30 Abril 2026
O ex-secretário de Estado americano que negociou o acordo nuclear revela: "Trump também sabotou o acordo sobre mísseis e o Hezbollah."
A entrevista é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 30-04-2026
"É muito difícil persuadir aliados a se juntarem a você em uma guerra quando você os vem insultando há um ano e meio." O raciocínio do ex-secretário de Estado John Kerry é lógico, mas ele acrescenta uma nova nuance: "Quando negociamos o acordo nuclear JCPOA (1) com o Irã, estávamos preparados para ter um plano que também resolvesse as questões dos mísseis e a ajuda ao Hezbollah. Trump destruiu tudo, desencadeando uma reação em cadeia que, na melhor das hipóteses, nos levará de volta ao JCPOA, mas deixará a China, a Rússia e o Irã muito mais fortes."
Eis a entrevista
Teerã representava uma ameaça que justificava o ataque?
O presidente Trump declarou que o Irã não "tinha um programa nuclear", já que sua campanha militar anterior o havia "aniquilado". Reina a confusão total. O mundo quer saber como passamos da aniquilação para Teerã à beira de obter armas nucleares. Além disso, há o problema a longo prazo: os bombardeios não podem eliminar a riqueza de conhecimento dos cientistas. Precisamos prosseguir com as negociações e inundar o país com inspetores, exatamente como fizemos há dez anos. Devemos retornar a essa abordagem, de uma forma ou de outra.
Trump ameaçou destruir a infraestrutura elétrica. Isso seria um crime de guerra?
Essas foram palavras arrepiantes e repugnantes. Não é isso que os Estados Unidos representam. Agora, da próxima vez que Putin disser para destruir a Ucrânia, a China tratará os uigures como se não fossem humanos, ou os aiatolás gritarem "morte a Israel", alguém dirá que nós também ameaçamos aniquilar uma civilização. Se você quer atingir o iraniano médio, profundamente orgulhoso da civilização persa, por que usar uma expressão dessas? É contraproducente. Pense nos jovens iranianos. Muitos deles odeiam o regime, mas não é difícil imaginar como eles reagiram a essa declaração.
É verdade que Netanyahu pediu que você fizesse o mesmo ataque?
Conheço Bibi há quarenta anos, desde antes de ele se tornar primeiro-ministro. Durante trinta anos, ele argumentou que o Irã estava à beira de obter armas nucleares, que a ameaça era iminente e que a única resposta era a guerra. Ele defendeu essa tese com Bush, Obama e Biden. Obama tinha uma visão fundamentalmente diferente. Nós acreditávamos que um mau acordo era pior do que nenhum acordo, mas que um bom acordo era muito mais eficaz do que a guerra. Permaneço profundamente perplexo com a decisão de um presidente que fez campanha com a promessa de ficar fora da guerra e melhorar a vida econômica, mas cuja escolha em relação ao Irã produziu exatamente o oposto.
Será que a mudança de regime é o objetivo real e será que é possível?
Não está claro qual é o objetivo final. As esperanças de que o povo iraniano se levantasse para tomar o poder não se concretizaram. Muitos acreditam que, se a mudança de regime fosse realmente o objetivo, o momento certo para apoiar a oposição teria sido meses atrás, quando as pessoas estavam nas ruas. O Irã passou muitos anos se apresentando como uma força de resistência contra a interferência externa e está explorando este momento a seu favor para reprimir a dissidência.
O que devem fazer os aliados, como a Itália?
Obviamente, é muito difícil persuadir aliados a se juntarem a você em uma guerra que você iniciou sem antes discuti-la com eles. É duplamente difícil quando você os vem insultando há um ano e meio. Mas gostaria de compartilhar outro ponto. Quando estávamos negociando o JCPOA, a Europa e o mundo estavam do nosso lado, e tínhamos outro fator a nosso favor. Uma vez resolvida a questão nuclear, houve unanimidade entre a Europa e nossos parceiros do Golfo de que o trabalho não estava concluído e que precisávamos usar o mesmo tipo de diplomacia tenaz e sanções para pressionar o Irã a reduzir seu apoio ao Hezbollah e conter seus programas de mísseis. Poderíamos ter mobilizado esse esforço para abordar as questões críticas da última década. Mas os EUA romperam o acordo nuclear e perdemos uma década.
Voltaremos ao JCPOA?
Ao que tudo indica, sim. Trump afirma que quer um acordo para garantir que o Irã não adquira armas nucleares, e não apenas aceitar a palavra dos iranianos, mas obter provas concretas. Foi exatamente isso que tivemos há dez anos.
Conduzimos negociações e obtivemos do Irã o compromisso de não buscar armas nucleares sob nenhuma circunstância. Usamos uma combinação de sanções e diplomacia para afastar o Irã do limiar atômico mais do que em mais de uma década. O Irã concordou em permitir a entrada de centenas de inspetores, indefinidamente, para garantir que não houvesse atividades de desenvolvimento de armas nucleares. O acordo funcionou. Não houve nenhuma prova, apresentada por ninguém, incluindo a inteligência israelense, de que o Irã tivesse violado o acordo. Espero que Trump consiga agora que o Irã coloque por escrito os mesmos compromissos inabaláveis que assumiu há onze anos. Mas nos encontramos nessa situação apenas porque, com a ação diplomática mais imprudente da história americana, o país rompeu um acordo em funcionamento, nos empurrando para a guerra.
Hoje, nossa situação é pior: não há mais inspetores presentes no Irã diariamente para verificar o cumprimento do acordo; poucos aliados estão ao nosso lado para pressionar Teerã; A China sente-se encorajada a agir com mais ousadia; a República Islâmica transformou o Estreito de Ormuz em uma arma estratégica, fazendo com que os preços da gasolina disparassem. O governo adotou uma política de vai e vem: gira em círculos, apenas para se encontrar de volta ao ponto de partida, tentando pressionar o Irã a aceitar termos que já havia assinado há mais de uma década. Nossos aliados estão atônitos, forçados a entrar nesse carrossel. Estou torcendo para que eles fechem o acordo.
Quais são as consequências da guerra prolongada e do bloqueio de Ormuz?
É extremamente perigoso que o Estreito tenha sido militarizado pela primeira vez. Isso está elevando os preços e dando ainda mais ousadia ao Irã, um mestre de longa data na guerra assimétrica. No entanto, não é do interesse de ninguém, com exceção da China e da Rússia, que essa situação se prolongue. De uma perspectiva geopolítica, isso é um verdadeiro presente para Moscou, dada sua economia baseada em hidrocarbonetos e o fato de que essa crise está desviando a atenção da guerra na Ucrânia. É também um presente para a China, que se pergunta como poderia usar esse "ensaio geral" caso decida agir contra Taipei, bloqueando e militarizando a liberdade de navegação no Estreito de Taiwan.
Nota do IHU
[1] O Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), assinado em 2015 entre o Irã e o P5+1 (EUA, China, França, Alemanha, Rússia e Reino Unido), visa garantir o caráter pacífico do programa nuclear iraniano. Em troca da limitação de atividades nucleares e inspeções rigorosas da AIEA, o Irã obteve o levantamento de sanções econômicas.
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