Existe uma ferramenta contra boatos e teorias da conspiração: o pensamento crítico

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31 Julho 2026

O método foi inventado na Grécia há dois milênios. Consiste em submeter opiniões e afirmações, incluindo as nossas, a múltiplos testes de refutação.

A opinião é de Arash Arjomandi, filósofo. Seu livro mais recente intitula-se Efêmero ou Imortal? 5 Caminhos para Transcender a Finitude da Vida. O artigo é publicado por El País, 22-06-2026. 

Eis o artigo.

Na Espanha, 22% das pessoas duvidam que os humanos tenham chegado à Lua, 28% acreditam que a Terra foi visitada por extraterrestres e que os governos estão escondendo isso, e 5% ainda pensam que a Terra é plana, de acordo com um estudo da Fundação BBVA.

Muitos estão convencidos de que a regularização dos imigrantes garante automaticamente a nacionalidade, o direito ao voto, auxílio maciço ou faz parte de uma grande substituição para gradualmente substituir a população europeia.

Uma parcela da sociedade acredita que a ONU, a Agenda 2030 e as políticas de mudança climática escondem um plano para impor uma ditadura global, abolir a propriedade privada ou controlar a população.

E outros espalham o boato de que as vacinas contra a COVID-19 causaram câncer acelerado, ou seja, tumores de crescimento repentino e rápido. Ou que as vacinas infantis causam autismo.

Como os cidadãos comuns, que não são especialistas nesses assuntos, devem lidar com esse tipo de opinião? Quais ferramentas temos à nossa disposição para verificar se são verdadeiras ou desinformação?

A ferramenta tem um nome e foi inventada na Grécia há dois milênios e meio: pensamento crítico. Consiste em submeter todas as opiniões a múltiplos testes de refutação para verificar se existem fatos que as desmintam. Na prática, isso significa que devemos aceitar como verdadeiras apenas as afirmações que oferecem a melhor explicação racional e que resistiram a repetidos testes empíricos.

Pensar criticamente, portanto, não é o mesmo que julgar. Julgar é destrutivo e sempre vê o copo meio vazio, enquanto a análise crítica é construtiva por natureza. Consequentemente, exige humildade diante do que não sabemos e considera todas as verdades como provisórias.

É verdade que — como Marx, Nietzsche e Freud, os três mestres da suspeita, nos ensinaram — a busca pela verdade começa com a desconfiança nas aparências e nas crenças estabelecidas. E é verdade que ela exige a atitude desconstrutivista teorizada por Derrida, ou seja, a engenharia reversa das ideias em busca de possíveis ocultações ou omissões que possam ter ocorrido em sua formação. Mas, para não cair no cinismo e na paranoia, é preciso aplicar a dúvida por meio de um método racional, como Descartes tão acertadamente observou.

A dúvida metódica é apenas o ponto de partida para descobrir, afirmação por afirmação, as verdades que resistem ao teste da dúvida razoável. Mas como podemos saber se aqueles que defendem teorias alternativas (por exemplo, teorias da conspiração) estão errados? Afinal, ninguém é onisciente, nem possui toda a realidade; nunca sabemos se nos falta alguma informação crucial que comprovaria a veracidade dessas outras explicações. Por mais numerosas que sejam as evidências que sustentam nossas crenças, elas podem ser totalmente insuficientes, porque o chamado viés de confirmação nos leva a reter, acima de tudo, os fatos que confirmam nossa posição e, muitas vezes, a ignorar aqueles que a refutam.

A solução reside em examinar as afirmações (nossas e de outros) sob uma ótica crítica, ou seja, verificar se elas resistiram a todas as tentativas de refutá-las. Em outras palavras, devemos sempre manter, em qualquer assunto, a melhor explicação racional disponível, desde que nenhuma observação empírica (verificação de fatos) a tenha refutado.

Vejamos um exemplo atual: alguns defensores da política de prioridade nacional alegam que "os imigrantes tiram empregos dos espanhóis". Mas essa afirmação é refutada pelos dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística e da Fundação para Estudos Econômicos Aplicados: os efeitos da imigração sobre o emprego e os salários dos espanhóis nativos são insignificantes.

Nenhum dos pesquisadores, que competem entre si pelos dados, publicou resultados em contrário. Pelo contrário, os números apurados pelo Banco da Espanha, e não refutados por nenhum outro relatório, mostram que a economia do nosso país não teria crescido tanto nos últimos anos sem a entrada de trabalhadores estrangeiros.

Não se trata de acreditarmos ingenuamente em tudo o que as fontes oficiais dizem, mas sim de inverter o ônus da prova e transferi-lo para os negacionistas e disseminadores de desinformação. São eles que devem fornecer dados observados e verificados que refutem nossa explicação. Pois, como Karl Popper resumiu, "a justificativa mais segura de uma crença reside no fracasso de nossas tentativas de refutá-la".

Ao teórico da conspiração ou disseminador de opiniões virais deve ser feita uma pergunta elementar: "Se você teve acesso a essa verdade oculta que supostamente refuta minha explicação, como é possível que nenhum dos profissionais que se comparam entre si tenha se deparado com a sua descoberta?"

Se sua resposta for “porque todos estão comprados”, então você quer dizer que deseja evitar o debate racional e pluralista e impor dogmaticamente suas próprias opiniões à realidade, em vez de submetê-las aos fatos. O debate público só é possível em sociedades abertas e pluralistas como a nossa, onde os profissionais competem entre si não para confirmar o que seus colegas dizem, mas precisamente para encontrar dados empíricos que os refutem. O debate aberto e pluralista é a atitude humana mais racional: constitui “a tentativa consciente de fazer com que, em nosso lugar, nossas conjecturas sejam submetidas à luta pela sobrevivência do mais apto”, como afirma Popper. Em outras palavras, permite que nossas opiniões equivocadas morram antes que seus efeitos nos matem como consequência do terraplanismo, da pseudociência e do negacionismo que minimiza as mudanças climáticas, os benefícios das vacinas ou o crescimento econômico gerado pela imigração, para citar apenas três exemplos.

O pensamento crítico é ainda mais crucial ao usar inteligência artificial ou redes sociais. Devemos gerenciar de forma autocrítica o que os algoritmos nos mostram, praticando o condicionamento mental: monitorando continuamente nossos vieses cognitivos e não permitindo que eles operem de forma insidiosa. Por exemplo, devemos evitar julgamentos baseados em estereótipos, abster-nos de dar crédito indevido a quem pensa como nós e rejeitar, se contradizer as evidências, o que nos é emocionalmente familiar, mesmo que estejamos comprometidos com isso.

Foi Heidegger quem nos mostrou que escapar de uma vida inautêntica para alcançar uma existência verdadeiramente autêntica exige desconsiderar o que é dito acriticamente na esfera pública. Nessa esfera, repete-se uma conversa impessoal, que não pertence a ninguém em particular, mas sim a outros nas redes sociais, em podcasts ou em jantares: é comentada, dita, pensada, acreditada… É a força da alma, essa faculdade de ação pessoal que todos possuímos, que, se nutrida e fortalecida, pode nos proteger e neutralizar as ideias ou produtos que os algoritmos tentam nos vender.

Portanto, toda crítica racional deve também implicar crítica social. Seguindo os passos da lendária Escola de Frankfurt do século passado, devemos tentar identificar as promessas de liberdade e progresso que nos foram feitas, mas que foram quebradas ou traídas, e propor em seu lugar teorias críticas que sejam transformadoras. 

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