"Lendo os livros de Tamara Klink, fico impressionado com o ritmo de paixão, alegria e impetuosidade que se expressa numa vida revelada em juventude e poesia", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
“É preciso ir longe, pelo menos uma vez na vida,
Para descobrir o prazer de estar de volta”
- Tamara Klink
Sempre fui muito tocado pelas jovens que se ornam de ousadia e coragem. Exemplos como o de Greta Thunberg são capitais para indicar a presença dessas garotas especiais. E elas estão também entre nós, aqui no Brasil. Lendo os livros de Tamara Klink, fico impressionado com o ritmo de paixão, alegria e impetuosidade que se expressa numa vida revelada em juventude e poesia. Sua paixão pela escrita vem de longe, quando aos oito anos, sua mãe a presenteou com um caderno em branco, sugerindo escrever um diário [1]. Foi o ponto de arranque para uma vida literária singular, de melodia única, que envolve o leitor num mundo de liberdade, de paisagens interiores, de humor, graça e muita coragem.
Sua primeira obra, Férias na Antártica, foi em autoria com suas irmãs Laura e Marina. Trata-se de um relato das viagens que fizeram ainda meninas em família [2]. Depois vieram outros livros: Mil milhas (2021) [3]; Um mundo em poucas linhas (2021) [4]; Crescer e partir (2022) [5], Nós, o Atlântico em solitário (2023) [6] e Bom dia, inverno (2026). O meu objetivo aqui é apresentar brevemente passos de seu último livro, que relata os oito meses em que a navegadora passou isolada num pequeno veleiro no mar congelado do Ártico groenlandês. É um livro impressionante que relata cada passo que marcou essa viagem solitária da navegadora paulista.
Livros de Tamara Klink (Fotos: Divulgação/Amazon).
Tamara Klink tem hoje 29 anos. Ela nasceu em São Paulo, no dia 25 de março de 1997. Os estudos superiores foram realizados na Universidade de São Paulo, na área de arquitetura, com continuação na França, com um master na École Nationale Supérieure d´Architecture, em Nantes, especializando-se em arquitetura naval.
Ela relata que conheceu o mar “antes de saber o que ele era”. Ainda criança foi embalada pelas histórias de navegação do pai, que relatava para as filhas suas aventuras no mar entre “ondas gigantes, frio polar, tempestades e bichos que nunca tinham visto gente” [7]. Na casa onde cresceu, “as paredes eram feitas de livros sobre alto-mar”. Tamara sublinha que sua mãe forrava as camas das filhas “com pelúcias de bichos aquáticos” [8]. O mar foi, assim, fazendo parte da sua vida e moldando o seu corpo. Como ela mesma diz, tinha “água na boca e sal nos olhos molhados” [9]. Sua relação com o Mar é profunda e instigante. Refere-se a ele em certo relato-poema:
“(...) O oceano não sabe que eu existo. Segue cursos próprios e previstos outrora. Me dá fome, mas não me deixa jantar. Me dá sono, mas não posso dormir nos seus domínios. Me esgota, me enxagua, me carrega e não sabe nem quem sou (...). Eu canto para você com a voz dos meus pulmões, convoco vento, chuva, nuvens e trovões. Eu faço caírem chamas do céu nos meus escritos, construo entre palavras o santuário do nosso amor impossível” [10].
A primeira travessia em solitário ocorreu aos 23 anos, quando percorreu o mar do Norte, entre a Noruega e a França, num pequeno veleiro chamado Sardinha, um nome que foi sugerido por sua avó. O nome Sardinha justificava-se por ser ele “um peixe pequeno para o qual ninguém dava muito valor, mas que navegava grandes distâncias e nunca estava sozinho”. E ela, sua avó, estaria junto no cardume [11].
Era um sonho de criança. Por conta própria decidiu comprar um barco antigo, que reformou visando sua empreitada [12]. Tinha como cúmplice a sua avó, que sempre a incentivou a fazer essa aventura. Fez o aprendizado que era possível. Ela relata: “Por dois anos fui atrás de apoiadores, arquitetos navais, patrocinadores, mecenas, diretores de marketing, presidentes de empresas para tirar do papel um projeto bem desenhado, bem definido, bem calculado” [13].
