"Esta obra ganha consistência na combinação entre o drama humano, a nossa condição de abandono e a lida com o mal, somada com a trama presente na dor insuperável, de um imenso amor não vivido. Esta combinação dá a universalidade da obra. Isto é tão avassalador, ao mesmo tempo é tão violento, que o próprio autor, já contou a algum de seus entrevistados o quanto precisou travar uma luta corporal com o demônio, em seu corpo nu, rolando pelo chão de sua sala. O escritor sabia que estava entregando em nossas mãos um texto explosivo, e por isso mesmo, com alto teor de risco", escreve Romualdo Dias, professor vinculado ao Programa de Pós-graduação em Educação do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Rio Claro.
“No sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar. Nada mais.”
"(...) qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura." - João Guimarães Rosa
De que é que eu desconfio? Diante das travessias eu experimento um misto de susto, de espanto e de encantamento. Eu sou mineiro e preciso fazer uma viagem pelos sertões de Minas Gerais, primeiro, e em seguida, sinto a necessidade de entrar, como um andarilho, pelos sertões de meus subsolos. Por enquanto, vou sem as minhas memórias, pois nessas minhas carências, quero me colocar na escuta das memórias de outro mineiro no seu modo de arder em sua própria dor. Portanto, desconfio de minha condição para realizar as duas primeiras empreitadas. Fora das viagens, eu me sinto bem para me colocar na escuta do outro. Eu tenho em minhas mãos a obra de João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”! É por meio de sua leitura que eu farei as minhas viagens!
Eu quero fazer uma viagem pelos sertões de Minas Gerais. Li o aviso, em um tom de prudência, feito por Guimarães Rosa, tal como está escrito na epígrafe selecionada para este texto. Talvez seja uma redundância este fato de me representar como sendo um mineiro desconfiado. Pois na fala popular esta é uma constatação há muito corriqueira. Mas, que é verdade que eu tenho desconfiança de mim mesmo, isto é. Não sei se tenho as melhores condições para realizar esta travessia. Ainda neste jeito de ser mineiro, quero estar precavido.
No nosso modo, dos mineiros, de serem prevenidos, vou tratando logo de fazer um uso correto de alguma inteligência que tenho, e vou organizar um mapa como um recurso de orientação para uso em viagem. Este texto pode também cumprir a função de uma bússola. Em minhas últimas travessias, pelas mais diversas formas de me encontrar com o mundo e no mundo, eu sinto que consigo desenvolver uma relativa habilidade de me abrir aos fluxos, de aumentar a minha capacidade de espreita, e daí saber tirar o melhor proveito.
Também é verdade que sou muito desconfiado com relação a minha capacidade de adivinhar. Eu acho que eu adivinho pouco. Depois deste meu reencontro com outro mineiro, nesta leitura da obra de Guimarães Rosa, sinto fortalecer em mim o gosto da abertura para as adivinhações. Vou investir em um campo de crescimento pessoal mais atento com esta capacidade de adivinhar. Eu preciso tê-la mais forte em mim, para dar conta de realizar as mais desafiadoras travessias, que os novos tempos estão me solicitando.
“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”
Assim João Guimarães Rosa começa a sua narrativa. Ele registra, com o travessão, a presença do outro, sentado ao seu lado, disponível para a escuta de sua longa narrativa, tecida pelas linhas de seus dramas e de sua trama. Em seguida, a primeira palavra, resume no estilo de um jagunço já encostado pelo avançado de sua idade, o núcleo do drama número um. Os tiros dão a marca da intensidade dele enquanto uma vivência existencial. A briga está posta ao mesmo tempo em que um desejo pela presença de Deus se mostra. É se colocando diante do enorme abandono de sua existência que o narrador faz a pergunta pela existência de Deus.
Como ele termina a sua narrativa? As suas últimas palavras reafirmam a dinâmica da constituição de si mesmo, seu processo de subjetivação, possível de se realizar na presença do outro, em práticas de amizade. Ali com o amigo, pode encerrar sua narrativa, toda feita de memória, em que o nada e o mal, resumem a dura combinação dos dramas com uma trama.
“Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."
Ali, neste exato instante de encerramento de sua narrativa, a amizade de seu interlocutor expressa uma aposta no humano, neste significado de ele, o narrador encontrar alguém com quem possa contar. O fato de poder narrar não encerra o drama principal de sua existência, que também é nossa, já na condição de nós nos fazermos amigo dele por meio da leitura. A travessia se faz na matéria do encontro com o outro, em um vínculo feito de relações capazes de estabelecer o território do meio como o cenário de uma luta sem fim. Há que se abrir para o incansável, pois é para isso que nos lança o sinal do infinito. E a leitura jamais se encerra ali no acontecimento de uma amizade, em que a narrativa e a memória, continuam o trabalho da elaboração dos efeitos da luta em nós, em toda a sua duração, esta que vai do momento de nosso nascimento e dura até a nossa morte.
Estas são as chaves de leitura oferecidas para nós pelo mineiro astuto, ao seu modo, também desconfiado, em que o dito se expressa por meio de uma multiplicidade de subentendidos. O lugar da narrativa marca o estilo de um sujeito tão precavido, tão zeloso de uma prudência necessária. Em meio a tanta maldade há que saber dizer tudo sem o descaramento. Ser mais velado faz parte de um estilo mineiro de agir na calada da noite, sempre sorrateiro, pois é a vida que está sempre em risco. Enfim, nós nos deparamos com o outro, com a memória e com a narrativa. Estes três elementos acodem o sujeito que precisa curar uma dor imensa, na lida com os seus dramas. Para encerrar o narrador precisa engolir a seco o seu drama, mas nem por isso se deixa abater, pois o encanto da travessia, se abre ao infinito! A luta que estava lá, no tempo da “jagunçagem” vai perdurar, na companhia do amigo, por meio de uma combinação entre a lida com o abandono e a dor de um amor impossível.
Em primeiro lugar, antes de iniciar a viagem, eu me apropriei de algumas chaves de leitura. A viagem, a se realizar em minhas fantasias, já faz parte daquele manejo da exigência de adivinhar. Ainda não é da ordem da inteligência.
O que tenho em mãos? Eu tenho um livro, trata-se de um texto impresso. As chaves de leitura me abrem as portas de entrada neste livro. Comigo tudo se repete. Eu me acomodo em uma poltrona, me coloco na escuta deste mineiro astuto, enquanto ele me relata a sua dor, mostrando para mim a sua melhor habilidade de uso do estilo da narrativa. Com todas as suas forças ele explora ao máximo todos os recursos da memória. O seu suporte é a sua linguagem, contorcido até o seu limite. Com a sua voz ele pode me contar tudo novamente, sem deixar de lado todos os vacilos, postos por sua emoção neste seu modo de recorrer ao vivido pelo seu jeito de contar a história de sua dor.
E o que é que este mineiro, contorcendo no corpo, ardendo em febre, pode me contar, porque precisa contar e recontar, quantas vezes for necessário para tantos leitores que comparecerem no encontro com ele?
Ele me conta sobre o maior drama, que é dele, é meu e é nosso. O drama está relatado por meio da expressão de nosso mais amplo abandono. Esta é a verdade: nascemos e somos seres do abandono! Estamos soltos, fomos largados na imensidão do mundo, que aqui, ele se apresenta nas formas múltiplas de um imenso sertão. Esta é a primeira linha da narrativa: estamos abandonados. Mas sei que posso contar com alguém, com um amigo sentado aqui, na minha frente, com toda a disposição para ouvir o meu relato.
E para piorar mais ainda o drama, vem a segunda linha. Se já não basta esta imensa dor, de saber que fomos abandonados, há que encarar outra dureza do viver, que consiste no mal. O mal existe. Aqui no sertão a narrativa do personagem principal está cheia de amostras das formas como o mal acontece em nossas existências. A vida se desenvolve sempre em meio a muito risco.
