“Licença para matar”: como Israel assassina centenas de crianças palestinas impunemente na Cisjordânia

Foto: Anadolu Agency

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02 Julho 2026

No dia de sua morte, Mohammad al-Halaq estava radiante. Na escola, haviam lhe presenteado com uma mochila nova com o logotipo da Unicef, a agência da ONU dedicada à proteção da infância. "Estava muito contente, ganhar uma mochila era algo fora do comum para ele", lembra Aliyah, sua mãe. "Veio até a porta para me mostrar que tinha aquela mochila nova onde colocar seus lápis e canetas."

A informação é de Julian Borger e Quique Kierszenbaum, publicada por El Diario, em colaboração com The Guardian, 01-07-2026.

Mohammad, de nove anos, correu para casa e voltou correndo à escola para perguntar se podiam dar outra mochila para o irmão. Não foi possível. Depois do almoço, saiu para tentar pegar pássaros com uma rede improvisada. Pegou um e mostrou aos amigos. Cheio de energia, quis ir à casa dos avós, que moravam perto.

A família al-Halaq vive em ar-Rihiya, nas colinas ao sul da cidade palestina de Hebron. O lugar ficou tristemente conhecido pela violência exercida por colonos israelenses, instigados por um exército cada vez mais politizado. Por isso, perder Mohammad de vista preocupava Aliyah, mas ela precisava fazer compras e o filho estava decidido. Disse tchau com a mão enquanto ele se afastava correndo. Não o viu mais com vida.

Um soldado israelense atirou na pelve de Mohammad por volta das quatro da tarde daquele dia, 16 de outubro de 2025. Mohammad estava no pátio da escola jogando futebol com outras crianças quando dois jipes do exército israelense se aproximaram. As crianças se dispersaram em todas as direções. Segundo uma das versões, um par de adolescentes mais velhos atirou pedras contra os jipes enquanto outros gritavam para os soldados de uma distância que acreditavam ser segura.

Um vídeo mostra um soldado descendo do jipe e apontando seu rifle para o topo do morro, onde alguns meninos observavam o que ocorria. Após os disparos, Mohammad deu alguns passos e caiu desabando no chão. Outros tentaram chegar até o menino sangrando, mas os soldados de baixo continuavam atirando e lançando gás lacrimogêneo contra eles.

Mohammad morreu no hospital e seu nome passou a engrossar a lista dos 235 crianças e adolescentes palestinos da Cisjordânia assassinados por soldados israelenses (além de outros 5 assassinados diretamente por colonos) desde o 7 de outubro de 2023 — a data que marcou o início da guerra de retaliação em Gaza após o ataque do Hamas contra o sul de Israel, no qual morreram cerca de 1.200 israelenses, entre os quais havia cerca de 800 civis e 38 crianças.

As represálias por aquele ataque não se limitaram à Faixa de Gaza, onde mais de 21.000 crianças foram assassinadas (dentro do total de 72.000 palestinos mortos). Também as sofreu a Cisjordânia, onde reina a impunidade e as normas para a intervenção militar foram flexibilizadas.

Licença para matar

"A matança generalizada e sem precedentes de crianças e adolescentes palestinos na Cisjordânia é o resultado da política generalizada israelense de matar palestinos sem prestar contas", diz Yuli Novak, diretora executiva da B'Tselem. Esta organização de direitos humanos publicou o relatório Infância desprotegida, sobre as 54 crianças e adolescentes palestinos assassinados apenas em 2025 na Cisjordânia pelas forças israelenses. "O sistema não só apoia os que atiram, como na prática lhes concede licença para matar", explica Novak.

Segundo a análise da Yesh Din, outra organização de direitos humanos, nenhum israelense foi processado pelo assassinato de um palestino desde outubro de 2023.

"As autoridades e as forças de segurança israelenses atacaram deliberadamente crianças palestinas, o que resultou em genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Faixa de Gaza, bem como em crimes de guerra na Cisjordânia", conclui um relatório publicado por uma comissão internacional independente da ONU. "As provas demonstram que as crianças palestinas foram deliberadamente visadas e assassinadas pelas forças de segurança israelenses", afirmou Srinivasan Muralidhar, presidente dessa comissão.

Rimas, 13 anos

Rimas Amuri tinha 13 anos em fevereiro de 2025, quando recebeu um tiro nas costas à porta de sua casa, no campo de refugiados de Jenin. Era sexta-feira e estava brincando na rua com seus primos. Não havia nenhum alerta de segurança e o tráfego circulava normalmente. A família vive perto de um posto de controle militar, uma zona que, segundo Omar, pai de Rimas, costuma ser considerada segura. "Simplesmente vivíamos nossa vida normalmente. Se tivesse sabido que algo estava errado, nunca teria deixado minha filha sair para brincar na rua", diz ele.

Após o incidente, as Forças de Defesa de Israel (FDI) declararam ao jornal israelense Haaretz que os soldados "identificaram uma figura suspeita movendo-se perto das forças que operavam na área". A investigação da B'Tselem revela que, à distância de 40 metros em que estavam, os soldados podiam ver que Rimas era uma menina. Nenhuma das testemunhas ouviu qualquer aviso e, segundo o relatório médico, "Rimas recebeu um tiro nas costas, o que sugere que nunca percebeu a presença dos soldados". A família não teve notícias de nenhuma investigação.

Layla, 2 anos

Layla al-Khatib, de 2 anos, estava sentada no colo de sua mãe Taymaa dentro de casa quando um soldado israelense lhe atirou na cabeça em janeiro de 2025. Bassam al-Khatib, pai de Taymaa e avô de Layla, conta que estavam jantando em família num sábado à noite em Muthallath a-Shuhada, perto de Jenin, quando nas ruas próximas se ouviu um tumulto. Soldados israelenses haviam chegado ao bairro em três veículos civis com placas palestinas e se apoderado de um edifício próximo. A família continuou jantando até que, de repente, os disparos soaram aterrorizantemente perto.

"Minha esposa e eu nos jogamos no chão, e então ouvi nossas filhas gritando, que não paravam de chamar o nome de Layla", recorda Bassam. Entrou no quarto onde suas filhas haviam se refugiado, pegou Layla nos braços e a levou para a rua. A casa estava cercada de soldados. "'Por que atiraram em nós? Por que mataram minha neta?', perguntei ao oficial. O oficial chamou um dos soldados para prestar primeiros socorros, o soldado disse 'não posso ajudá-la', e o oficial disse que chamariam uma ambulância, levou uns 15 minutos". Layla foi declarada morta no hospital. "Este é um pequeno exemplo do que está acontecendo com nosso povo", diz Bassam. "Que a história de Layla marque o fim da matança de mais crianças e de seres humanos."

Um porta-voz das Forças de Defesa de Israel afirma que os casos de al-Halaq, Amuri e al-Khatib estão "atualmente sob investigação por parte da Divisão de Investigação Criminal da Polícia Militar". Acrescenta que "a grande maioria dos palestinos mortos pelas tropas das FDI estava envolvida em atividades terroristas".

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