Depois de todo esse complexo processo, conseguiu partir para uma viagem de mil milhas, percorrendo o mar do Norte (entre a Noruega e França), onde pôde aperfeiçoar o seu conhecimento e tirar lições preciosas para as próximas viagens. Dizia: “Para ser navegadora, não basta saber navegar. É preciso saber conquistar os meios de navegar” [14]. E se esforçou enormemente para alcançar esse nível de especialização. Na sequência, veio outra viagem a sós, a travessia do Atlântico (França-Brasil), quando tinha 24 anos. Foi outra grande aventura, em que percorreu cinco mil e seiscentas milhas náuticas [15]. Toda essa aventura a sós era a realização de um sonho antigo. E Tamara relata:
“Não foi preciso ter coragem para chegar aqui. Foi preciso acreditar, caminhar, arriscar, renunciar, aprender, me arrepender, insistir e tentar de novo, de outro jeito. O primeiro perigo estava em ficar no lugar de onde eu vim, renunciar à pequena possibilidade do sonho e, todo dia, tomar a mesma decisão de adiar a descoberta de mim mesma” [16].
O desafio maior veio posteriormente, com a decisão de mais uma jornada no mar, que durou oito meses, e que se concluiu em 21 de setembro de 2025, quando tinha 28 anos. Foi um empreendimento dos mais complexos, com a travessia solo da Passagem Noroeste do Ártico, navegando por 6.500 quilômetros, numa rota que une os oceanos Atlântico e Pacífico. Foi a primeira mulher latino-americana, a mais jovem, a fazer uma tal viagem sozinha. A viagem vem relatada no livro: Bom dia inverno (2026) [17].
Livro "Bom dia, inverno", de Tamara Klink (Foto: Divulgação/Amazon).
A iniciativa da viagem encontrou resistências na família, sobretudo entre o pai, o navegador Amyr Klink e a mãe, Marina Bandeira Klink (educadora e ambientalista). A relutância já ocorrera antes, quando Tamara tinha 23 anos e realizou sua primeira travessia, partindo da Noruega, em 2020. O pai recusou-se a oferecer ajuda. Como relatou Tamara, ele a ajudou não ajudando: “Eu não poderia correr o risco de ser eternamente dependente do meu pai e insegura em relação à minha própria capacidade de fazer escolhas. Meu pai me empurrou do ninho. Talvez seja esse um dos grande gestos de coragem paternos” [18]. Quanto à mãe, a reação crítica veio como forma de proteger a filha dos possíveis riscos envolvidos no projeto.
O apoio veio mesmo é de sua avó. Ela foi a sua principal incentivadora. Como relata Tamara, sua avó “foi a primeira - e por muito tempo a única – pessoa que sabia dos meus projetos de navegação”. É claro que tinha seus receios, mas dizia: “Prefiro apoiar do que passar o resto da vida arrependida de ter te impedido de ir atrás de seu sonho” [19]. A própria avó, porém, resistiu quando soube que o projeto envolvia passar um ano no Ártico.
Tamara tinha plena consciência de que “valia a pena sair, lutar, perseguir ambições”. Na medida em que se tornava mais adulta queria ganhar liberdade e autonomia, sem ter que arcar com o peso das expectativas colocadas por outros. Não precisava mais encaixar-se nelas, pois “as expectativas dos outros pertencem aos outros” [20].
A viagem agora vinha realizada com um novo barco, o Sardinha 2. Para o projeto conseguiu recursos com a venda de livros, além das inúmeras conferência que realizou em diversos lugares (BDI,132). Em alguns momentos, Tamara pensou em rezar, mas lembrava-se de seu pai dizendo “que Deus não tem tempo para quem se mete em problemas por vontade própria” (BDI, 65-66).
Tamara preparou-se teoricamente para a viagem, com muito empenho e leitura, além de conversas importantes com navegadores. Ela preparou o barco de forma a ter dois anos de autonomia. Era um veleiro pequeno, mas a navegadora conseguiu fazer uma boa adaptação de seu interior de forma que os materiais e comidas essenciais pudessem estar bem alocados. O espaço era reduzido, mas foi bem arquitetado (BDI, 26).
Conseguiu partir em tempo, evitando os riscos que o início de inverno poderia acarretar, impedindo o projeto almejado. Foi um longo périplo, até chegar ao local onde o barco ficou estacionado. A viagem foi tecida de aventuras, somadas a um persistente cansaço. Tamara sabia que seria um tempo longo e difícil, ancorada no meio da neve. Dizia: “Não sou daqui. Não planejo ficar. É como se minhas raízes crescessem dentro de um vaso. Esse barco é minha casa, mas não tem fundação, tem asas. Eu moro no caminho. Meu endereço é o inverno” (BDI, 17).
