Ciclo de estudos debate sobre cuidados paliativos em pacientes com doenças terminais nesta quinta-feira, 28-05-2026
O fim da vida sempre causa medo. Todos temem a morte, mesmo sabendo de que toda vida tem seu fim, mas o principal problema sempre é a forma que escolhemos, ou se conseguimos optar por partir com dignidade.
Pacientes com doenças terminais muitas vezes são alvos de tratamentos que prolongam a vida, mesmo a pessoa não tendo a possibilidade real de viver. Atualmente, as discussões sobre a morte com dignidade têm sido debatidas em muitos espaços. Há um certo avanço nos cuidados paliativos, porém a resistência médica e sistêmica ainda permanece nas pessoas e âmbitos hospitalares.
Em casos terminais sem perspectiva de melhora, a comunicação humanizada entre médico e paciente tem o poder de ajudar na decisão de como ele irá encerrar sua trajetória, ou não, devido a interferências de familiares ou da incapacidade do próprio ser humano em definir o rumo da sua história.
Quando uma pessoa opta e tem o apoio dos familiares e de seus médicos para viver seus dias em paz, com cuidados paliativos que lhe proporcionem não sentir dor, o indivíduo volta a sonhar, cria expectativas e memórias com quem ama, saboreia os sabores de uma alimentação prazerosa e continua caminhando sem que haja tubos que o impeçam de se movimentar.
Tais práticas de cuidado dão um sopro de vida e disposição, até mesmo uma esperança e confiança de se conectar com a vida antes de perdê-la.
No livro O olho da rua [1], Eliane Brum traz a seguinte reflexão “na ótica dos paliativistas – profissionais que acreditam no respeito à hora do fim como parte do respeito à totalidade da vida –, é nesse momento que a medicina pode fazer ainda mais pelo paciente: garantir uma morte digna, sem dor, os sintomas da doença controlados, o paciente consciente e rodeado por quem ama. Cuidados paliativos priorizam a qualidade da vida possível – e não o prolongamento da vida a qualquer preço”.
É um cuidado que proporciona mais qualidade de vida, algo que humaniza e perpetua os sentidos de uma existência que se enriquece de valor ao sentir-se liberto, mesmo estando próximo da morte.
Hoje, 28-05-2026, a psicóloga, Maria Julia Kovacs traz uma discussão sobre o tema, conforme suas pesquisas e vivências, em um evento promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A videoconferência será transmitida ao vivo, às 17h30min.
Em artigo intitulado "Autonomia e o Direito de Morrer com Dignidade”, a pesquisadora relata que, para que tenhamos mais avanços nos cuidados paliativos, é necessária “uma mudança da mentalidade vigente na equipe de saúde e nas instituições hospitalares, de que o médico é o único depositário do saber, e da visão paternalista de que somente ele conhece o que é bom para seus pacientes. Outro ponto que deve ser considerado é o de que muitos pacientes, principalmente nos hospitais públicos, são de nível cultural mais baixo e, assim, têm uma filosofia de conformidade e resignação de que nada devem reivindicar para si. Vemos então que esta mudança de mentalidade envolve os dois polos da questão: o médico paternalista e o paciente submisso. Quando falamos em pacientes gravemente enfermos as questões giram em torno de temas delicados como a interligação entre vida e morte. Não está em jogo a cura, e sim a possibilidade de estancamento da doença e o prolongamento da vida. Esta seria a opção óbvia, se não fosse à custa de tratamentos acompanhados de efeitos secundários, causadores de grandes sofrimentos, mal-estar e limitações”.
Ser salvo a todo custo pode acarretar consequências perturbadoras para quem sobrevive em condições desumanas. Nesse contexto, Kovacs cita um caso em que o paciente optou por não prolongar sua vida com o consentimento de seu médico que concordava com práticas de tratamento paliativas, porém, sua equipe médica discordou. Tal prática fez com que o hospital ignorasse o pedido do paciente, orquestrando um procedimento invasivo que lhe custou a liberdade.
Kovacs conta essa história do seguinte modo:
"Sr. X, 84 anos de idade, portador de um câncer controlado, problemas cardíacos, pressão alta, teve diversos episódios de angina e alguns enfartes, tendo sido constatada uma obstrução em pontos importantes de suas artérias. O paciente, consciente, pede que não se tente nenhuma intervenção, sente que viveu o suficiente e gostaria de morrer em paz. O seu médico, que o acompanhava há muitos anos, concordou com este pedido. Entretanto, outros membros da equipe médica do hospital decidem realizar um procedimento de cateterismo, convencendo o paciente de que este exame era simples e poderia dar melhor indicação do seu quadro, possibilitando talvez uma desobstrução das artérias entupidas. Mesmo contra a sua vontade o exame foi realizado, e por uma intercorrência, que parece não ser tão rara nestes casos, sofreu um derrame que o deixou paralisado quase por completo. Este procedimento teve consequências graves, e este homem sobreviveu nestas condições por mais dois anos. Por ocasião de uma piora do seu quadro foi hospitalizado e conduzido à UTI, onde foram realizadas diversas manobras de sobrevivência. A última imagem que tivemos, um pouco antes de sua morte, foi aquela que chamamos de 'Frankenstein' do século XX. Havia tubos por todos os orifícios de seu corpo, todas as atividades vitais eram realizadas por máquinas, as mãos estavam amarradas, da sua boca torta saía o tubo do respirador, com seu ruído constante. O único meio de comunicação que lhe restava eram os olhos, que expressavam profunda tristeza, e dos quais rolavam lágrimas".
Morrer com dignidade nem sempre é uma escolha que possamos fazer, não em instituições que menosprezam meios paliativos.
É contra essa corrente que Kovacs segue lutando, partindo do pressuposto que “mais do que a ciência e a lei, busca-se a compreensão do profundo drama humano que envolve a vida e a morte, mas principalmente conceitos como liberdade e dignidade. Estes são conceitos universais, mas que têm para cada ser humano significados muito particulares, que em momentos-limite adquirem fundamental importância”.
O quê: “Ciclo de estudos - A morte e o morrer. Cuidados paliativos - O direito a viver com dignidade até o fim”
Quando: 28-05-2026, às 17h30min
Quem: Dra. Maria Julia Kovacs é professora livre docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Os temas de estudo e pesquisa são: morte, luto, bioética, formação de profissionais de saúde e educação. Concluiu livre docência em 2002 com a tese: Educação para a Morte: desafio na formação de profissionais de saúde e educação. Coordena o Laboratório de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia da USP.
Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU
Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ihu-ideias
[1] BRUM, Eliane. O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2017.