O cruel destino dos deportados para a Venezuela: famílias os procuram em meio ao caos e aos obstáculos criados pelas autoridades

Foto: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Bispos lefebvrianos: do cisma à heresia? Artigo de Lorenzo Prezzi

    LER MAIS
  • Lefebvrianos, a Santa Sé formaliza o cisma: "As portas se abrem para os fiéis que não aderirem"

    LER MAIS
  •  “Dos 38 bilhões gastos com impactos negativos gerados pelas bets, 30 bilhões são associados à saúde mental. Esse valor diz respeito ao uso de drogas, alcoolismo, depressão, ansiedade e suicídio”, informa a pesquisadora

    Custo social das bets é quase 4 vezes a arrecadação fiscal. Entrevista especial com Tiago Braga e Dayana Rosa

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

03 Julho 2026

Os 147 homens, mulheres e crianças que desembarcaram em Caracas após serem expulsos dos Estados Unidos estavam sendo mantidos em um hotel que desabou. Apenas 12 foram encontrados com vida, mas um deles disse: "Tenho certeza de que mais de nós sobreviveram".

A reportagem é de Gabriela Mesones Rojo, publicada por El País, 03-07-2026.

Quando o voo 164 pousou na Venezuela vindo dos Estados Unidos, muitas famílias esperavam um reencontro. Alguns dos 147 passageiros estavam fora do país havia mais de uma década e, embora a deportação significasse um retorno doloroso, também oferecia a chance de ver e abraçar seus entes queridos novamente. Mas apenas algumas horas depois, em meio aos terremotos que abalaram o país, essa expectativa se transformou em uma busca desesperada por informações sobre o que havia acontecido com os passageiros a bordo.

Uma semana após os terremotos, dezenas de famílias ainda tentam reconstituir o destino dos 146 deportados que chegaram à Venezuela no voo 164. Alguns relatam que a desorganização no gerenciamento das listas de feridos, mortos e desaparecidos, juntamente com os obstáculos criados pelas autoridades durante as buscas, os impediu de descobrir o paradeiro de seus familiares. Todos haviam sido levados para o Hotel Santuario La Llanada para exames médicos e coleta de impressões digitais quando o prédio desabou.

“Meu filho foi retirado dos escombros e levado para o Hospital José María Vargas. Lá, ele foi examinado por alguns dos outros deportados que estavam com ele, que também confirmaram que ele sentia muita dor, mas estava relativamente bem de saúde. No entanto, ele nunca apareceu na lista de sobreviventes que as autoridades nos deram”, conta Carol, mãe de Arturo Rafael Lugo Rodríguez, que morava nos Estados Unidos havia oito anos antes de ser deportado.

Desde então, Carol visitou necrotérios em Caracas e La Guaira, hospitais e abrigos para vítimas. Ela também relata os obstáculos encontrados durante as buscas. “Quando meu marido foi ao hospital onde foi visto com vida pela última vez, as autoridades não o deixaram entrar. Ele teve que pedir a alguns socorristas de Anaco que o acompanhassem para que ele pudesse entrar.”

Carol afirma que, além dos depoimentos de quem viu seu filho no hospital, obteve uma lista manuscrita do centro médico na qual o nome dele consta. “O SEBIN [a temida polícia política da Venezuela] só nos diz que ele não aparece entre os mortos ou feridos, que está na lista de desaparecidos. Mas todas as informações que reunimos contradizem o que eles dizem.”

A busca por Ángel Jesús Romero Gaviria deixou sua irmã, Glina Melissa Ospino, diante de um emaranhado de relatos contraditórios. Primeiro, disseram a ela que ele estava vivo e havia sido transferido para o Hospital Militar. Horas depois, ela encontrou o nome dele em uma lista do necrotério de Bello Monte. Em seguida, o nome reapareceu, desta vez em um registro em Los Silos, o centro de triagem criado para receber centenas de corpos após os terremotos.

“Ele apareceu em listas demais, e nunca conseguimos encontrá-lo. Já não sabemos quais informações são verdadeiras”, diz ela. Ela também afirma ter recebido relatos de familiares que foram impedidos por funcionários da SEBIN de se aproximarem da área do hotel durante os primeiros dias de busca.