O longo inverno foi marcado por muita solidão, uma solidão escolhida. Para tanto, venceu inúmeros obstáculos, mesmo dentre os amigos ou desconhecidos que a desincentivavam para o empreendimento. Diziam: “Não vá, você vai morrer” ou ainda: “Homens maus vão te atacar” (BDI, 68). Mas Tamara não se intimidou, sabia que em seu barco estaria segura. Não foram poucos os perrengues por que passou naquele inverno. Talvez o evento mais difícil e ameaçador foi quando caiu na água gelada no mar do Ártico, mas conseguiu, por sorte, escapar da morte (BDI, 180-182)
Durante o inverno em que esteve ancorada na neve, viveu experiências de alcance metafísico. A imensidão do céu a envolvia por todos os lados. Dizia que vivia mais no céu do que na terra. Num tempo que parecia infinito, abraçava com admiração e temor o ritmo da solidão. Sabia muito bem que a solidão que escolhera não era uma solidão imposta, mas semeada, como a das bruxas. A seu ver, a opção era a favor de uma solidão que liberta, abriga e faculta uma aproximação do mundo interior (BDI, 70). Dizia, de forma poética:
“Não vim aqui para fazer a vida durar mais (ninguém pode garantir isso), mas para que a minha existência seja maior que a vida. Vim aqui para viver sem relógio, caminhar sobre a água, dormir nesse refúgio que criei e descobrir quem sou sem usar as palavras. Vim para libertar a imaginação. Das necessidades desnecessárias, das urgências que não o são” (BDI, 186).
A longa experiência foi também um exercício de ascese e despojamento interior. Uma experiência de sentir-se religada ao todo. Dizia:
“Experimento como é ser universal. Nem forte, nem fraca: sou o resultado dos meus gestos. Não sou mais meu rosto, minha idade, meu nome. Desaprendo a tentar caber. Isso demanda disciplina, porque ainda penso dentro dos limites das línguas que conheço, ainda faço associações com as fotos, os livros, os filmes que já vi (...). A verdade espontânea acontece fora da câmera. Corro, salto, danço, brinco. Quando me sinto bem, tenho a sensação de voltar a ser criança” (BDI, 69).
Foi também uma experiência profunda da noite, que nos faz lembrar dos grandes místicos. Tamara chegou a passar 86 dias sem ver o sol. Depois de tanto tempo, os olhos demoraram a se acostumar com a luz do dia. Não conseguia abrir os olhos, ofuscados pela luz. O sol se transfigurava em “bola amarela” impedindo a visão: “as pálpebras se fecham como se tivessem vontade própria”. Com os olhos cerrados, a navegadora deixa o calor envolver o seu corpo (BDI, 189). Aquele longo tempo de inverno suscitou imaginação e poesia:
“Inverno, amo você. Adoro suas cores, seu silêncio, adoro quem sou quando estamos a sós. Amo a liberdade que você me dá, a força que me faz sentir, a alegria, o medo e a coragem que redescobri graças a você. Adoro ser apenas um ser vulnerável, sedenta por continuar vivendo, apesar de todos os limites que você me impõe, de todo o mal que me faz sem eu perceber” (BDI, 230).
Foi, porém, Tamara que buscou esse inverno, que atravessou o oceano à sua procura. Com paciência e serenidade aguardou a passagem das tempestades para ir ao encontro do silêncio invernal. No Sardinha 2 encontrou o abrigo necessário, sem deixar de viver riscos inusitados. Tinha noção desse perigo, mas encarou de frente a aventura. Diz em seu relato: “fui velha e criança, bicho e humana, mil coisas e mil gestos possíveis num pequeno corpo finito” (BDI, 230).
Na longa temporada invernal encontrou uma diversidade de espécies: das aves mais estranhas, aos ursos polares, as raposas, as focas, os corvos e outros animais desconhecidos. Em momentos precisos encontrou também os personagens singulares daquele lugar distante. Com eles travou alguns encontros e pôde descobrir novas facetas daquela paisagem única. Tudo rodeado por cores inusitadas e pelas facetas de uma lua que invadia todo o campo visual com sua beleza única. Em obra anterior já havia sinalizado o toque dessa relação singular com a lua:
“Toda lua que nasce é companhia. Serve para celebrar que nunca estivemos e jamais estaremos sós. Mesmo de noite, mesmo no meio do mar. A lua (escondida ou exuberante) acompanha as horas em que a gente deixa de ver longe para ver de perto, deixa de ver fora para se voltar para dentro” [21].
