Nepal paga alto preço pelo caos climático que não causou

Foto: Wikimedia Commons | Argenberg

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04 Setembro 2026

Considerando a ínfima contribuição do Nepal para as emissões globais de CO2, a catástrofe climática que acaba de sofrer é ainda mais amarga. Além das reparações, especialistas pedem ajuda para a adaptação a longo prazo.

A reportagem é de Côme Bastin, publicada por Reporterre, 03-09-2026. A tradução é do Cepat.

Na capital, Katmandu, às margens do rio Bagmati, sagrado para os hindus, algumas famílias desistiram de esperar. Com os corpos de seus entes queridos ainda desaparecidos, cremações simbólicas vêm ocorrendo ali há vários dias. O Nepal tem mais de 1.200 mortos após ser atingido por inundações devastadoras. Resta pouca esperança para encontrar com vida as mais de 3.900 pessoas ainda desaparecidas.

Na quarta-feira, 26 de agosto, o desabamento de uma geleira na fronteira entre o Nepal e a China desencadeou uma avalanche. Dezenas de milhões de metros cúbicos de rocha e gelo causaram estragos ao deslizarem pelas encostas dos vales nos distritos de Rasuwa e Nuwakot. Este é o pior desastre a atingir o país do Himalaia desde o terremoto de 2015, que matou mais de 9.000 pessoas. Ao contrário do terremoto, essas inundações estão, com alto grau de certeza, ligadas às mudanças climáticas.

“A forma e o momento exatos disso só poderão ser determinados após um estudo científico completo”, explica Ankit Pramanik, pesquisador do ICIMOD, o Centro Internacional de Pesquisa do Himalaia. No entanto, é inegável que “o Himalaia está aquecendo cerca de duas vezes mais rápido que a média global, o que está colocando o clima e a criosfera (geleiras, neve e permafrost) da região sob forte pressão”.

Enorme injustiça climática

O Nepal, que é responsável por menos de 0,1% das emissões globais de CO2, é, no entanto, um dos países mais afetados pelas mudanças climáticas. O país tem alguns dos picos mais altos do mundo, lar de grandes glaciares cujo derretimento está se acelerando perigosamente. “Muitas comunidades vivem a jusante e estão expostas a mudanças que afetam os glaciares, incluindo inundações repentinas e deslizamentos de terra”, continua Ankit Pramanik.

Um relatório do Banco Mundial estima que o PIB do Nepal poderá ser reduzido em pelo menos 7% até 2050 devido aos efeitos descontrolados das mudanças climáticas. Como pode um país tão pequeno, situado numa posição tão elevada, com 30 milhões de habitantes, um PIB per capita de cerca de 1.500 dólares e um índice de desenvolvimento humano de 0,622, bem abaixo da média mundial, lidar com estes riscos?

“O Nepal desenvolveu um Plano Nacional de Adaptação 2021-2050 às mudanças climáticas. Para implementá-lo, precisamos de cerca de 1,7 bilhão de euros por ano até 2050”, explica Vishnu Prasad Pandey, professor de recursos hídricos na Universidade Tribhuvan, em Katmandu. Segundo ele, o Nepal enfrenta uma injustiça climática, e “a comunidade internacional deve unir forças para remediar esta situação através de financiamento dedicado à adaptação climática”.

Entre as prioridades: “Investimentos em monitoramento por satélite para identificar áreas de risco e em sistemas de alerta precoce para melhor compreender as interações entre o clima e a criosfera”, afirma Ankit Pramanik. Em 31 de agosto, o governo nepalês solicitou, pela primeira vez, ajuda emergencial ao Fundo de Perdas e Danos, criado na COP27 para os países mais vulneráveis e com menos recursos.

Aproximadamente 410 milhões de euros estão disponíveis nesse fundo, segundo a Third World Network (Rede do Terceiro Mundo), organização voltada para o clima. Esse valor ainda está longe dos 710 milhões de euros prometidos e dos bilhões realmente necessários.

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