28 Agosto 2026
"Pertencemos à tradição dos movimentos de oposição do nosso país, e devemos permanecer nela, promovendo a difusão de uma socialidade que vê no conflito o elemento de propulsão de consciência e democracia, bem vacinados contra os excessos, e não precisamos pautar uma urgente reflexão de oposição ao atual retrocesso cultural e político que se alastra no país sobre o repensamento de supostos excessos ligados à chamada 'cultura woke'".
O artigo é de Mauro Palma, ex-presidente do Conselho Permanente contra a Tortura do Conselho da Europa, em artigo publicado por Il Manifesto, 25-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Se eu tivesse que aconselhar um jovem que tenta compreender o presente, não hesitaria em dizer-lhe para "stay woke", repetindo aquele convite original para manter os olhos abertos, para compreender o presente, para ler as desigualdades.
Para entender como até mesmo a normalidade cotidiana pode abrigar as sementes da subordinação dos direitos de alguns à ganância impositiva de outros. Eu não temeria ficar embriagado, como alguns parecem ter tido, e ainda temer, por excessiva atenção a tais direitos subjetivos, pois o contexto atual dos direitos das minorias é tão destrutivo que não há necessidade de temer um excesso de atenção nessa única direção.
Certamente, na consideração desses direitos subjetivos – mas isso é elementaridade da análise dos conflitos dentro de um panorama liberal centrado no lucro e na exploração, por parte das classes dominantes da subalternidade imposta a grande parte da população - está incluída sua estreita ligação com a natureza essencial dos direitos sociais, como premissa de uma sua consideração que possa contribuir para o próprio significado da subjetividade. Por não ter vida, não existem direitos de reconhecimentos das dobras da própria vida, a menos que a palavra "vida" seja qualificada pelo adjetivo "digna". E essa dignidade não é um conceito abstrato, pois se configura em termos de casa, trabalho, saúde, educação, assistência e distribuição equitativa do bem-estar.
Até agora, parecia-me elementar que essa mensagem deveria ser transmitida às gerações mais jovens, especialmente em um país como a Itália, onde ainda persiste e periodicamente ganha reforço um conceito impróprio de "normalidade" que relega aqueles que não se encaixam plenamente no grupo da discriminação. Que ainda considera o gênero como um conceito abstrato e eventualmente perigoso, insistindo em enxergar a identidade pessoal em cores sólidas e não nas nuances que cada um de nós vivencia, e que têm direito de serem reconhecidas.
Que ainda legisla penalmente visando grupos específicos de destinatários, como minorias - os ciganos, por exemplo - identificados preliminarmente como incômodos criminosos e, portanto, titulares de direitos menores, incluindo serem detidos desde o nascimento apenas para impedir que suas mães cometam pequenos furtos no metrô.
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Ou que considera normal que uma lei do aborto que já está em vigor a quarenta e oito anos enfrente ainda a objeção de consciência de quase três quartos dos profissionais da saúde, tornando-a, na prática, inoperante em vastas áreas do território nacional. Por fim, que ainda considere um sistema carcerário não apto a cumprir um serviço social útil à coletividade, mas se prestando a ser um lugar onde a dignidade das pessoas não é respeitada e onde a privação de liberdade é agravada pelas ulteriores condições penalizantes causadas pelas indignas condições materiais e pela ausência de significatividade do tempo que se consome dentro daquelas estruturas.
Parecia-me uma mensagem elementar. No entanto, deparei-me com argumentos que qualificam tal atenção, tal chamado para saber interpretar o presente, como uma espécie de adesão a situações elitistas, excessivas e nominalistas típicas de algumas correntes de pensamento estadunidense - e, em certa medida, europeu - que nunca se relacionaram com a atenção a esses temas em nosso próprio país. Como se fôssemos meros epígonos da "cultura do cancelamento": justamente nós, que ainda preservamos a inscrição "Mussolini" no obelisco do Foro Italico, em Roma.
Não é o caso. Pertencemos à tradição dos movimentos de oposição do nosso país, e devemos permanecer nela, promovendo a difusão de uma socialidade que vê no conflito o elemento de propulsão de consciência e democracia, bem vacinados contra os excessos, e não precisamos pautar uma urgente reflexão de oposição ao atual retrocesso cultural e político que se alastra no país sobre o repensamento de supostos excessos ligados à chamada "cultura woke". Pelo contrário, precisamos repensar como essas questões têm sido abordadas dentro das compatibilidades de um sistema de liberalismo acentuado, quase tentando redescobrir uma recomposição em seu interno e não as considerando como temas de oposição radical aos paradigmas impostos por esse sistema.
Precisamos discutir como levar adiante essas questões fora desses esquemas; certamente não como reduzir sua relevância. Devemos transformá-las em uma agenda concreta, justamente a partir de uma leitura diferente do “moloch” da "segurança", que parece ser o tema imposto no debate, até mesmo na esquerda, desprovido daqueles ensinamentos que já cinquenta anos atrás conectavam a percepção subjetiva de insegurança - mesmo em um contexto de cenário seguro - à falta de segurança de direitos sociais, inclusive os mais básicos, e de certezas no futuro das jovens gerações.
Recomeçar de um programa significa ir além da mera descrição dos problemas, como ocorre com demasiada frequência: quase uma reiterada contemplação do desastre. Penso, por exemplo, na descrição das condições prisionais, segundo números e exemplos já bem conhecidos, mas que, na verdade, exigem uma abordagem diferente.
Reconhecendo a função imprópria que as prisões assumiram, de impossível suplência de um social não resolvido e de punição das marginalidades, e restituindo-o à sua contribuição de resposta à dilaceração que um crime produz no tecido social, contida e limitada, mesmo que implique a agressão àquele bem inviolável da pessoa que é a sua liberdade.
Penso também na capacidade de reconstruir uma cultura das migrações como valor, e não apenas como uma fonte de mão de obra para compensar as baixas taxas de nascimentos, e que promova uma convivência efetiva que não deixe espaço para as identidades regressivas e implicitamente fracas, da população nativa e dos novos chegados.
Essas são questões complexas que exigem o enfrentamento com uma nova linguagem, não dentro do perímetro das compatibilidades impostas, e que demandam ainda mais atenção, em vez de serem relegadas ao segundo plano.
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