Assim eu escuto o meu amigo mineiro me dizer: “a minha narrativa precisa ser extensa, porque maior é a minha dor”. É que o meu amigo foi pego em uma trama, para a qual não há nada a explicar. Só há que suportar o seu ardor no corpo. Arde em seu corpo a dor de não poder amar. Para aguentar tal esforço só mesmo podendo contar com a companhia de quem o escuta, na amizade.
Em que trama o meu amigo foi pego como sendo a maior armadilha de sua vida? Esta trama está expressa no amor que lhe foi roubado. Então, já estou me referindo ao personagem central de toda a narrativa, este que conta com o uso de uma voz, carregada com a emoção do fato de não poder amar Diadorim. É insuportável não alcançar alguma explicação para o acontecido. Só pode ser coisa do diabo. Então, Riobaldo precisa sobrepor com outra trama, em que ele diz ter feito um pacto com o demônio para vencer o inimigo. E se Diadorim morreu na luta final é porque este era o preço a ser pago.
Esta trama é uma grande cilada. Dela mesma nasce a necessidade de narrar, para ver, se com o uso da memória, toda esta ferida possa ser curada. O meu narrador está ferido no amor. Como a dor é imensa e a ferida ainda está a sangrar, muitos encontros se sucederão enquanto inúmeros leitores pegarem em mãos esta obra da literatura, e novamente, cada um pode experimentar esta dura viagem pelo sertão. Cada leitor precisará ter disposição de encarar o drama do desamparo ao lado da presença do mal como parte da existência de todos nós. E cada leitor pode conferir o que se passa com o amor, como algo próprio, de toda a sua vida sendo passada a limpo. Isto se faz mesmo sabendo que não há nada a corrigir, pois trata-se de se implicar no mais profundo drama de nossa existência, de cada um poder se lançar neste abandono fundante do viver. Assim posso dizer, que o infinito de cada um, este que é próprio da lida com o desamparo, também se faz nas muitas leituras que vão acontecendo enquanto o livro circular pelas mãos dos incontáveis leitores.
A cura de Riobaldo foi encontrada com o uso de três recursos disponíveis para ele: uma memória de tudo o que aconteceu no vasto sertão; a narrativa em um estilo feito com os mais intensos afetos; e, o outro, esta experiência de alteridade, só vivida por meio da amizade, deste que está ali na sua frente, disponível para o escutar.
Os três elementos se implicam mutuamente e sustentam a repetição tão necessária na obtenção da cura para a sua dor insuportável. A narrativa mostra em seu estilo o quanto o narrador precisa contar com a linguagem, rica em matéria de afetos e perceptos. Esta riqueza de linguagem também é testemunha do quanto este sertão se apresenta como se exibindo em uma paisagem imensa. A condição da linguagem multifacetada também nos mostra o quanto o narrador sabe do risco em sua vida, caso ele vacilar. Diante de tanta maldade, espalhada pelo vasto sertão, há que se cuidar, e muito, sem um minuto sequer de distração.
Riobaldo conta com a sua memória. Ela cumpre duas funções: ela lhe oferece o suporte para contar em detalhes tudo o que ele precisa dizer para expressar o tamanho de seu drama e a força da trama de um amor intenso roubado pelo acaso. A memória também o orienta, o conduz em sua busca de um sentido para algo impossível de achar uma explicação.
O narrador maneja a memória explicitando uma condição dele, singular, em sua forma de se apropriar das mais variadas e ricas histórias do seu lugar. Todas as histórias estão carregadas dos mais amplos saberes recolhidos na diversidade do viver de muitos moradores encontrados nas estradas deste vasto sertão. Ele mostra que soube tirar proveito de tudo o que ouviu dos outros companheiros em meio a suas andanças exigidas por um estilo de vida feito na “jagunçagem”.
Ainda tem mais: o narrador sabe que esta memória se constitui de um acervo. Está disponível neste acervo uma variedade imensa de conhecimentos, tão vasta quanto é o sertão. Esta memória é coletiva. Justamente por isso tantos saberes podem estar ali reunidos. Trata-se de conhecimentos sobre a vida dos humanos, sobre a vida da natureza, sobre os sonhos e as dores dos habitantes do sertão. Há saberes sobre a beleza e sobre a feiura, há saberes carregados das ambiguidades estabelecidas entre certezas e incertezas, feitos em uma intensa mistura a forçar todo o movimento, tanto da narrativa quanto do pensamento.
