A força do bispo, 'em tempos em que o Grande Acusador se soltou e foi ter com os bispos', segundo Francisco

Foto: Pixabay

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12 Setembro 2018

“Nestes tempos, parece que o Grande Acusador se soltou e foi ter com os bispos”, procurando “revelar os pecados, para que sejam vistos, para escandalizar o povo”. Mas “a força do bispo – homem de oração, no meio do povo e que se sente escolhido por Deus – contra o Grande Acusador é a oração, a de Jesus sobre ele e a sua própria”. Foi uma oração “pelos nossos bispos: por mim, por estes que estão aqui na frente e por todos os bispos do mundo” que o Papa Francisco pediu ao celebrar, nessa terça-feira, 11 de setembro, a missa em Santa Marta.

A reportagem é publicada por L’Osservatore Romano, 11-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E ele recomendou aos bispos que estejam sempre “perto do povo de Deus, sem ir rumo a uma vida aristocrática”, que tira a sua “unção”, e sem serem “alpinistas” ou “buscar refúgio junto aos poderosos e às elites”.

“Toca o coração a simplicidade, também a transparência, com que Lucas nos narra a eleição dos apóstolos, dos primeiros bispos”, afirmou o papa, comentando a passagem evangélica proposta pela liturgia dessa terça-feira (Lucas 6, 12-19).

E logo atualizou a reflexão, lembrando que, neste período, “aqui em Roma, estão sendo realizados – um já terminou – três cursos para os bispos”. Foi promovido, contou, um curso “de atualização para os bispos que completaram 10 anos de episcopado” e “terminou nestes dias”. Nesse meio tempo, explicou o pontífice, “neste momento, estão sendo realizados dois cursos: um para 74 bispos que pertencem às dioceses que se referem à Congregação de Propaganda Fide”. E outro do qual participam 140 prelados que pertencem à Congregação para os Bispos.

Portanto, reafirmou o papa, todos “bispos novos, mais de 200”, participantes nesses dois cursos. E assim, confidenciou: “Eu pensei que, neste tempo assim”, em que “no Vaticano se faz esse trabalho com os novos bispos, talvez seja bom meditar um pouco sobre essa eleição dos bispos: como Jesus a fez, na primeira vez, e o que nos ensina”.

“São três coisas – afirmou Francisco a esse respeito – que chamam a atenção na atitude de Jesus.” Primeiro, “que Jesus reza”. O evangelista Lucas escreve: “Jesus foi ao monte para rezar e passou toda a noite rezando a Deus”.

A segunda atitude é que “Jesus escolhe: é Ele quem escolhe os bispos”.

E, “terceiro, Jesus desce com eles a um lugar plano e encontra o povo: no meio do povo”.

Precisamente essas, esclareceu o pontífice, são as “três dimensões do ofício episcopal: rezar, ser eleito e estar com o povo”. “Jesus reza, e reza pelos bispos”, continuou o papa. “É a grande consolação que um bispo tem nos momentos ruins: Jesus reza por mim. Neste momento, Jesus reza por mim”.

Além disso, “ele disse isto explicitamente a Pedro: ‘Vou rezar por ti, para que a tua fé não desapareça’”. De fato, insistiu Francisco, Jesus “reza por todos os bispos. Neste momento, diante do Pai, Jesus reza. O bispo encontra consolação e encontra força nessa consciência de que Jesus reza por ele, está rezando por ele”. E “isso o leva a rezar”. Porque “o bispo é um homem de oração”.

“Pedro tinha essa convicção – pontuou o pontífice – quando anunciou ao povo a tarefa dos bispos: ‘Para nós, a oração e o anúncio da palavra’. Ele não diz: ‘Para nós, a organização dos planos pastorais’”. Um espaço para a “oração” e para o “anúncio da palavra”, portanto.

Desse modo, “o bispo sabe que está protegido pela oração de Jesus, e isso o leva a rezar”. Esta, aliás, “é a primeira tarefa do bispo. Rezar pelo povo de Deus, por si mesmo, pelo povo de Deus. O bispo é um homem de oração”.

“A segunda dimensão que vemos aqui – continuou o papa – é que Jesus ‘escolhe’ os doze: não são eles que escolhem.” E isso também nos discípulos: “Aquele endemoninhado em Gerasa queria ir atrás de Jesus”, depois da libertação dos demônios. Mas, em essência, Jesus lhe respondeu: “Não, eu não escolho você. Fique aqui e faça o bem aqui”. Porque “o bispo fiel sabe que ele não escolheu; o bispo que ama Jesus não é um alpinista que segue em frente com a sua vocação como se fosse uma função, talvez olhando para outra possibilidade de ir adiante e de subir”.

Na realidade, “o bispo se sente escolhido. E tem justamente a certeza de ter sido escolhido. E isso o leva ao diálogo com o Senhor: ‘Tu me escolheste, eu que sou pouca coisa, que sou pecador’. Tem humildade. Porque ele, quando se sente escolhido, sente o olhar de Jesus sobre a sua própria existência, e isso lhe dá força”. Em suma, o bispo é “um homem de oração, um homem que se sente escolhido por Jesus”.

E, depois, como terceiro elemento, acrescentou Francisco, ele é “um homem que não tem medo de descer a um lugar plano e estar perto do povo: é precisamente o bispo que não se afasta do povo; ao contrário, ele sabe que no povo existe uma unção para o seu ofício e encontra no povo a realidade de ser apóstolo de Jesus”.

Pois bem, “o bispo não fica distante do povo” – afirmou o pontífice –, não usa atitudes que o levam a ficar distante do povo; o bispo toca o povo e se deixa tocar pelo povo. Não vai procurar refúgio junto aos poderosos, às elites, não. São as elites que vão criticar o bispo; o povo tem essa atitude de amor para com o bispo e tem, por assim dizer, essa unção especial: confirma o bispo na vocação”.

“Homem no meio do povo, homem que se sente escolhido por Deus e homem de oração: essa é a força do bispo”, repetiu o papa, sugerindo que “é bom lembrar disso, nestes tempos em que parece que o Grande Acusador se soltou e foi ter com os bispos. É verdade, todos somos pecadores, nós, bispos”.

O Grande Acusador, afirmou o pontífice, “procura revelar os pecados, para que se vejam, para escandalizar o povo. O Grande Acusador que, como ele mesmo diz a Deus no primeiro capítulo do Livro de Jó, ‘viaja pelo mundo procurando como acusar’. A força do bispo contra o Grande Acusador é a oração, a de Jesus sobre ele e a própria; e a humildade de se sentir escolhido e de permanecer perto do povo de Deus, sem ir rumo a uma vida aristocrática que tira dele essa unção”.

Em conclusão, Francisco convidou a rezar “hoje pelos nossos bispos: por mim, por estes que estão aqui na frente e por todos os bispos do mundo”

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