Francisco: os insultos, o desprezo e o ódio também matam

Foto: Marcela/ Flickr

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19 Outubro 2018

“Para ofender a inocência de uma criança, basta uma frase inapropriada. Para ferir uma mulher, pode bastar um gesto de frieza. Para despedaçar o coração de um jovem, basta negar-lhe a confiança. Para aniquilar um homem, basta ignorá-lo. A indiferença mata”. Durante a Audiência Geral, o Papa Francisco lembrou que Jesus revela “um significado muito mais profundo” do quinto mandamento: “Não matar”. E coloca o insulto, o desprezo e o ódio no mesmo nível do homicídio. Então, “não matar” significa “cuidar, valorizar, incluir e também perdoar”; é um “apelo ao amor”. “Um mineral, uma planta, este pavimento, não fazem nada de errado – disse o Papa Francisco aos fiéis presentes na Praça São Pedro; a um homem pede-se mais”.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 17-10-2018. A tradução é de André Langer.

Continuando o seu ciclo de catequese dedicado aos Dez Mandamentos, o Papa, que na semana passada dedicou a Audiência também ao quinto mandamento, comparando o aborto à contratação de um assassino, refletiu hoje sobre o mesmo mandamento na interpretação dada por Jesus, de acordo com o Evangelho de Mateus (5, 21-24).

“Jesus nos revela um sentido muito mais profundo deste mandamento”, recordou Francisco: “Ele afirma que, perante o tribunal de Deus, também a raiva contra um irmão é uma forma de homicídio. Por isso, o Apóstolo João escreveu: ‘Quem odeia o seu irmão é um homicida’. Mas Jesus não se detém nisso e, na mesma lógica, acrescenta que também o insulto e o desprezo podem matar. E nós – acrescentamos Francisco – estamos acostumados a insultar: é verdade, um insulto nos vem como se fosse respirar”.

“Mas Jesus – prosseguiu o Papa – nos disse: pare, porque o insulto machuca, mata. O desprezo, dizer ‘mas eu desprezo essas pessoas’, é uma maneira de matar a dignidade das pessoas. Seria bonito se este ensinamento de Jesus entrasse na mente, no coração de cada um de nós, e dizer: ‘Nunca mais vou insultar ninguém’. Seria um bom propósito. Jesus nos disse: olha que, se você despreza, se você insulta, se você odeia, isso é homicídio. Nenhum código humano compara atos tão diferentes atribuindo-lhes o mesmo grau de julgamento”.

De forma coerente, disse o Papa, “Jesus nos convida a interromper a oferta do sacrifício no templo se nos lembrarmos de que um irmão está ofendido conosco, para encontrá-lo e reconciliar-se com ele”, e “também quando vamos à igreja deveríamos ter esta atitude de reconciliação com as pessoas com as quais tivemos problemas, mesmo que tenhamos pensado mal delas, as tenhamos insultado”. Muitas vezes, explicou Francisco, “enquanto esperamos a entrada do padre para presidir a missa, conversamos um pouco e falamos mal dos outros. Mas não podemos fazer isso! Pensemos: a importância do insulto, a importância do desprezo, a importância do ódio”. Jesus os coloca no mesmo nível do homicídio.

O homem, continuou o Papa a explicar o significado do ensinamento evangélico, “tem uma vida nobre, muito sensível e tem um ‘eu’ recôndito não menos importante que seu ser físico. De fato, para ofender a inocência de uma criança, basta uma frase inapropriada. Para ferir uma mulher, pode bastar um gesto de frieza. Para despedaçar o coração de um jovem, basta negar-lhe a confiança. Para aniquilar um homem, basta ignorá-lo. A indiferença mata. É como dizer a outra pessoa: ‘você está morta para mim’, porque você a matou em seu coração. Não amar é o primeiro passo para matar; e não matar é o primeiro passo para amar”.

O “primeiro homicida”, Caim, depois que o Senhor lhe perguntou onde estava o seu irmão, respondeu: “Não sei. Acaso sou eu guarda de meu irmão?’ Assim, insistiu Francisco, “dizem os assassinos: ‘não me interessa’, ‘é coisa sua’, e coisas do tipo. Tentemos responder a esta pergunta: somos os guardiões dos nossos irmãos? Sim, somos! Somos os guardiões uns dos outros! E este é o caminho da vida, o caminho de não matar. A vida humana precisa de amor. E qual é o autêntico amor? É aquele que Cristo nos mostrou, isto é, a misericórdia. O amor que não nos pode faltar é aquele que perdoa, que acolhe aqueles que nos fizeram mal. Ninguém de nós pode sobreviver sem misericórdia, todos precisamos do perdão, todos”.

“Portanto – refletiu Francisco –, se matar significa destruir, suprimir, eliminar alguém, então ‘não matar’ significa cuidar, valorizar, incluir. E também perdoar. Ninguém pode se iludir pensando: ‘Estou bem, porque não faço nada de mal’. Um mineral, uma planta, este pavimento – disse o Papa, apontando para o chão da Praça São Pedro –, não fazem nada de errado, eles têm esse tipo de existência. Ao contrário, um homem não. A um homem pede-se mais. Há o bem a fazer, preparado para cada um de nós, cada um o seu, que nos faz nós mesmos até o fundo”.

O mandamento “Não matar” é, portanto, “um chamado ao amor e à misericórdia; é um chamado a viver segundo o Senhor Jesus, que deu a vida por nós e por nós ressuscitou”, lembrou o Papa, citando a frase de um santo: “Não fazer o mal é uma coisa boa, mas não fazer o bem não é bom. Devemos sempre fazer o bem, ir além”.

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