03 Agosto 2026
Com mudanças no clima, incêndios têm atingido cada vez mais as florestas alagadas no bioma, incluindo turfeiras, grandes reservatórios de carbono.
Uma pesquisa em curso na Amazônia pretende desvendar os impactos do fogo sobre as áreas úmidas da floresta, onde há grandes estoques de carbono ainda pouco conhecidos. À frente do trabalho está uma das principais especialistas mundiais em incêndios florestais, a bióloga carioca Erika Berenguer, doutora pelas universidades de Oxford e Lancaster (Reino Unido) que há quase duas décadas estuda os impactos das chamas na floresta tropical. Para ela, o tempo em que a humanidade usava o fogo para transformar o mundo passou. Agora, é o fogo que está moldando nossa realidade.
A entrevista é de Aldem Bourscheit, publicada por Observatório do Clima, 30-07-2026.
Confira os principais trechos da entrevista.
Você acaba de coordenar um manual para brigadistas de combate a incêndios na Amazônia. Como surgiu esse trabalho?
Surgiu da convivência com quem combate diretamente os incêndios. Em 2023 começamos a acompanhar brigadistas em campo para medir temperatura, altura das chamas e comportamento do fogo durante incêndios reais. Quando você vai a campo com uma brigada, rapidamente deixa de ser apenas pesquisador. Você ajuda no combate, carrega água, abre linha de defesa. E, nas conversas durante as operações, ficou claro que o fogo estava mudando de comportamento e que os brigadistas enfrentavam desafios que não apareciam na literatura técnica. Daí nasceu a ideia de produzir um manual escrito por brigadistas e pesquisadores para brigadistas. O primeiro volume reúne cerca de 60 autores de todos os estados da Amazônia, e outros três estão sendo preparados, incluindo um dedicado às áreas alagadas.
Foi justamente durante esse trabalho com brigadistas que vocês toparam com um fenômeno novo, que precisaria ser melhor estudado, esse avanço dos incêndios sobre áreas úmidas da Amazônia. O que vocês encontraram?
Em 2024 começou a aparecer uma fumaça muito intensa em Santarém. Olhando as imagens de satélite, percebemos que muitos focos de calor estavam em áreas alagadas. Foi aí que decidimos investigar o que estava acontecendo. Os dados, que ainda estão em processo de publicação, mostram que, ao analisar 40 anos de imagens de satélite, houve um aumento muito grande dos incêndios em florestas alagadas na última década, especialmente em 2024. Estou falando especificamente de florestas, como igapós (áreas banhadas pelos rios), e não de campos naturais.
A Amazônia brasileira tem cerca de 1,5 milhão de km² de áreas úmidas, cerca de 30% da bacia, incluindo várzeas, igapós, manguezais, lagos, planícies alagáveis e turfeiras. As estimativas indicam que só as turfeiras ocupam entre 132 mil e 171 mil km². Isso torna esses incêndios ainda mais preocupantes?
Muitas dessas florestas ocorrem sobre áreas de turfa, um solo orgânico que armazena enormes quantidades de carbono e que ainda é mal mapeado na Amazônia. Quando esse solo pega fogo, ocorre um incêndio subterrâneo que produz muita fumaça e é extremamente difícil de combater. O problema é que a gente não sabe direito onde estão essas turfeiras, qual a profundidade delas nem quanto carbono elas armazenam. Existem estudos pontuais, mas ainda não temos esse levantamento preciso para a Amazônia brasileira.
Além de pouco conhecidas, as turfeiras podem ter profundidades muito diferentes. Por que isso importa?
Porque a profundidade ajuda a determinar quanto carbono está armazenado ali. Mas a gente não sabe direito onde elas estão e nem se têm 30 centímetros ou 3 metros de profundidade. No Peru, há turfeiras com até 7 metros. Na Indonésia, chegam a 22 metros. Também não temos um levantamento consistente da quantidade de carbono armazenada nessas áreas. Então estamos queimando um reservatório de carbono cuja dimensão ainda desconhecemos. É como se estivéssemos dirigindo uma Ferrari sem farol e sem freio em alta velocidade numa estrada de montanha. E eventualmente haverá um precipício.
Como essas turfeiras são identificadas?
