21 Março 2026
"Quem não respeita a morte não respeita a vida; isso, talvez até Katz possa compreender", escreve Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 18-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O inferno existe apenas para aqueles que o temem, cantava De André. Uma leitura poética e profunda não do inferno, que existe apenas como lugar imaginário e literário, mas dos homens: que existem - e como! - e administram o inferno entre si ao longo da vida (às vezes até o paraíso, mas esses são momentos muito mais raros.)
Eis que o Ministro israelense Katz anuncia oficialmente que os demais líderes iranianos mortos nos ataques das Forças de Defesa de Israel, foram finalmente enviados "às profundezas do inferno". O pensamento é idêntico ao desses mesmos mortos, que gostam de desejar igual destino aos "infiéis": confirmando o fato de que esta também é uma guerra de religião, ou pelo menos de religiosos, com os reverendos estadunidenses abençoando Trump, os fanáticos bíblicos no governo de Israel, os islamitas alucinados que acorrentaram o Irã. E todos chamando Deus em causa para cada uma de suas abominações, para cada crime contra a vida, para cada anátema contra quem não reza os mesmos salmos, versículos e jaculatórias.
Katz precisa se resignar. É evidente que ser simplesmente um assassino de assassinos não é tão gratificante quanto ser um executor da vontade divina. Mas seus inimigos, exatamente como acontecerá com ele e com cada um de nós, não estão no inferno. Mais simplesmente, eles estão mortos, desaparecidos para sempre, uma condição que por si só bastaria para transmitir a enormidade do fim e para desaconselhar enfrentar tal enormidade com as torpes ninharias do fanatismo religioso.
Quem não respeita a morte não respeita a vida; isso, talvez até Katz possa compreender.
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