O terceiro recurso Riobaldo encontra no amigo disponível para lhe escutar. Aqui vemos como a leitura deste livro se transforma em um exercício de alteridade. Cada leitor, ganha do narrador, como sendo uma oferta generosa, esta possibilidade de viver um percurso de constituição de si no encontro com o outro. A relação de alteridade, o fato do outro estar ali para escutá-lo, se apresenta como condição de vínculo, que por ele, revela o núcleo de outro jeito de se colocar no exercício da política. O fato de poder se vincular com o outro na narração de uma dor real está o núcleo de uma vivência do político em sua forma do intensivo.
Eu não escutei na voz de Riobaldo nenhuma marca de preocupação com o sentido de sua existência. Se algum sentido pode ser atribuído ele está nesta relação de alteridade, ele se faz no diálogo enquanto há uma combinação simultânea entre uma narrativa e uma escuta. Riobaldo narra e seu amigo lhe escuta. O sinal de travessão identifica que o diálogo já começou e a primeira palavra nomeia o drama maior: estamos mesmo abandonados em nossa existência e por isso não precisamos nos perder em busca de sentidos. O sentido não há. O que há de real é este outro, o amigo presente, sentado ali pronto para lhe escutar. Nesta escuta se materializa o vínculo. O narrador ganha um amigo. A amizade é a força de sustentação para cada um de nós aguentarmos o tranco da dor do viver, na duração do infinito.
Um modo de se implicar...
O estilo da narrativa de Riobaldo não deixa o leitor neutro. Eu ouvi também o relato de outros viajantes, que ao adentrarem por estes sertões de Minas Gerais, me disseram o quanto foi difícil atravessar as cem primeiras páginas na leitura do livro. Havia viajantes que buscavam algum tipo de alívio para explicar tal dificuldade de leitura atribuída para a linguagem do romance. Mal sabiam eles que a dificuldade residia em alguma coisa percebida pelos seus próprios corpos. O corpo de cada um, em sua sabedoria de sempre, sabe, por meio de outra ordem do saber, que ali vem chumbo grosso enquanto os olhos percorrem as páginas do livro. Não é à toa que na primeira linha já podemos escutar um tiroteio. De uma forma muito matreira o narrador cuida de nós para não sermos tomados pelo susto assim na entrada da viagem. Mesmo havendo um cuidado e zelo por parte de Riobaldo, o leitor, este outro viajante, começa a experimentar calafrios em seu corpo. Realmente não é fácil ter que encarar o abandono em sua vastidão e o mal em sua crueza. Não é nada fácil aguentar as duas coisas em sua falta de explicação, em sua falta de sentido.
Cada leitura acontece em uma mútua implicação. O leitor se implica com o livro e o livro se implica com o leitor. O resultado da dinâmica desta implicação está no efeito esperado, enquanto uma aposta, a mais astuta de toda a narrativa, de que o leitor, junto com o narrador, também poderá tomar partido da vida. Riobaldo sabe que não tem garantias nenhuma de que isso venha a acontecer. Mas ele faz esta aposta. Ao entrar no sertão o leitor pode se encontrar e se perder, o autor já deu o seu aviso.