Os mapas globais usam sensoriamento remoto, cruzando áreas inundáveis com tipos de solo. É uma aproximação. Mas, para saber a profundidade e quantidade de carbono, é preciso trabalho de campo, coletando amostras de solo. É justamente esse conhecimento que ainda falta para a Amazônia.
O que está causando esses incêndios em áreas úmidas?
Estudos mostram que 99,5% dos incêndios na Amazônia têm origem humana. Não são causados por raios. Nas áreas alagadas, o fogo pode escapar da abertura de pastagens, do desmatamento ou até de queimadas usadas durante atividades de caça. O problema é que, em anos de seca extrema, esse fogo escapa do controle. No fim das contas, o fator comum é a mudança do clima. Antes, a floresta era úmida demais para que o fogo se propagasse. Hoje, o material combustível está muito mais seco e isso permite que o incêndio avance até em florestas que passam parte do ano inundadas.
Você participou do artigo publicado na revista Nature mostrando que a Amazônia pode se aproximar de pontos de não retorno (tipping points) nas próximas décadas. O avanço do fogo para áreas úmidas, especialmente se atingir turfeiras, pode acelerar esse processo?
Cada nova tonelada de CO₂ lançada na atmosfera acelera as mudanças climáticas, o que torna a Amazônia ainda mais seca e alimenta um ciclo vicioso. Mesmo que ainda não conheçamos bem as turfeiras brasileiras, sabemos que elas armazenam enormes quantidades de carbono. Se estamos queimando essas áreas, estamos liberando grandes quantidades de CO₂ sem sequer conhecer a dimensão desse estoque.
A Amazônia sempre foi considerada uma floresta que praticamente não queimava naturalmente. Isso está mudando?
A Amazônia continuará sendo uma floresta tropical úmida, mas está ficando menos úmida. E isso não acontece apenas porque muda o regime de chuvas. O aumento da temperatura também seca a floresta. Quanto mais quente o ar, maior sua demanda por água. A vegetação perde umidade mais rapidamente e o fogo se propaga com muito mais facilidade.
O que esperar para os próximos anos?
As áreas que já queimaram ficam mais propensas a queimar novamente. Depois de um incêndio, cerca de metade das árvores grandes morre, assim como aproximadamente 90% das árvores pequenas. Essa madeira permanece durante anos na floresta, aumentando muito a quantidade de combustível disponível. Quando o fogo volta, encontra muito mais material para queimar e os incêndios tendem a ser mais intensos.
O Brasil está mais preparado para enfrentar uma temporada extrema de incêndios, sobretudo neste ano, com previsão de forte El Niño?
Pela primeira vez em quase 20 anos trabalhando com fogo, acho que há uma série de medidas importantes sendo tomadas, principalmente pelo governo federal. A aprovação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e os recursos emergenciais são sinais positivos. Mas isso não basta. Estamos diante de um problema maior que a capacidade de resposta do Estado. Além disso, continuamos tratando os incêndios como um evento excepcional, quando eles já são um problema crônico. Precisamos de financiamento permanente, treinamento contínuo, equipamentos e uma gestão do fogo de longo prazo. Também precisamos fortalecer a formação de bombeiros florestais. O Brasil tem brigadistas altamente qualificados em órgãos como Ibama e ICMBio, mas ainda precisamos ampliar a capacidade dos corpos de bombeiros para atuar especificamente em incêndios florestais.
Quais são os próximos passos da sua pesquisa na floresta?
O primeiro objetivo é publicar os resultados sobre áreas alagadas. Também queremos continuar trabalhando junto às brigadas para fazer medições diretamente durante incêndios reais. Hoje, praticamente todos os dados medidos sobre o comportamento do fogo na Amazônia vêm de experimentos científicos, com fogo provocado. Ainda temos pouquíssimas medições feitas em incêndios reais. É isso que queremos produzir. Espero sinceramente que a pesquisa não aconteça por não haver incêndios. Mas, se eles ocorrerem, precisamos aproveitar a oportunidade para entender melhor esse novo regime de fogo.
Depois de tanto tempo estudando fogo, como você define o momento que estamos vivendo?
Tenho pensado muito que estamos vivendo o "piroceno", uma era moldada pelo fogo. Existe uma ironia nisso. Durante toda a história, a humanidade usou o fogo para transformar o mundo. Agora estamos vendo o contrário, pois é o fogo que está transformando a nossa realidade e impondo limites à nossa capacidade de resposta.
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