27 Junho 2026
O relato de uma mãe que revisita quase dez anos de questionamentos, culpa e medo do futuro após a revelação do filho e o início de sua jornada de afirmação de gênero. O encontro com a rede "La Tenda di Gionata" e com outras famílias católicas ajudou a sustentar a relação com o filho. Entre burocracias e esperas intermináveis.
A informação é de Alessia Arcolaci, publicada por Domani, 25-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Mãe, continuo sendo seu filho, na verdade, já sou quem virei a ser." Luisa Turci repete essas palavras como se as tivesse ouvido ontem. Foram ditas a ela por seu filho, Manu, durante um dos momentos mais delicados da vida de ambos, quando ele buscava as palavras para explicar que estava prestes a iniciar sua jornada de afirmação de gênero. Hoje, Manu tem 25 anos; Luisa descreve o processo de revelação de sua identidade como algo que se desenrolou ao longo de quase uma década. "Tudo começou quando ele tinha 16 anos, idade em que passou a revelar que sentia atração tanto por meninos quanto por meninas. Senti uma certa desorientação e uma sensação de ter sido eu a causa de tudo: eu tinha amigos gays e meu marido e eu administrávamos uma casa de acolhimento há vários anos. Consultei um psicólogo para saber se minhas dúvidas tinham fundamento; ele me disse que ser feminista e criar um filho sem uma figura masculina em casa, já que meu marido havia falecido quando Manu tinha quatro anos, não tinha absolutamente nada a ver com a orientação sexual de alguém."
Nos anos seguintes, Manu continuou a se abrir sobre si mesmo, no grupo de escoteiros, com alguns líderes e com o pároco. Paralelamente, ele manteve um relacionamento com uma garota que durou cerca de três anos. "Naquela época, ele me disse que se sentia mais confortável usando pronomes masculinos, fornecendo-me explicações sem fim que eu simplesmente não ouvia nem compreendia. Após um período de negação, busquei ajuda na rede La Tenda di Gionata. Graças a conversas com psicólogos voluntários e, sobretudo, à participação no grupo 'Famílias em Caminho' da Diocese de Bolonha, comecei a experimentar, mesmo sem entender, o uso dos pronomes masculinos que deixavam meu filho à vontade. Finalmente, Manu sentiu que eu havia me colocado em caminho."
A ajuda da fé
"Ele passaria por discriminação, violência ou abusos? O simples pensamento de enfrentar o processo médico de afirmação de gênero me enchia de angústia; eu não tinha nenhum conhecimento. Tudo me assustava: nossa situação financeira precária, a saúde dele, a perspectiva de se tornar um paciente crônico dentro do sistema de saúde, apesar de ser uma pessoa saudável, os trâmites jurídicos para a retificação no registro civil e, por fim, a sensação de ter perdido 'minha princesa, minha filha maravilhosa' e todo o imaginário que eu havia construído. Foi um verdadeiro processo de luto."
Como pessoa de fé, Luisa encontrou forças para lidar com essa angústia nas Sagradas Escrituras. "Junto com outros pais, e à luz do Evangelho, abrimo-nos; estudamos, participamos de formações e passamos a compreender a diversidade biológica natural: não é uma moda, não é uma doença e não é uma escolha. Juntos, abrimos nossas mentes; se tivéssemos sabido que, desde sempre, pouco menos de 20% da população nasceu com variações na orientação e uma pequena minoria também com variações de identidade, teríamos poupado nossos filhos e filhas de tanto sofrimento."
Se, por um lado, o Evangelho foi um apoio, do outro, o encontro com algumas pessoas dentro da Igreja não foi tão positivo. "Minha fé me permitiu uma compreensão clara de que Jesus sempre priorizou as minorias; mas, por outro lado, as pessoas da Igreja muitas vezes me decepcionaram, com sua mentalidade limitada. O Evangelho abre horizontes vastos, não o conforto da poltrona da sala de estar. Por meio do nosso grupo diocesano, mantemos diálogo até mesmo com aquela parte do clero que considera qualquer variação como uma doença a ser curada. Buscamos construir pontes em vez de erguer muros."
Um futuro a construir
Luisa e Manu, que após dois anos de solicitações conseguiram uma "identidade alternativa temporária" na universidade, vivem em uma pequena cidade litorânea de cerca de dez mil habitantes. "Manu não é a única pessoa transgênero na cidade; nenhuma delas enfrenta, atualmente, discriminação explícita, eventualmente um ou outro olhar de espanto ou de julgamento, mas nada extremo."
Na Itália, a comunidade trans continua sendo a mais vulnerável; as associações de defesa dos direitos LGBTQIA+ há anos destacam como as pessoas trans enfrentam maior risco de discriminação e dificuldades para acessar empregos, serviços e atendimento de afirmação de gênero. A essa situação somam-se longos tempos de espera, procedimentos que variam conforme a região e processos que, muitas vezes, transferem todo o peso da responsabilidade para os indivíduos e suas famílias.
"Encontrar um hospital que aceitasse o caso dele foi difícil; não existe um manual, nem ninguém para dizer exatamente o que fazer ou aonde ir. Se você tem recursos financeiros, tudo é fácil de encontrar, mas nós enfrentamos dificuldades em cada etapa." Manu e sua mãe aguardam, no momento, a decisão de um juiz sobre a retificação de seus dados pessoais e, consequentemente, de seus documentos. "Ninguém sabe se o juiz compreenderá a situação ou se adiará a decisão indefinidamente. A lei não especifica nada; muitas vezes, recusa esse tipo de solicitação. É evidente que jovens como o Manu carregam um fardo maior de estresse, e isso torna o processo mais lento para eles. Somente após a retificação no cartório de seus dados é que o Manu poderá entrar na fila de espera para a cirurgia — uma espera de cerca de seis ou sete anos."
É uma espera que também significa colocar em suspenso o futuro. "Quem tem recursos vai para a Espanha; quem não tem — como nós — apenas espera. Não me sinto nem um pouco protegida. Ajudaria muito superar preconceitos por meio de estudo, ouvindo a ciência e estabelecendo caminhos acessíveis e legitimados para essa minoria."
Hoje, Manu está concluindo a universidade e atua como chefe escoteiro e conta com uma rede de amigos que o apoia. "Ele é um jovem que sonha e que desde sempre se dedica à psicologia. Quando ele nasceu, éramos quinze pessoas morando aqui em casa, cada uma com suas próprias particularidades. Essa é a marca que meu filho recebeu e carrega dentro de si. Considero ele a pessoa mais íntegra que conheço."
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