07 Abril 2026
O fundador do Eurasia Group se pronuncia: "Ele está furioso com seus erros na guerra e só pensa em termos pessoais. Ele não é mais confiável."
A entrevista é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 07-04-2026.
Ian Bremmer está chocado: "Não estou acostumado a ouvir o presidente dos Estados Unidos usar palavrões tão fortes." Mas o verdadeiro problema, segundo o fundador da Eurasia, é o que a linguagem de Trump demonstra: "Ele está com raiva porque a guerra está indo mal, mas não tem ninguém para culpar além de si mesmo. Ele vê o conflito em termos pessoais, não nacionais, e isso prejudica sua capacidade de tomar decisões."
Eis a entrevista.
O que pensou quando viu a mensagem sobre Alá?
Eu esperava que fosse falso. Mas, de fato, era verdade.
O que ele deve fazer?
O correto, claro, seria desistir, porque quanto mais se prolonga mais o conflito se intensifica, mas esse não é o vocabulário de Trump. Então, como um jogador que sofre perdas cada vez maiores, ele simplesmente dobra sua aposta a cada vez, na esperança de provar que ganhou e poder sair da mesa.
Nesse estado de espírito, ele é confiável na tomada de decisões?
A questão do Irã foi a pior decisão de política externa de sua presidência. Seu pensamento se concentra mais em si mesmo do que no país, por isso ele não inspira confiança como Comandante-em-Chefe, nem mesmo de seus assessores mais próximos. Basta ouvir os comentários de ex-chefes do Estado-Maior Conjunto, que são competentes, entendem o processo de tomada de decisões e estão preocupados com o fato de Trump não estar agindo no melhor interesse do povo americano.
Isso também se aplica aos aliados, com a ameaça de saída da OTAN? Você prevê uma escalada do problema?
Certamente parece ser esse o caso, mas quando converso com líderes militares americanos, eles me dizem que não há cenários favoráveis para as tropas. Ele está enviando 12.000 soldados, mas não serão suficientes. Eles podem realizar incursões terrestres na tentativa de neutralizar outros locais de mísseis e depósitos de drones. Poderiam ocupar as três ilhas disputadas no centro do Estreito de Ormuz, ou Kharg, o que, no entanto, exigiria entre 12.000 e 15.000 soldados. Mesmo assim, seria difícil mantê-las sob controle, pois estariam sob fogo inimigo. Trump disse em particular que espera mais um mês de guerra, mas isso corre o risco de a intervenção se arrastar indefinidamente.
Será possível que a destruição da infraestrutura derrube o regime?
Os ataques consolidaram o poder da Guarda Revolucionária. A economia está destruída, e ameaças ao regime podem surgir daqui a seis meses ou um ano, mas não agora.
Será que as negociações podem oferecer uma saída?
Existem três opções: a coalizão para reabrir o Canal de Ormuz, as negociações entre o Paquistão, a China e a ONU trabalhando para liberar o fertilizante. Trump deveria usar todas elas para declarar vitória e se desvincular.
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