Além do fato de fazer uma aposta nesta tomada de partido pela vida, o narrador afirma uma ambição muito maior, com a exposição de sua imensa generosidade, tão vasta quanto é o sertão. O narrador sabe, quer deixar o leitor sentir, o quanto há forças promovendo abalos sísmicos no subsolo do sertão. Aí então o sertão é todo lugar, de um modo geral, mas é o nosso país por inteiro, de um modo específico. A grande ambição do narrador está no fato de saber que o sistema colonial, secular em nossa terra, nos desafia a um imenso acerto de contas, com todas as suas forças, seja de dominação, seja de emancipação, gestadas ao longo de todo o período em que o Brasil sofreu a colonização sob o domínio de Portugal. Aí então, vemos como em outra forma de astúcia, Riobaldo nos convoca, isto é, nos implica no acerto de contas com o sistema colonial. Este acerto de contas deve acontecer em uma sábia combinação entre afetos e perceptos, entre dores e alegrias, entre beleza e feiura, a acontecer em todo o percurso da viagem pelo sertão adentro. Só mesmo o sertão, em sua vastidão, somada com a generosidade sem limites do autor, poderá realizar esta tarefa. Volto a insistir no elemento infinito a se refazer em cada leitor, em muitas leituras, enquanto este livro circular.
Já vimos como o viajante foi impedido de alimentar qualquer ilusão de neutralidade em suas travessias pelo sertão. Já vimos também como o leitor se vê obrigado a abrir mão de uma ilusória busca de sentidos para explicar o desamparo de sua existência, bem como para explicar a lida com a maldade.
Esta obra ganha consistência na combinação entre o drama humano, a nossa condição de abandono e a lida com o mal, somada com a trama presente na dor insuperável, de um imenso amor não vivido. Esta combinação dá a universalidade da obra. Isto é tão avassalador, ao mesmo tempo é tão violento, que o próprio autor, já contou a algum de seus entrevistados o quanto precisou travar uma luta corporal com o demônio, em seu corpo nu, rolando pelo chão de sua sala. O escritor sabia que estava entregando em nossas mãos um texto explosivo, e por isso mesmo, com alto teor de risco.
A força deste romance está em sua capacidade de convocar cada leitor a experimentar um salto para o alto em seu modo de existência. Não se trata nem de uma pedagogia e nem de uma “andragogia” que possa ser cumprida por meio da leitura desta obra. Tentando superar estas fórmulas, podemos expressar com maior ousadia, por meio do uso da expressão “anagogia”, pois este salto para um patamar mais elevado, nos dá a nobreza do viver, nos retira de uma existência entregue a mediocridade de suas rotinas ou aos padecimentos de tantas dores. Com este entendimento sobre a condução de nossas vidas, nos termos da “anagogia”, uma vida ganha em potência de sua realização, e se expressa aí em seu aspecto mais revolucionário.
O leitor, tendo o livro em suas mãos, é convocado a viver um percurso singular, que é só dele, a se travar enquanto seus olhos percorrem cada página. Algo novo se repete a cada leitura, e um espaço de entremeio, um chão real aberto para as múltiplas travessias passa a ser traçado neste plano de encontro entre o leitor e a obra. Eu senti o mesmo efeito em tantas vezes em que estive diante de um quadro de Caravaggio, em outras viagens pela Itália. Este pintor nos obriga a atravessar o espaço que se abre durante a contemplação de cada quadro. E ali, nesta travessia, cada um se sente obrigado a elevar a sua existência para o alto. O admirador da obra de arte ganha a possibilidade de experimentar uma vivência de “anagogia”, uma oportunidade de se deixar conduzir para o alto.
Foi pensando nesta experiência vivida diante da pintura de Caravaggio que pude atribuir a João Guimarães Rosa uma característica do barroco presente em seu estilo. É o barroco mineiro, herdado dos encontros nossos com os portugueses em muitos anos de convivência, durante o período colonial. Aqui deparamo-nos com outro aspecto tão astucioso desta boa “mineirice” deste autor. Por isso mesmo ele nos envolve tanto. Ele nos envolve em uma dimensão tal ao ponto de poder exclamar: “fico aflito de tanto gostar”!
É uma aflição do corpo, no corpo de cada leitor. A força desta aflição nos faz pensar em um deslocamento, em uma experiência de ruptura em nosso modo de existência.
De que deslocamento estou falando?
A magnitude da obra nos obriga a deslocar na dinâmica mesma de um exercício muito singular do pensamento. Há um pensar ousado, singular, inédito! Há um pensar diferente, um pensar outro, próprio de quem pensa a partir de uma viagem realizada pelo sertão.