Diante de tamanha beleza, a navegadora não conseguia encontrar palavras para expressar a força de seus sentimentos interiores. Era como “'se existir' fosse o suficiente e as coisas não precisassem ser descritas” (BDI, 141). Sabia das vantagens e riscos que a experiência envolvia. Chegou a indagar:
“Às vezes penso em como viverei depois daqui, depois de passar esses meses conversando sem abrir a boca, sorrindo sem mostrar os dentes, vivendo sem rosto, sem idade, inventando minha civilização no espaço de um inverno. O que será a vida depois de dar a ela outra definição? De ver que, entre raposas, focas, logópodes e corvos, sou apenas mais uma mortal? O que será das ruas que abri, das pedras que batizei, das leis que criei para me sentir segura entre os perigos desse lugar?” (BDI, 18-19).
O que ocorreu com Tamara nesse longo período invernal foi a afirmação de uma consciência crescente da unidade que une todas as coisas, todas as criaturas. Foi um tempo propício à afirmação de uma grande consciência crítica, de percepção viva dos desmandos do Antropoceno, dos resultados funestos deixado pelo rastro dos humanos sobre a Terra. A navegadora diz em certo momento:
“Apesar das dificuldades, os humanos vivem aqui há mais de oitocentos anos. Mesmo com a chegada de navios cheios de plásticos, açúcares, e dessas porcarias que a gente aprendeu a chamar de necessidades, algumas pessoas ainda fabricam roupas, esquis, barcos com ossos, peles e troncos de madeira que chegaram pelas correntes marítimas desde as florestas da Sibéria” (BDI, 38).
Tamara é contundente na sua crítica ao consumismo. Sublinha diversas vezes que está satisfeita com o que tem, apesar de ainda estar longe de uma vida mais equilibrada e contida. Sublinha que se lembra da cidade
“como a pista de uma corrida sem fim para alcançar o novo: sempre que nos aproximamos da linha de chegada, ela avança alguns quilômetros e fica distante outra vez. Temos roupas, mas queremos novas; temos casa, mas queremos maiores; temos amigos, mas queremos melhores. Dormimos com a ajuda de remédios. As férias nos deixam exaustos. Acumulamos livros que nunca leremos. Aplicativos de namoro são como sites de venda de usados. O aniversário dá horror, porque não dá tempo de agradecer os parabéns virtuais antes de acabar o dia” (BDI, 72).
A felicidade, diz a autora, não é algo que vem das compras, mas vem tecida por outros caminhos, bem mais saudáveis, como “andar, dormir, olhar para o céu, fazer a própria comida, dançar, amar, brincar” (BDI, 73). Se o oceano tem seus perigos, a cidade é bem mais violenta. Em meio às aguas, o risco é bem menor do que o comparado com as metrópoles: os crimes, as perseguições, os temores das invasões de residências, dos sequestros, dos estupros.
Sublinha Tamara que o tempo sobra quando não precisamos dar conta de si aos outros, e quando só se precisa agradar a si mesma, quando o ato de se vestir não está atrelado à necessidade de mostrar-se bonita, mas para aquecer o corpo ou sentir-se agradável (BDI, 91). Diz Tamara que a verdadeira felicidade não vem do consumismo, mas da sabedoria de apreciar e vivenciar as coisas belas da vida. Está também em se adaptar ao ritmo do tempo, sem ser domado pela pressão da vontade de poder, da pressa ou da busca de eficácia. Ela, que passou meses no escuro sabe que a claridade vem. Ela diz: “Entendo que o escuro faz o brilho das estrelas noturnas, que o verão dá valor ao inverno, e que um corpo é cavado pelo mundo. São bonitos porque têm fim” (BDI, 86). Ali na Groenlândia, assistindo de perto o degelo antes do tempo, Tamara se deu conta da violência e dos riscos que ameaçam o futuro da humanidade. E nos adverte:
“Quando o nível do mar alagar nossas ruas nas cidades, quando não pudermos mais pensar direito de tanto calor, quando as tempestades forem violentas e faltar comida e água pra beber, vamos nos lembrar do tempo em que podíamos produzir menos e consumir menos, mas preferíamos fingir que mudar de comportamento era difícil demais. Estamos roubando o tempo e os recursos de seres vivos que ainda não nasceram, sem voz para se defender de nós” (BDI, 173).
