24 Abril 2026
À revelia de atitudes saudosas, renunciatórias, pessimistas, deveríamos aceitar o chamado da Graça, que nos diz que a redenção se esconde na derrota, que a sequela de Jesus se expressa plenamente só na derrota."
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Eis o artigo.
Por que este título? Tempos Novos era o jornal da Comissão Pastoral da Terra do Maranhão, de 1974 até 1994. Naquele tempo, acreditávamos mesmo de estar vivendo em tempos novos de esperanças realizadas e revolução.
Hoje vivemos tempos novos, porém, na contramão das novidades em que apostávamos.
Não são poucas as pessoas com que, nestes últimos tempos, conversamos sobre as atuais conjunturas políticas e eclesiais. São irmãos e irmãs, companheiros e companheiras da "caminhada", septuagenários e octogenários, cujas biografias são marcadas, desde a década de 60 do século passado, por lutas radicais pela justiça na Pátria Grande e por uma Igreja inspirada pelos eventos e documentos do Concílio Vaticano II e pela Conferência de Medellín.
Olhando para a nossa Igreja, filha de Medellín e neta de Aparecida, atravessada recentemente pela primavera profética do Papa Francisco, continuamos assistindo às mudanças surpreendentes dos cenários eclesiais, que, presentes — mas mais resguardadas antes e durante o pontificado de Francisco —, se revelam hoje descomedidas e hegemônicas.
Confrontamos os nossos espantos e a nossa incapacidade de entender como tudo possa ter mudado e continue mudando, num ritmo paroxístico e acelerado.
Lembrando como exemplo a nossa experiência de padres fidei donum de Mântua-Itália, enviados ao Maranhão, somos obrigados a declarar que a Igreja popular das CEBs, que, desde as profecias de Cláudio e Maurício, acompanhamos em São Mateus e na Diocese de Coroatá, não existe mais. Sobram alguns irmãos e irmãs, que continuam fiéis àquela espiritualidade libertadora. Um punhado de militantes idosos e idosas, com alguns mais jovens, até comprometidos em movimentos sociais camponeses.
Não se trata evidentemente de um fenômeno local, porque, com óbvias especificidades, é o que está acontecendo em todas as Igrejas latino-americanas.
O mesmo povo que clamava por vida, terra, justiça, direitos, inspirado pela presença de Jesus Ressuscitado, o Messias Libertador, virou página e, como se nada sobrasse de décadas de CEBs, CPT e pastoral popular, voltou à antiga religiosidade devocionista, arcaica e tradicional expressão da cristandade colonial. Este fenômeno foi acompanhado — ou antecipado — pela volta, caninamente fiel, a uma pastoral jurídica, clerical e sacramentalista, com bispos e clero — nem todos, graças a Deus! — cada vez mais caracterizados pela veste talar e por luxuosos paramentos litúrgicos, homilias e sermões desprovidos de valor bíblico e teológico. E não faltam paranoias anticomunistas e explícito alinhamento político com a direita neofascista.
Poderíamos cair na tentação de não reconhecer o drama da derrota de um projeto eclesial em que investimos os melhores anos da nossa vida e viver em saudades estéreis e viciantes. Ou nos limitarmos à afirmação de que nada foi em vão e que, se pudéssemos voltar atrás no tempo, nos comportaríamos do mesmo modo, com a mesma radicalidade. Em suma, fique claro que não estamos arrependidos. E, mais do que isso, não acusamos os antigos companheiros de luta de revisionismos e traições. E evitamos repetir, num surto de pessimismo amargo e desencantado, o que dizia aquele velho pároco italiano, cujas convicções e práticas pastorais eram desmentidas pelo Concílio: "Nasci tarde demais. Deveria ter nascido, vivido e morrido, muito tempo atrás. Assim não seria obrigado a viver esse estrago."
À revelia de atitudes saudosas, renunciatórias, pessimistas, deveríamos aceitar o chamado da Graça, que nos diz que a redenção se esconde na derrota, que a sequela de Jesus se expressa plenamente só na derrota.
As sepulturas de Cláudio e Maurício, na Matriz de São Mateus — Maranhão —, e a memória de Aurora, Pedrinho Piaba, Pedro da Vaca, Alonso Silvestre, Elias Ximenes são profecias da fidelidade ao Deus dos pobres e aos pobres de Deus, mas também sacramentos das derrotas.
A Graça e a derrota se encontram e se identificam na história, na psicologia, no espírito de cada um de nós, que tivemos talvez a presunção de possuir as chaves da sequela, da ortopraxia e da ortodoxia.
A página de Lucas que pode acompanhar estas reflexões é a que fala do choro de Jesus, enquanto descia a ladeira do monte das Oliveiras, entre os louvores que a multidão dirigia a Deus. Ao ver a cidade, chorou sobre ela, dizendo: "Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada." (Lucas 19, 41-44)
Em suma, diante da derrota, não tentaremos mais nos confinar à defesa autocentrada da nossa visão pastoral e teológica, porque em jogo não estão discursos e contraposições ideológicas, mas somente Ágape profética e martirial.
Esta posição não é absolutamente um convite ao cinismo, contrabandeado como pacífica e equilibrada prudência, de quem "coloca tudo no mesmo balaio", em nome da paz e da não-violência. Continuaremos a nos expor publicamente, enfrentando os seguidores da desumanidade do sistema templo-mercado-império-quartel e apostando não em arrasadoras vitórias políticas, mas na presença dos inegáveis sinais amorosos do Reino inaugurado por Jesus de Nazaré.
Uma síntese possível desta perspectiva nos é oferecida por Pedro Casaldáliga, que, já muitos anos atrás, diante daqueles que celebravam o funeral da teologia da libertação e perguntavam ironicamente o que tinha sobrado dela, afirmava: "Ainda tem os pobres e Deus."
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