Neste meu esforço de elaboração de um mapa para uso em viagens pelo sertão eu consegui este recurso operado no deslocamento de uma epistemologia para uma gnosiologia. O elemento favorável a uma viagem melhor aproveitada veio deste abandono de uma relação entre o sujeito e o objeto, em termos de pensamento, que é próprio do campo da epistemologia. Eu não precisei ficar mais atado a esta modalidade de relação, e pude chegar a outro lugar. Aí então pude explorar a relação entre a matéria e a forma, própria do campo da gnosiologia. O modo de pensar, no sertão, nesta experiência de um intenso movimento, se faz nesta combinação entre a forma e a matéria.
A forma se constitui da combinação entre as categorias modais da existência com os elementos estruturais da narrativa. A cada categoria corresponde um elemento de narrativa no seguinte arranjo. Na esfera da necessidade eu situo o homem. Sem o homem nenhuma obra acontece, nenhuma luta se faz. No plano da realidade eu localizo a luta, pois é aí que se assenta o exercício do político. A política é feita de uma luta sem fim. E na esfera da possibilidade está o sertão se exibindo em uma abertura de horizontes como sendo uma oferta para a vida se emancipar em toda a multiplicidade, nos infinitos modos de sua realização.
A matéria se constitui como três linhas transversais, a atravessarem aqueles planos das categorias modais da existência. Se lá as formas dão o continente para o acontecimento da vida, aqui a matéria recolhe os elementos do intensivo. É a mais pura contingência que pode ser aproveitada e emoldurada. A matéria é feita de puro fluxo. É a vida pulsando com toda a sua força. As três linhas são constituídas pelo drama do abandono e do mal agregada com a trama de uma armadilha do acaso suficientemente forte ao ponto de roubar o amor de Riobaldo.
Todas as leituras que venho fazendo de “Grande sertão: veredas” me convencem de que tenho em mãos um verdadeiro tratado de Filosofia, com a abordagem dos temas de nossa existência ao modo do sertão de Minas Gerais.
Enquanto a leitura foi proporcionando para mim uma repetição de uma vivência enquanto drama, trama e dor, eu pude, ao mesmo tempo encontrar um alívio. Há tempo eu me via envolvido com aquela pergunta, de quem ao fazer o Curso de Licenciatura em Filosofia, também realizado no interior de Minas Gerais, se via envolvido em discussões sobre a possibilidade de se fazer ou não uma filosofia nossa, uma filosofia no Brasil.
A estas indagações pesavam em nossas costas de estudantes a acusação de sermos incapazes de pensar além dos referenciais encontradas no modo de fazer a Filosofia na Europa. Então, neste contexto, o termo “eurocentrismo” era escutado como algo difícil de suportar enquanto uma presença constante em nossas leituras, bem como em nosso modo de estudar.
Em todas as discussões, daquela época do curso da graduação, e na sequência dos estudos em etapas posteriores da vida acadêmica, eu pude entrar em contato com as elaborações de Enrique Dussel e de Boaventura de Sousa Santos sobre a possibilidades de experimentarmos uma “epistemologia do sul”. Depois busquei os textos de estudiosos sobre os temas relacionados com o que vem sendo chamado de “estudos pós-coloniais”. Em meio a muitas buscas, no envolvimento com estes temas, pude me encontrar com os textos de Aníbal Quijano e de Walter Mignolo, junto com tantos outros estudiosos a transitarem por aí em suas mais variadas órbitas de estudos e elaborações.
Enfim, quero dizer que pude tirar um peso das costas, que pude experimentar um alívio diante desta lida tão árdua que o enfrentamento com o “eurocentrismo” nos exige. E isto eu consegui lendo o romance “Grande Sertão: Veredas”. Mesmo sabendo que eu sou suspeito para afirmar isso, na minha condição de mineiro, quero conferir a este livro o estatuto de ser uma obra substancial de Filosofia.