A experiência de Tamara na Groenlândia serviu para nos alertar sobre a fragilidade do pensamento binário que separa o humano da natureza. Os antropólogos nos advertem sobre isso há tempos, e não nos remendamos, seguindo o ciclo maldito do Antropoceno. Como indica com razão Tamara:
“Minha maior certeza é esta: não há separação entre humano e natureza. Essa separação é a mentira que faz a gente acreditar que as coisas que fazemos em lugares distantes não vão gerar problemas onde estamos. Nos faz acreditar que podemos até ´salvar` as outras espécies, como se pudéssemos existir sem elas. A natureza é a teia de relações que envolve tudo o que existe no mundo, e não é possível separá-la do humano, assim como não é possível separar a vida de seu corpo físico, um celular das rochas de onde vieram seus metais, o diesel das florestas soterradas e da combustão do ar sujo que respiramos” (BDI, 56).
Por fim, vale lembrar igualmente as reflexões de Tamara sobre a singularidade do feminino e a potente crítica que ela faz ao patriarcalismo e à visão dominante da superioridade do homem sobre a mulher, que acaba por encobrir o dado fundamental do respeito à dignidade de cada sujeito. A autora sentiu por diversas vezes, na própria pele, essa arrogância masculina. Em página candente, sublinha:
“Ser mulher é também ter seu corpo julgado antes das suas competências. É ser forte e ser chamada de fraca. Se preparar e ser chamada de despreparada, ser inteligente e ser chamada de burra, resistir e ser chamada de frágil, ser lúcida e ser chamada de louca. É ter seu sucesso creditado ao seu pai, seu parceiro, seu colega, seu treinador, à sorte, ao acaso. É descobrir que cada prova feminina de competência é considerada exceção (...). Ser mulher é escrever livros universais que são considerados ´livros para mulheres` e ler livros escritos por homens, para homens, sobre homens – esses sim, ´universais`” (BDI, 92).
Tamara tem consciência de que vivendo a experiência da maternidade vai ser bem mais difícil realizar o que consegue com sua vida livre, ou seja, correr riscos, pode se ausentar por longo tempo, atribuir a outros a responsabilidade com os filhos etc. Ela diz, resumindo: “Se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas” (BDI, 70).
Temos, assim, diante de nós, um livro alvissareiro. Uma obra que aborda temas diversificados a partir de uma experiência de navegação que é preciosa. Tudo abordado de forma direta e simples, sem desperdícios ou recalques. Algo que toca passos da intimidade da vida e que nos faz alçar voos inusitados.
[1] Tamara Klink. Um mundo em poucas linhas. São Paulo: Petrópolis, 2021, p. 10.
[2] Tamara Kink; Laura Klink; Marina Klink. Férias na Antártica. 2 ed. São Paulo: Petrópolis, 2014 (a primeira edição é de 2011)
[3] Tamara Klink. Tamara Klink. Mil milhas. São Paulo: Petrópolis, 2021.
[4] Tamara Klink. Um mundo em poucas linhas. São Paulo: Petrópolis, 2021.
[5] Tamara Klink. Crescer e partir. São Paulo: Petrópolis, 2022.
[6] Tamara Klink. Nós, o Atlântico em solitário. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
[7] Tamara Klink, Um mundo em poucas linhas, p. 22.
[8] Tamara Klink. Tamara Klink. Mil milhas, p. 22.
[9] Tamara Klink, Um mundo em poucas linhas, p. 32.
[10] Ibidem, p. 62.
[11] Tamara Klink. Nós, o Atlântico em solitário, p. 54.
[12] Tamara Klink. Tamara Klink. Mil milhas, p. 31.
[13] Ibidem, p. 38.
[14] Ibidem, p. 39.
[15] Tamara Klink. Nós, o Atlântico em solitário.
[16] Ibidem, p. 143.
[17] Tamara Klink. Bom dia, inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.
[18] Tamara Klink. Nós, o Atlântico em solitário, p. 198. Ver ainda: Id. Mil milhas, p. 198.
[19] Ibidem, p. 85. Passarei a partir daqui a indicar no texto as páginas de referência antecedidas com a sigla BDI.
[20] Tamara Klink. Tamara Klink. Mil milhas, p. 83.
[21] Ibidem, p. 153.