Müller: "Surpreso". O confronto com o Papa antes do adeus. O cardeal de saída: sem mágoas

Gerhard Ludwig Müller | Foto por European Union 2015 - European Parliament, Martin Schulz, Flickr

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04 Julho 2017

O cardeal Gerhard Ludwig Müller minimiza sua ‘demissão’ do cargo na cúria de prefeito da Doutrina da Fé - que lhe tinha sido confiado em 2012 por Bento XVI – considerando-se "surpreso, mas sem mágoas" com a decisão de Francisco e negando suas divergências com o Papa. Mas no Vaticano prevalece a opinião de que as "divergências" em relação às intenções do Bergoglio tenham desempenhado um papel decisivo no seu afastamento.

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada por Corriere della Sera, 03-07-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Após sua saída do cargo, no qual foi substituído pelo número dois da Congregação, o arcebispo espanhol Luis Francisco Ladaria, Müller declarou na mídia alemã que "não havia divergências entre mim e o Papa” e que Francisco comunicou-lhe que não pretende estender os cargos da Cúria por mais de cinco anos, “e eu fui o primeiro a ser substituído por essa nova regra". Ele também disse que não vai voltar para a Alemanha: "Vou realizar trabalhos científicos, dedicar-me à minha função de cardeal e atuar na condução das almas. Eu tenho muito a fazer em Roma". E ainda: "Vou continuar a proclamar a fé e defender sua verdade, independente de parecer oportuno ou não".

Veremos se realmente a partir de agora Francisco irá substituir todos os chefes dos dicastérios ao findar cinco anos de função: parece um propósito bem improvável e não há como saber se os dois realmente entenderam-se na dramática conversa que mantiveram na última sexta-feira de manhã.

Segundo os rumores que circulam, o Papa pretendia propor ao Cardeal a transferência a outro encargo, como fez em 2013 e 2014 com os cardeais Piacenza e Burke. Mas parece que Müller nem sequer quis ouvir. Era impensável seu retorno para a Alemanha como bispo de uma diocese: o contexto alemão é de oposição.

A razão última para a decisão do Papa não estaria na dificuldade de relacionamento pessoal e nem mesmo na diferente percepção de prioridades a serem abordadas na vida da Igreja, mas nas ideias totalmente alternativas que os dois defendem sobre o papel da Congregação para a Doutrina. Ideias que podem ser resumidas com duas declarações, uma de Müller e a outra de Bergoglio.

Em abril de 2015, o cardeal afirmou ao jornal francês 'La Croix' que com um Papa 'pastor' como Francisco “a Congregação tem a missão de fornecer uma estruturação teológica para o Pontificado".

Mas Bergoglio não enxerga absolutamente dessa forma a relação entre a teologia e a pastoral e em várias ocasiões recordou que o Papa - com é definido no Código canônico – é 'pastor e doutor supremo' da Igreja. Em outras palavras: o cardeal tomou a si a tarefa de "controlador" ou "abalizador" da doutrina do Pontificado expressa em diversas ocasiões públicas variavelmente conflitantes com as intenções e, às vezes, as palavras do Papa.

A resposta de Francisco à fala do Cardeal veio durante uma reunião com os participantes na Convenção da diocese de Roma, em meados de junho do ano passado: após ter exposto suas intenções inovadoras em matéria de pastoral familiar, disse: "Por favor, não vão me denunciar ao cardeal Müller”. Não era apenas uma brincadeira: ao longo das semanas dos dois Sínodos sobre a família o Cardeal tinha desempenhado um trabalho de acompanhamento crítico que Francisco certamente não apreciou. O resto é secundário.

Tanto Bergoglio como Müller fizeram várias tentativas de aproximação nos últimos quatro anos. O cardeal dedicou um livro sobre o tema preferido de Francisco: "Pobre para os pobres. A missão da Igreja" (Lev 2014), e o Papa escreveu o prefácio para esse texto. Müller também esboçou um gesto para diminuir as dificuldades de entendimento com outro texto: "Bento & Francisco. Sucessores de Pedro ao serviço da Igreja" (Ares 2016).

Um momento da colaboração eficaz foi vivido no empenho comum para a beatificação do Arcebispo Romero: o cardeal assegurou que os textos do "mártir" salvadorenho não continham erros doutrinários.

A partir da substituição de Müller por Ladaria surgirão novidade, mas não de imediato e nem sensacionais. Serão novidades mais ordinárias, de efetivo acompanhamento doutrinário do que novidade de pronunciamentos públicos: Ladaria é uma pessoa extremamente reservada e assim permanecerá na nova função. Mas com ele Francisco encontra um interlocutor, enquanto Müller não o era.

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