Em uma tentativa de chegar ao final deste texto com a apresentação de uma síntese, posso dizer que o meu mapa pode se fazer com o desenho de três linhas verticais: uma expressa o drama existencial de todo o ser humano ao saber que estamos abandonados; a segunda, expressa o elemento que vem para agravar a nossa situação, porque além desta dureza do viver, precisamos lidar com o mal. E em terceiro lugar, vem a linha que expressa uma dor insuportável, esta de saber que o narrador caiu em uma armadilha do acaso, viu em sua vida o seu amor intenso lhe ser roubado.
A dor está exposta. E como o narrador busca a sua cura? Ele conta com uma narrativa e com uma memória! Ao repetir tudo o que foi vivido, em um diálogo com o seu amigo, ele pode elaborar a sua dor. Então tudo vai culminar na travessia. A dor, vivida naquilo que mais nos pega na vida, em nossa condição da amar, não nos deixa fugir do real e nem nos trair em formas de idealismos. Pode ser que tudo isso nos deixe ainda mais desamparados em um estado de susto e desespero. Mesmo tendo que lidar com uma dimensão de incerteza nos tratos com os temas de nossa vida, nós vamos ao encontro do outro a partir de nosso desemparo e de nossa dor.
Com o outro nós podemos compor uma obra e deixar a nossa marca no mundo. Com a nossa obra nós podemos acertar o nosso compasso, de toda uma história de vida, que sendo de cada um, tem a sua singularidade, ela se abre para a dimensão universal do mundo. Esta condição, de podermos contar com o outro, em uma composição, nos abre ao encantamento de todo um modo de existir. Em exercícios sem descanso, nesta experiência de nos entregar para as múltiplas e diversas composições, nós enfrentamos a feiura e conquistamos a beleza. Assim, nós nos lançamos ao infinito, e a travessia ganha mais charme, pois com o outro, aguentamos o nosso desamparo.
Enfim, podemos agregar a graça do viver! Aí então descobrimos um modo artista de viver! No núcleo da reinvenção de novos exercícios do político nós colocamos a alegria! Não precisamos cai nas capturas das lamúrias como forma de lidar com a nossa dor existencial. Vamos ao encontro do outro e teremos as melhores condições de experimentar uma vida a se realizar na potência do amor! Junto com o outro vamos usar a nossa inteligência e a nossa capacidade de adivinhar para criarmos outros mundos possíveis! E a vida de cada um ganhará em charme e beleza!
Minha travessia pela superfície de alguns becos e “veredas” de seu texto Maria Helena Falcão Vasconcellos (Juiz de Fora – Minas Gerais)
Desde a primeira vez que vi/ouvi o título do livro Grande sertão veredas me perguntei o que significaria aí “veredas”. Para mim vereda é atalho, trilha. Pelo dicionário fiquei sabendo que vereda é atalho, é trilha sim. Mas em Minas vereda se refere a trilha percorrida por águas adornadas por buritizais. Já na etimologia, o dicionário me fala também em “cavalo de viagem”. Gostei disso. Vereda é atalho que podemos atravessar, atalho que águas podem percorrer. Pode-se atravessar uma vereda a pé, a cavalo, sozinho, acompanhado.
Parece que Guimarães Rosa atravessa sertão e veredas de Minas Gerais a cavalo e acompanhado. Você Romualdo, atravessa a narrativa de Rosa, seu conterrâneo, com os olhos atentos às palavras e àquilo que delas emana, com o corpo lanhado por afetos, numa travessia experimentadora, que acentua os lanhados do corpo, enquanto vai arrastando travessias que vem realizando, faz tempo, pelos sertões da existência. Na leitura você faz travessia segunda e vai traçando um mapa na travessia primeira, que é a narrativa de Guimarães Rosa.
Lendo seu texto sou chamada a fazer a terceira travessia, que estou registrando aqui. Devo confessar que comecei nas águas com que reguei a dedicatória do texto.
Nessa travessia, vou traçar algumas riscas, pontuando em seu mapa algumas coisas que me acorreram durante as duas leituras. Sei que muitas outras riscas são possíveis.