Em seu celular, ele mantém um registro da jornada da família: mais de 25 lugares visitados, incluindo hospitais, necrotérios, delegacias de polícia, aeroportos e a zona do desabamento.

Branli Zárate, de 28 anos, oferece outra versão da história. Ele é um dos deportados que sobreviveram ao desabamento. Ele se lembra de dormir com outras 14 pessoas em um quarto onde os beliches estavam tão deteriorados que vários colchões acabaram no chão.

“Quando fui resgatado, vi vários outros passageiros do voo. A princípio, pensei que apenas quatro tivessem saído da minha cabine. Depois encontrei dez, e mais tarde mais pessoas no hospital. É por isso que os números que vi de 12 pessoas não batem. Tenho certeza de que mais de nós sobrevivemos.”

O advogado Julio Henríquez argumenta que, se os deportados permaneceram no hotel porque as autoridades exigiam que isso fosse feito para concluir os procedimentos de identificação e registro, o Estado continua responsável por sua custódia. “Isso implica um dever ainda maior de informar as famílias. Não basta dizer quem morreu ou quem sobreviveu. O Estado deve explicar o que aconteceu e garantir que as famílias possam exercer seu direito de saber a verdade e dar aos seus entes queridos uma despedida digna. Além da violação das leis nacionais e internacionais, há um elemento de extrema crueldade que causa danos extraordinários às pessoas.”

Sem telefones

Luis Daniel Castillo, outro sobrevivente do desabamento do hotel, diz que jamais esquecerá a contradição daquela noite. Castillo, de 42 anos, lembra que a porta do quarto onde dormia era vigiada por um policial. “Ele ficava dizendo que não estávamos presos, mas levou todos os nossos celulares. Chegou a pedir nossas senhas”, conta. Ele descreve o hotel como um prédio dilapidado, com camas inutilizáveis ​​e colchões espalhados pelo chão. Nove pessoas sobreviveram no quarto, incluindo quatro mulheres. As cinco crianças que estavam no voo também conseguiram escapar com vida, incluindo um bebê de cinco meses que, segundo ele, foi resgatado por outro deportado. “Acho que uns 30 de nós sobrevivemos”, explica.

Após o desabamento, ele permaneceu entre os escombros por horas. Ele conta que, durante esse tempo, não viu nenhuma autoridade chegar para coordenar o resgate ou prestar socorro aos feridos. Sem telefone e sem saber o que fazer, decidiu caminhar sozinho de La Guaira até Caracas. “Atravessei toda La Guaira vendo a destruição. Então, alguém me emprestou um telefone e consegui ligar para um amigo. Ele levou três horas para me encontrar.”

Castillo conta que, durante a noite no hotel, os funcionários não o agrediram fisicamente, mas afirma que a apreensão dos celulares e as condições do local demonstravam que o grupo estava sob controle. Ele também lembra que a transferência dos Estados Unidos foi feita com algemas nos pulsos e tornozelos, que só foram retiradas na chegada a Maiquetía. Em seguida, permanece em silêncio por alguns segundos e levanta uma questão que ainda o atormenta: “E se o terremoto tivesse ocorrido enquanto estávamos desembarcando? Teríamos morrido algemados, sem poder escapar.”

Anderson Salcedo foi mais uma pessoa resgatada com vida após ficar presa por 40 horas sob os escombros do Hotel Santuario La Llanada, que desabou. Ele tinha 21 anos. Apesar de ter sobrevivido, os ferimentos obrigaram os médicos a amputar ambas as pernas.

Para sua mãe, Yulis Salcedo, as dúvidas começaram muito antes do resgate. “Ele me disse que eles tinham sido levados para um hotel. Imaginei um lugar seguro. Nunca pensei que seria em um prédio em tão más condições. Por que foram obrigados a ficar lá? Por que confiscaram seus telefones?”, conta ela.

Yulis argumenta que a retenção de telefones e documentos de identidade deixou as famílias sem meios de localizar os deportados quando o terremoto ocorreu e complicou a identificação das vítimas e sobreviventes durante dias.

“Eu tinha preparado a casa para o retorno dele. Pensei que a deportação fosse o fim de um pesadelo. Nunca imaginei que outro estivesse apenas começando.”

Leia mais