10 Junho 2026
Os sete minutos de aplausos com que deputados e senadores do parlamento espanhol, reunidos em sessão conjunta, saudaram as palavras de Leão XIV já em si eram uma notícia. No dia em que um papa discursava pela primeira vez naquela assembleia, a ovação de pé unânime foi uma imagem quase dissonante em Madri, um lugar onde, ano após ano, e com cada vez mais força com a entrada do partido de extrema-direita Vox nas cadeiras, entrou em cena aquela "desqualificação permanente do adversário", contra a qual o pontífice se insurgiu em um discurso definido como "histórico" pela imprensa espanhola.
A reportagem é de Mariangela Paone, publicada por Domani, 09-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O aviso de Leão
No terceiro dia da visita de Leão à Espanha, que se estenderá até sexta-feira, seu discurso no parlamento era o momento mais aguardado. Já no sábado, na recepção oficial com a família real, ele havia alertado contra "as abordagens identitárias" que "povoam o mundo com fantasmas e inimigos". Também reiterou, em sua homilia na missa celebrada no domingo diante de mais de um milhão de pessoas na Plaza de Cibeles, no coração da capital espanhola, que "ninguém pode se ajoelhar diante do Senhor e desprezar o irmão". Um aviso claro em um momento em que se normalizam as derivas racistas da extrema-direita do Vox que, nos acordos que está firmando com o os conservadores do Pp em diversas regiões, impõe a adoção do conceito de "prioridade nacional". É essa abordagem no estilo "espanhóis primeiro" contra a quais Leão voltou a lançar críticas no Parlamento, dedicando uma parte central de seu discurso à questão da migração.
"Sempre que uma pessoa for discriminada por causa de sua origem nacional, étnica, religiosa ou linguística, ou por causa de sua condição econômica ou social, o princípio universal da igual dignidade de todos os seres humanos é gravemente violado", disse Leão, desejando para os migrantes "rotas seguras e legais, um acolhimento respeitoso e oportunidades reais de integração; e, ao mesmo tempo, a promoção do direito de permanecer em sua própria terra", com políticas que sirvam à paz, à superação das desigualdades e à luta contra os efeitos das mudanças climáticas. E mais ainda: "Nenhum ser humano pode ser usado como mercadoria".
Foi uma das passagens em que a sintonia de Prevost com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ficou mais evidente. Seu governo acaba de aprovar, em contratendência com o resto da Europa, um programa de regularização que tirará meio milhão de pessoas da situação de irregularidade e vulnerabilidade.
A imigração havia sido um dos temas que o Papa e Sánchez discutiram em seu encontro na manhã de ontem, antes da visita de Leão ao Parlamento, onde compartilharam suas visões sobre o multilateralismo e o respeito pelo direito internacional, cujas bases, lembrou o Pontífice ontem, foram lançados pela Escola de Salamanca e por teólogos como Francisco de Vitoria, há quinhentos anos.
De qualquer forma, também a parte mais conservadora da doutrina da Igreja encontrou espaço no discurso de Prevost ao Parlamento. Na sede institucional que é a expressão da soberania popular, Leão se manifestou contra a eutanásia e o aborto, em um momento em que as forças progressistas estão tentando blindar esse direito na Constituição. Contudo, faltaram referências aos casos de abusos sexuais e pedofilia dentro da Igreja, embora mais tarde, num encontro com bispos, Leão os tenha definidos como "uma chaga", pedindo à comunidade eclesiástica para responder com "escuta, verdade, justiça, reparação e um empenho cada vez mais determinado na prevenção e numa cultura do cuidado".
Sem tapinhas nas costas
Afinal, o papa não tinha ido a Madrid para dar tapinhas nas costas de Sánchez, assolado por escândalos de corrupção envolvendo o Partido Socialista e que ameaçam a estabilidade do seu governo. A viagem do pontífice a Espanha foi, acima de tudo, como escreveu Íñigo Domínguez no El País, "uma peça do mosaico" num contexto em que Leão se tornou uma referência contra as derivas do trumpismo em escala global. Mas não há dúvida de que, por algumas horas, Sánchez conseguiu respirar um pouco, embora as manchetes de ontem sobre a visita do pontífice tenham se alternado constantemente com notícias sobre a esfera judiciária.
A gravidade da situação nessa frente também foi ressaltada pela ausência no parlamento do ex-primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, que está preparando sua defesa antes de depor perante os juízes que investigam o caso de corrupção que o envolve. A primeira data marcada é 17 de junho. A outra é o dia 24, quando Sánchez pediu para comparecer no parlamento para prestar os esclarecimentos que todos os seus membros vêm exigindo dele há semanas.
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