Primeira risca que traço em seu texto, é que ele atenta para a travessia que o leitor – você -realiza empurrado pela narrativa. É a primeira vez que encontro uma leitura com ênfase tão forte nos deslocamentos que o encontro leitor-texto vai provocando. Qual experimentador de si, você vai se emaranhando nas tramas da superfície do texto, que arrasta a superfície física do sertão mineiro e a superfície transcendental do sertão da existência humana. Superfícies em que você desliza como experiência de abandono, prática de amizade e lida com a dor do amor. A modernidade nos mergulhou nesse abandono, nos jogou na solidão do individualismo. Acho que você desliza forte em sua mineiridade. Você também adora as confidências em prosas mineiras. E o primeiro anúncio do livro é exatamente que ele vai ser uma prosa. O travessão garante isso. E prosa mineira não termina. Ela se interrompe. Prosa mineira é infinita.
Outra risca: a travessia do texto desloca o modo de subjetivação do leitor que está escrevendo. Essa risca percorre o texto todo e se explicita melhor ainda no final. No entremeio entre a narrativa do mineiro Rosa e a mineiridade do leitor, se percebe a ênfase no deslocamento no modo de subjetivação do leitor. A percepção de que a subjetivação é experimentação da vida, já vem de longe nesse “mineiro desconfiado” e se confirma nessa relação atravessada por palavras do sertão, “oferta generosa... do percurso de constituição de si no encontro com o outro”. Encontro com o outro. Corpo entre corpos, corpo que só existe em afecções de corpos. Impossível existir sem o outro, sem contar com o outro. A transmodernidade de Dussel e de outros quer recuperar a experimentação do comum. É aí que se localiza a possibilidade de cura da dor.
Outra risca, bonita! é traçada por você ao dar-se conta do filosofar de Guimarães Rosa, tanto na estrutura da escrita como na matéria mesma da narrativa. Interessam à filosofia temas da existência. Não um filosofar em busca de conceituações representativas abstratas. E ao perceber isso você amigo, “sente alívio” e se alegra por se libertar de uma dor antiga, que vem se desdobrando desde tempos da graduação. Sim, brasileiros filosofam. É verdade que filosofam num outro arranjo de pensamento, que solicita outro arranjo de leitura: perceptos, afetos, dando voz a acontecimentos. Entre outras “epistemologias do sul”? Aqui um filosofar singular, “ao modo do sertão”. Assim entre incertezas e ambiguidades, na coragem de espreitar e adivinhar, mas com segurança, você confere a “Grande sertão veredas” o estatuto de obra filosófica singular.
Queria discorrer sobre a modalidade de encarar forma e matéria. Mas para ser sincera, acho que não sei fazer isso, precisaria entender melhor a perspectiva modal, como aparece aí.
Mais uma risca ainda quero fazer em seu mapa. Você usa a metáfora de apontar para cima, para dizer da “nobreza” de existir nietzscheana. Poderia também ser a metáfora do deslizamento de linhas do mapa nas superfícies secas do sertão, nas veredas líquidas e em devires que surfam no próprio texto, evidenciando fluxos em que o próprio leitor desliza. Deslizamentos clamam pela leve imprevisibilidade das superfícies. Não sei bem. Mas me ocorreu assim. Materiais subterrâneos também sobem à superfície e se esparramam em fatos vividos e narrados. Seu texto bem acentua a acolhida ao acontecimento, sempre em seu frescor. E insiste na acolhida- recusa do amor proibido. Proibido? Para um jagunço, parece que sim. Coisas de superfícies incertas, porém ativas, na busca de “ser digno do que acontece”. Chegue como chegar...
Fazendo a travessia do texto, você - leitor mineiro - sente que se agudiza sua condição de andarilho pelo sertão da existência: seu gosto de ser mineiro, contando com o outro para enfrentar o abandono e a dor. Assim se expõe à potência do amor e ao “charme da vida” e “coloca os pés na estrada” infinita. Estrada do grande sertão das Minas Gerais, grande sertão do século XXI. E afirma, na tragicidade do humano, a possível experimentação da Alegria como dom. Alegria-contentamento realista como nos brinda Espinosa.
Acesse a live clicando aqui.