03 Setembro 2026
"Voz em forma de gemido, de milhares e milhões de agonizantes, mutilados em combates infernais entre inimigos viscerais; voz em forma de grito, dos órfãos e das viúvas solitárias que, a exemplo da Raquel bíblica, 'não aceitam piedade, consolo', mas exigem imediata punição e um futuro de justiça e paz; voz em forma de lágrimas sem remédio, pois a violência que se abateu sobre os 'entes queridos' vem acobertada e legitimada pelas leis e autoridades que detêm as rédeas do poder e da ordem", escreve, Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor do SPM.
Eis o artigo.
O vento sobra, o vento acaricia, o vento assobia, o vento sibila, o vento dobra, o vento ruge, o vento arrasta, o vento devasta – eis algumas maneiras de expressar a voz do vento. Ele é, contemporaneamente, o “silêncio da brisa suave”, como se lê na Bíblia, e o barulho da tempestade avassaladora. Com seu hálito divino, ele mantém viva e acesa a chama do fogo que aquece toda a tribo, mas, ao mesmo tempo, sua fúria devoradora espalha as labaredas que incendeiam a floresta. Ele dá nome ao lar (lareira) que acolhe, abriga e protege o ambiente aconchegante da família, enquanto, por outro lado, pode consumir em instantes casas, prédios e cidades, reduzindo a cinzas coisas e pessoas. Ele acende o lume da fogueira que reúne, une e alegra a comunidade para a festa junina, mas também foi capaz de detonar as bombas atômicas que, em segundos, pulverizaram dezenas de milhares de pessoas e objetos em Hiroshima e Nagazaki.
Vento, simultaneamente, voz dos vencidos que jazem abandonados e insepultos entre os escombros, ruínas e cinzas do campo de batalha; e igualmente voz dos vitoriosos que, com os estampidos de suas armas de fogo, associado aos ruídos estridentes de suas narrativas enganosas, celebram a conquista sobre os Maias, os Incas, os Astecas, ou sobre a Ucrânia, a Palestina, o Iraque, o Afeganistão e o Irã.
Voz em forma de gemido, de milhares e milhões de agonizantes, mutilados em combates infernais entre inimigos viscerais; voz em forma de grito, dos órfãos e das viúvas solitárias que, a exemplo da Raquel bíblica, “não aceitam piedade, consolo”, mas exigem imediata punição e um futuro de justiça e paz; voz em forma de lágrimas sem remédio, pois a violência que se abateu sobre os “entes queridos” vem acobertada e legitimada pelas leis e autoridades que detêm as rédeas do poder e da ordem.
Ventos com vozes frias, fétidas e férreas da gigantesca parafernália do mercado globalizado, que invadem e saqueiam o ventre fecundo dos países pobres e indefesos, extraindo de suas entranhas as mercadorias mais valiosas, para multiplicar o capital de um punhado de milionários, bilionários e até trilionários. Vozes gélidas e cortantes feito fio de navalha, varrem o solo e rasgam o subsolo, apoderando-se dos produtos e pérolas; do ouro, da prata, do cobre, do gás e petróleo; dos bens naturais e dos frutos do trabalho humano – qual abutres, arrastando consigo tudo o que pode ser transformado em dinheiro, e este em renda e riqueza, cujos juros e taxas os tornam “cada vez mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres”.
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Na contramão, correm os ventos e os clamores dos migrantes, refugiados, retirantes, exilados, apátridas ou expatriados. Vozes de medo e fuga; de saudade, solidão e impotência; dos cacos e fragmentos de sonhos convertidos em pesadelos, onde o horizonte cerrou todas as portas e fronteiras.
Ventos prenhes dos sons reprimidos das vítimas. Vozes sufocadas e inarticuladas, silenciosas e silenciadas. Vozes embargadas por lágrimas de muita dor e muito sofrimento, regadas pelo suor de trabalhos exaustivos, banhadas pelo sangue do chicote, do fuzil e da metralha. Vozes de povos originários, quilombolas e mestiços que tiveram a desgraça de nascer e crescer em terras ricas.
Paradoxalmente, a prosperidade de seus territórios decretou-lhes a pobreza, a miséria e a fome. Países prósperos, sim, e que, por isso mesmo, atraíram a cobiça das aves de rapina. Garras afiadas, bicos vorazes e papos empanturrados, delas a população herdou o chão duro e os ossos secos. Provas disso são, por exemplo, o Vale do Jequitinhonha, no Brasil; Potosí, na Bolívia; ruínas de cidades ricas, no Peru, na Guatemala e no México e outros pontos da América Central.
Afortunadamente, se é verdade que o vento fustiga e devasta com a voz de furacões e tormentas, também é certo que sua voz pode converter-se numa canção de ninar, embalando sonhos e esperanças que teimam em renascer. Voz de um leque, que abranda o calor ardente e implacável; sussurro que sopra ao ouvido a voz do amor, da ternura e do carinho; brisa leve que, com seus dedos mágicos, acaricia as pétalas da flor, as asas da borboleta e o rosto das crianças no parque.
Entretanto, é sobretudo para quem marcha, em terra ou sobre as ondas, que o vento transmite magia e segredos. Enfuna as velas, aponta a direção do porto, corrige a rota e refresca o cansaço. O peregrino de grandes travessias aprende a se dobrar ao vento. Com efeito, este é capaz de provocar a queda de uma árvore robusta, ao mesmo tempo que poupa o bambu alto e frágil. O último é poupado devido, justamente, à sua flexibilidade. Sabendo como ajustar-se à força, velocidade e fúria dos ventos, não os teme. Dobra-se para, em seguida, levantar-se vitorioso. Por isso, e pelas raízes fincadas na terra, busca sobranceiro o ar livre, o céu azul e a luz do sol.
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