrevista com Bárbara Figueroa, presidente da CUT do Chile

Protestos em Antofagasta. Foto: Rodrigo Pizarro | Flickr

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24 Outubro 2019

A dirigente sindical chilena aponta que buscam contribuir “a canalizar, ampliar e colocar pressão” sobre o governo de Piñera. A rua rechaça as medidas que anunciou o mandatário.

A entrevista é de Marta Dillon, publicada por Página/12, 24-10-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Com os braços levantados, as mãos abertas e protegida do sol com o boné da Central Unificada de Trabalhadores e Trabalhadoras (CUT), do Chile, Bárbara Figueroa, que preside a central sindical desde 2012, enfrentou um cordão de Carabineros que cortavam o passo da massiva manifestação que ocupou o centro de Santiago do Chile nesta manhã.

A resposta foi “uma cusparada de guanaco” ou um potente jato de água contaminada com a mesma substância do gás mostarda que disparado por um caminhão hidrante.

A dispersão foi inevitável, tanto como voltar a arremeter para tentar chegar até Los Héroes, a estação de metrô marcada como final da marcha que pela primeira vez desde a crise política havia sido convocada por organizações sindicais, estudantis, feministas, territoriais.

No entanto, a demonstração de força das ruas foi imponente e a primeira mulher a ocupar a direção da central trabalhista na história do Chile – e da região – faz um balanço mais que positivo do modo em que se manifestaram as organizações. Dirigente estudantil nas manifestações pela reforma educativa em 2011, Figueroa diz: “Foi uma marcha contundente e absolutamente massiva, não somente em Santiago, mas sim em todo país”.

Eis a entrevista.

Você pode calcular o número de participantes?

Eu não poderia dizer um número, embora haja quem arrisque que meio milhão de pessoas se manifestaram ontem em todas as regiões. Penso que o mais importante é, além da cidadania auto organizada, as organizações de trabalhadores com suas bandeiras, suas camisas de identificação, o orgulho de estarem em um sindicato. Você tem que dar conta de um objetivo; o que aconteceu é tremendamente positivo, para além da ação repressiva que não nos deixou ir além de Santa Rosa.

Você acha que é um salto na mobilização dos últimos seis dias que as organizações tenham tomado as ruas?

Não, o que quero dizer é que até agora não havia expressões organizadas e que agora poderíamos marchar em união. Do mundo social e sindical, não queremos arrogar nenhum mérito ou representação, mas queremos contribuir, desde a unidade do movimento, para canalizar, expandir e pressionar o governo a reconhecer esse surto social e manifestar de uma vez por todas a vontade de abrir os canais de diálogo que estão sendo exigidos.

A CUT, na articulação da Unidade Social, onde outras organizações estudantis, feministas e territoriais vivem juntas, considera-se um possível mediador entre o protesto social e o governo?

Prefiro dizer que as organizações precisam colocar nossa cara na rua e torná-la reconhecível, é por isso que carregamos nossas bandeiras. O governo se sente à vontade para falar sobre uma explosão social sem forma, para desconsiderar a estrutura das demandas, das mudanças necessárias. Essa situação está fora das estruturas tradicionais, pois, embora tragam demandas históricas, agora ela tem uma multiplicidade de formas e expressões relacionadas à vida orgânica e inorgânica da sociedade. Portanto, nossa responsabilidade é que essas demandas estruturais não se percam, que não estejam aqui, que não acabem com a repressão, mas que cresçam até alcançar as transformações fundamentais necessárias.

E não se parecem com as medidas anunciadas pelo presidente Sebastián Piñera na noite de terça-feira...

A resposta a essas medidas foi nas ruas e a rejeição foi esmagadora.

São medidas que não atendem ao que a população exige. O governo precisa parar de dizer que, se nada estiver em conformidade, não haverá saída. Dizemos que existe uma saída, mas não é a do governo. Se o governo deseja avançar na resposta, ele precisa procurar respostas profundas, não subsidiar empresas privadas de saúde e previdência. Deve haver pensões básicas que não sejam de indigência, um salário básico que alcance... não podem acreditar que se sentar com alguns partidos políticos resolverá! A demanda mais forte da rua é que sejam gerados mecanismos de participação ativa que envolvam quem está colocando o corpo nas ruas. Porque grande parte da mobilização é estrelada por quem não vota. Se queremos que as pessoas fiquem encharcadas no sentido de responsabilidade que envolve o desenho das formas políticas que desejamos, precisamos dar a eles mecanismos de participação eficazes e especialmente novos.

Uma assembleia constituinte?

Desde já. Porém também poderiam habilitar plebiscitos. Precisa-se construir a participação popular.

Porém, crês que se pode plebiscitar, por exemplo, se segue ou não o modelo neoliberal?

Nós como CUT acreditamos que não há saída no neoliberalismo, é uma posição coletiva que temos desde 2000, entendemos que qualquer saída dessa crise tem que ser sobre o profundo debate do modelo econômico. Porém sabemos que temos que começar desde o mais básico. Não se pode levantar o Chile como se tivesse atravessado uma catástrofe natural como propõe o presidente. Primeiro, é preciso ver que as pensões e salários não são suficientes e que não se pode seguir cobrando pelos serviços mais básicos como a água. Se essa fratura não for enfrentada do ponto de partida, não haverá maneira de abrir diálogo.

Tampouco parece haver possibilidade de diálogo com os militares e Carabineros nas ruas

É claro e evidente que estamos em um estado de exceção gerado pelo próprio governo, o povo está paralisado pelo próprio governo.

E neste cenário se aproximam em novembro e dezembro cúpulas de Estados como a da APEC – fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico – e a COP25 – sobre mudança climática. Pensas que há condições para que se realizem?

A verdade é que precisa se pensar muito bem do que se tratam essas cúpulas, há de avaliar tanto a segurança dos chefes de Estado, por conta do governo e de cada Estado, quanto do que eles virão falar, por nossa parte. O que passa no Chile não é um fato isolado, estamos falando de processos de esgotamento do neoliberalismo que também estão presentes na região latino-americana e no mundo. Que acordos vai fazer Piñera na APEC e com que autoridade? O que vai acontecer na COP25 quando o tema do meio-ambiente for tratado como se fosse secundário?

Como acredita que o resto da América Latina está reagindo diante do que ocorre no Chile?

Recebemos muitas demonstrações de solidariedade das centrais sindicais do Brasil, Argentina, Equador, Bolívia... A CGT, a CTA Autónoma e a CTA de los Trabajadores (Nota de IHU On-Line: estas são as principais centrais sindicais argentinas) são centrais irmãs e a solidariedade está bem afiançada. Porém temos que gerar uma ação continental mais decidida porque não é casual o pacote de ajustes no Equador, tal qual como Macri implementou na Argentina e aqui Piñera insistiu com a mercantilização de direitos. Eles se articulam, nós temos que pôr em cheque essa articulação e aí temos um pendente. Necessitamos planos mais sólidos continentais porque essas reações necessitam mais potência para conseguir golpear como um só punho e colocar sobre a mesa as mesmas demandas.

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