1000 dias de genocídio em Gaza. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 11 Julho 2026

Mil dias de genocídio em Gaza: até quando o mundo vai medir em números uma dor que já deveria ter parado? O que os líderes da extrema-direita têm em comum além da ideologia? Uma forma de governar que transformou o grotesco em método. Calor recorde na Europa, supertufões e as marcas que a enchente do Rio Grande do Sul ainda deixa dois anos depois: estamos preparados para o próximo desastre climático?

Diante de tanta guerra, desigualdade e destruição ambiental, ainda é possível acreditar na humanidade? Pensadores apontam pistas para não perder a esperança: será que o caos também pode ser o começo de algo novo?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

1000 dias de genocídio em Gaza

Na medicina, os pediatras apontam que os primeiros mil dias de vida de uma criança são fundamentais para o seu desenvolvimento. É um período crítico, que define bases biológicas e sociais ao longo da vida e afeta até mesmo processo de envelhecer.

Em Gaza, o último dia 3 de julho marcou os mil dias desde o início do genocídio israelense. Autoridades palestinas estimam que mais de 73 mil pessoas foram mortas pelo regime sionista liderado por Benjamin Netanyahu. Destas, são cerca de vinte e uma mil crianças e mil e vinte e dois bebês, que tiveram o seu futuro ceifado.

São vinte e quatro mil horas de um imenso sofrimento que continua até hoje. Conforme reportagem publicada por El Salto, durante esse período, 223 mil toneladas de explosivos foram lançadas sobre a Faixa de Gaza, o que representa três vezes mais a quantidade lançada sobre Berlim, Dresden e Londres juntas durante a Segunda Guerra Mundial.

Em artigo publicado pelo site Contexto Y Acción, o jornalista Diego Delgado, aponta esse triste marco como a representação de algo muito maior. “Mil dias de genocídio. Quatro palavras que resumem muitas décadas de apartheid mais ou menos silencioso, um conflito como resposta à resistência de um povo que não quer ser aniquilado e, acima de tudo, uma forma de se relacionar com o mundo muito em sintonia com aqueles que hoje apagam mil velas para cada noite que adormeceram plenamente conscientes de que a limpeza étnica está sendo cometida com sua cumplicidade”. 

O triunfo do infame

Existe algo que aproxima Donald Trump, Javier Milei, Benjamin Netanyahu e outras lideranças da extrema-direita mundial. Não é apenas uma agenda econômica ou um posicionamento ideológico. É uma forma de governar baseada no espetáculo, na humilhação e na transformação do absurdo em rotina. O grotesco deixou de ser exceção. Tornou-se método de governo.

O jornalista Jorge Zepeda Patterson chama esse fenômeno de "o triunfo do infame". Segundo ele, aquilo que antes desmoralizava um governante hoje fortalece sua imagem pública. O insulto virou autenticidade. A mentira passou a ser interpretada como coragem. A crueldade é celebrada como demonstração de força. O que deveria provocar vergonha passou a produzir aplausos.

Talvez seja por isso que a guerra também tenha se transformado em espetáculo. Em junho de 2026, Donald Trump anunciou um cessar-fogo entre Israel e Irã. Essa semana, o acordo desmoronou e os ataques voltaram. Em seguida, Trump voltou às redes sociais para cobrar publicamente que Israel interrompesse os bombardeios e afirmou estar "descontente" com os dois lados. A diplomacia passou a acontecer diante das câmeras. Enquanto isso, quem continua morrendo são civis que jamais participaram dessas decisões.

O Irã respondeu aos bombardeios americanos atacando bases militares no Golfo Pérsico. Ao mesmo tempo, reforçou que manterá o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no planeta.

O resultado é um mundo cada vez mais militarizado. Quanto maior a tensão geopolítica, maiores os investimentos em armamentos. Quanto maiores os investimentos em armamentos, menores parecem ser os recursos destinados ao combate à fome, às mudanças climáticas e às desigualdades.

Nunca se investiu tanto em guerra. E nunca convivemos com tantos milhões de pessoas em situação de fome, deslocamento forçado e insegurança alimentar. A humanidade demonstra possuir recursos quase ilimitados para destruir. Mas continua alegando falta de recursos para proteger a vida.

A preparação para eventos climáticos extremos

De certa forma, o planeta Terra foi forçado pela humanidade a conviver com o grotesco em sua rotina. As mudanças climáticas, provocadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, mineração, agronegócio e desmatamento, já fazem parte do nosso cotidiano. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a Europa deve ser preparar para a possibilidade do continente enfrentar “semanas mais mortais” com a disparada dos termômetros. Uma reportagem do ClimaInfo indica que já são mais de 9 mil mortes associadas às altas temperaturas na última onda de calor, no fim de junho de 2026, sendo 5 mil somente na Alemanha.

A onda de calor de 20 a 28 de junho foi a mais severa já registrada na Europa, de acordo com especialistas. As altas temperaturas interromperam a geração de energia elétrica, danificaram a infraestrutura e sobrecarregaram os sistemas de saúde.

Com o aumento das temperaturas do oceano Pacífico, a chegada de um Super El Niño se mostra cada vez mais iminente e alguns sinais do seu impacto já podem ser sentidos.

Ordem ou caos?

Depois de tantas histórias marcadas pela guerra, pela desigualdade, pela destruição ambiental e pela precarização da vida, resta uma pergunta inevitável. Como continuar acreditando na humanidade quando tantas notícias parecem apontar justamente para o contrário? Talvez a esperança não seja negar o sofrimento. Talvez ela comece justamente quando olhamos para ele sem desviar os olhos.

O filósofo italiano Roberto Esposito convida a abandonar uma visão simplista do caos. Ele lembra que a história da humanidade nunca avançou por caminhos lineares. As grandes transformações nasceram justamente de períodos de profunda instabilidade.

O caos pode significar perda, insegurança e ruptura. Mas também representa o momento em que antigas estruturas deixam de fazer sentido e novas possibilidades começam a surgir. Toda ordem verdadeiramente nova nasce de uma desordem anterior.

***

IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.