Entre culpa, medo e desamparo delineia-se um horizonte: transformar a economia afetiva da humilhação em política da solidariedade.
O artigo é de Pamela Sobrinho, economista.
A relação entre sofrimento psíquico e organização política constitui um dos eixos centrais da modernidade. Ao articular literatura, filosofia política e teoria social, é possível compreender como determinados afetos, culpa, medo e desamparo, estruturam tanto a subjetividade individual quanto os modos de organização coletiva. Este artigo propõe uma leitura comparativa entre Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e a teoria dos afetos desenvolvida por Vladimir Safatle em O circuito dos afetos, com o objetivo de analisar como circuitos afetivos da Rússia do século XIX encontram ressonância na formação subjetiva e política do Brasil contemporâneo.
Parte-se da hipótese de que o drama de Rodion Raskólnikov não constitui apenas um conflito moral individual, mas a expressão literária de uma transformação mais ampla na economia afetiva da modernidade. De modo análogo, a política brasileira atual pode ser interpretada como campo de gestão e captura de afetos, sobretudo medo, vergonha e ressentimento, que reproduz formas sofisticadas de dominação.
Publicado em 1866, o romance retrata a São Petersburgo marcada por desigualdade social, modernização acelerada e crise moral do czarismo. Raskólnikov encarna o intelectual empobrecido que internaliza essa ruptura histórica. Convencido de que indivíduos "extraordinários" poderiam ultrapassar a moral comum em nome de um bem superior (Dostoiévski, 2012), assassina a agiota Aliona Ivanovna sob a justificativa de eliminar um "parasita social".
A teoria do "homem extraordinário" pode ser lida como deformação do utilitarismo moderno, especialmente do princípio consequencialista formulado por John Stuart Mill em Utilitarianism, segundo o qual ações devem ser avaliadas por seus efeitos na promoção da felicidade geral (Mill, 2000). Contudo, o romance demonstra o fracasso dessa racionalização: o crime não emancipa o protagonista, mas o conduz ao colapso psíquico. Dostoiévski sugere que o verdadeiro castigo é interior: a lei instala-se na consciência, manifestando-se como culpa corporificada.
A leitura de Safatle (2018) permite compreender essa interiorização como estrutura política. O autor argumenta que o poder contemporâneo opera não apenas por coerção direta, mas pela produção de sujeitos que incorporam a norma sob a forma de autovigilância e culpa.
Raskólnikov encarna esse sujeito moderno: antes da punição jurídica, já experimenta o sofrimento psíquico como autossanção. O medo não é apenas da prisão, mas da exposição e do olhar do outro. Assim, a culpa funciona como tecnologia psíquica de poder.
Retomando a tradição contratualista, especialmente Thomas Hobbes, Safatle (2018) sustenta que a política moderna se organiza pela administração do medo. O Estado não apenas garante proteção, mas estrutura e gere a insegurança social como forma de coesão.
No Brasil contemporâneo, a insegurança permanente, violência urbana, instabilidade econômica, perda de status, torna-se operador central do discurso político. Safatle (2018) argumenta que afetos como medo, vergonha e humilhação ocupam papel decisivo na reprodução das formas contemporâneas de dominação.
Nesse contexto, o neoliberalismo tende a converter fracassos estruturais em culpa individual, mobilizando a vergonha como mecanismo de autogoverno. A precarização material transforma-se em experiência moralizada.
Se, para Émile Durkheim (2000), a anomia era vista como um problema, uma crise que gerava desordem e desorientação, no capitalismo tardio, porém, a instabilidade deixa de ser algo excepcional e passa a fazer parte do próprio funcionamento do sistema. A insegurança não aparece mais como falha, mas como condição constante que mantém as pessoas sempre pressionadas a produzir.
Nesse cenário, o "empreendedor de si" substitui o "homem extraordinário". Já não se trata de transgredir a lei em nome da história, mas de performar incessantemente para justificar a própria existência econômica. O sucesso converte-se em mérito moral; o fracasso, em responsabilidade individual.
Safatle (2018) descreve esse processo como produção do "indivíduo possessivo", figura ideológica que oculta relações estruturais de dependência. O sofrimento social é internalizado como insuficiência pessoal, reforçando circuitos de humilhação e autovigilância.
A alternativa proposta por Safatle (2018) reside na afirmação do desamparo. Inspirando-se na noção freudiana de Hilflosigkeit, formulada por Sigmund Freud, o autor sustenta que o reconhecimento da vulnerabilidade compartilhada pode abrir espaço para novos vínculos políticos.
Em Crime e Castigo, a inflexão ocorre quando Raskólnikov abandona a fantasia de soberania e reconhece sua fragilidade. A transformação não provém do aparato jurídico, mas do vínculo afetivo com Sônia. O desamparo, longe de significar fraqueza, torna-se condição de reconstrução subjetiva.
Para Safatle (2018), apenas a reorganização dos circuitos afetivos pode produzir transformação política. Uma ordem fundada exclusivamente na culpa e no medo reproduz servidão; a afirmação do desamparo comum pode fundar solidariedade.
A política brasileira recente evidencia a centralidade dos afetos. A polarização é menos programática que afetiva: ressentimento e indignação substituem o debate estrutural.
Safatle (2018) argumenta que, em sociedades marcadas pela fragmentação, o ressentimento pode tornar-se afeto político dominante. A dor social, em vez de converter-se em ação coletiva transformadora, é frequentemente capturada e redirecionada contra inimigos simbólicos.
O medo da violência e da despossessão alimenta demandas autoritárias. O desamparo, em vez de reconhecido como condição comum, é projetado sobre o outro. Diferentemente de contextos revolucionários clássicos, o sofrimento social brasileiro tende a ser administrado e disperso, não transformado em ruptura estruturante.
Dostoiévski e Safatle convergem ao indicar que transformação política exige reorganização afetiva. O sofrimento pode gerar destruição ou reconhecimento.
Raskólnikov inicia sua regeneração quando abandona a ilusão de autonomia absoluta. De modo análogo, uma política emancipadora exige reconhecer a fragilidade compartilhada como fundamento ético.
Entre culpa, medo e desamparo delineia-se um horizonte: transformar a economia afetiva da humilhação em política da solidariedade.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2012.
DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MILL, John Stuart. Utilitarismo. Tradução de Pedro Madeira. São Paulo: Martin Claret, 2000.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.