23 Fevereiro 2026
"Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo", assim nos recorda a encíclica Deus Caritas Est [1].
O artigo é de Manuel Lagos, religioso dehoniano, publicado por Settimana News, 21-02-2026.
Eis o artigo.
Após o Concílio Vaticano II, verificou-se na Igreja Católica um florescimento significativo de movimentos, comunidades e carismas, especialmente entre os leigos. Um fenómeno que não cessa de fazer emergir tensões institucionais e carismáticas no seio da comunidade eclesial.
A Igreja latino-americana, em particular, caracterizou-se pelas suas múltiplas manifestações de fé. É curioso notar que, ainda hoje, continuam a proliferar alguns grupos ou movimentos laicais que obtêm grande sucesso, sobretudo pelo número sempre crescente de novos aderentes. Muitas pessoas aproximam-se destas experiências porque nelas encontram uma nova forma de viver a fé, que lhes possibilita a conversão e o regresso à vida cristã. Alguns destes movimentos têm ressonância local, outros internacional.
Na Venezuela, por exemplo, surpreende o impacto dos "retiros de Emaús" (los retiros de Emaús) [2], pensados para aproximar da Igreja os leigos, em particular pessoas que tinham abandonado a fé ou que simplesmente não acreditavam. Embora se definam como um apostolado paroquial, os "retiros de Emaús" apresentam características particulares na sua organização, semelhantes às das associações de fiéis ou dos movimentos.
Eles nasceram por volta de 1978, na paróquia Saint Louis, na arquidiocese de Miami, Flórida, e encontraram grande acolhimento em muitos países da América Latina. Para envolver as pessoas nos retiros, os membros que já pertencem ao movimento promovem-nos entre os leigos afastados da Igreja ou entre aqueles que desejam viver uma experiência intensa de fé. Não são propostos como uma experiência qualquer, mas como a experiência profunda, única e inesquecível que mudará completamente a sua vida. Trata-se de retiros direcionados separadamente para homens e para mulheres.
Uma vez concluído o retiro, se a pessoa for escolhida, é possível servir nos encontros seguintes voltados para novos participantes. Existe uma regra fundamental: o que acontece no retiro deve permanecer confidencial para aqueles que o vivem; desta forma, quem não participou poderá ter a sua própria experiência pessoal. Isto cria um elemento de curiosidade naqueles que não participaram, suscita interrogações pelas mudanças imediatas que se observam em quem vive a experiência, mas gera também uma forte expectativa que desperta o interesse de quem ouve falar deles.
Talvez, simplificando um pouco, os retiros assemelham-se a uma combinação interessante entre os conhecidos Cursilhos de Cristandade e a Renovação Carismática Católica. Não se trata, contudo, de um fenómeno isolado.
No Brasil, surgem outras formas de "retiro" que procuram aproximar as pessoas afastadas da fé de uma experiência capaz de transformar a sua vida. Por exemplo, o "Encontro de Pais com Cristo" [3], que promove experiências voltadas para públicos específicos: jovens em diversas faixas etárias, casais casados, não casados ou recasados, pessoas solteiras, sacerdotes e religiosos. Estes diversos retiros constituem-se em movimentos que continuam a crescer, como o movimento de Emaús nascido em São Paulo por volta dos anos sessenta [4].
Mais recentes, no Brasil, são os Campistas [5] que, a partir dos anos oitenta, se difundiram vindos dos Estados Unidos e do México, e são propostos como uma nova modalidade de evangelizar e de encorajar os participantes a envolverem-se nas suas comunidades e a participarem ativamente na vida das suas paróquias.
Na Colômbia, assumiu grande influência a associação privada de fiéis "Lazos de Amor Mariano" [6], que se configura como um movimento laical empenhado na promoção da evangelização e da formação.
Estes são apenas alguns exemplos dos diversos movimentos, grupos apostólicos e associações que continuam a surgir e a crescer. Toda esta realidade pode ser interpretada como um sinal de que o Evangelho é sempre capaz de gerar novidade e de que a criatividade nas comunidades não se extinguiu; ela mostra-nos uma Igreja viva, à procura de experiências de fé, "uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e setores" [7].
No entanto, ela coloca também diversos interrogativos e questões.
Alguns destes movimentos enfatizam uma renovação da vida, uma mudança radical e concreta. Ouvem-se frequentemente testemunhos de pessoas que relatam como certos retiros representaram um ponto de viragem na sua história. Trata-se de pessoas que se tornam frequentemente fervorosas defensoras de tais grupos, convencidas de que quem não viveu aquela experiência não conheceu realmente Jesus Cristo.
São afirmações que levam a questionar o tipo de evangelização proposta e, sobretudo, a duração de tal caminho de fé. Muitos dos que participaram no retiro conseguem inserir-se na pastoral comunitária paroquial; mas outros, pelo contrário, permanecem no grupo restrito daqueles que lhes permitiram viver a mudança. Estes podem transformar-se em grupos fechados, reforçados por um certo sentido de segurança derivante da coesão interna.
Ao fecharem-se em si mesmos, porém, tais grupos correm o risco de se tornarem lugares favoráveis à manutenção em segredo de algumas irregularidades que devem ser tidas em conta em qualquer grupo humano. Se não houver permeabilidade a agentes externos em sintonia com o necessário acompanhamento da experiência, põe-se em causa a transparência e a abertura a uma comunidade eclesial mais ampla. Numa realidade fechada em si mesma, podem proliferar falsas formas de espiritualidade, abusos de poder e sistemas repressivos.
Também as modalidades de promoção e de envolvimento adotadas por alguns grupos particulares podem transformar-se em métodos agressivos e manipuladores. Alguns deles concentram-se em pessoas de boa condição económica, o que permite depois encontrar financiadores para as suas iniciativas, transformando-se, em muitos casos, em grupos elitistas e sectários.
De uma perspetiva psicológica, algumas experiências espirituais podem expressar dinâmicas próprias de grupos disfuncionais [8].
Embora favoreçam experiências espirituais intensas, estas podem permanecer ao nível de experiência afetiva ligada unicamente ao próprio grupo. Um fenômeno deste tipo pode chegar a atenuar a ansiedade ou a frustração, enfatizando a moralidade e a adesão ao grupo. É preciso perguntar se isto é propriamente cristão. Poderá tratar-se, antes, de uma religiosidade funcional, que serve para atenuar os afetos e para "se sentir melhor".
Seria necessária uma fase posterior na experiência de fé em que a pessoa, reconhecendo a intensidade da emoção, compreenda que ela é apenas o sinal de um encontro mais autêntico com uma Pessoa, abrindo-se a um conceito mais amplo de experiência que abrange toda a vida no seguimento de Cristo.
A passagem pela experiência afetiva deve, de fato, comprometer o crente com o Jesus encarnado, histórico, envolvido com quem sofre e com os pobres. Dar este passo implica entrar numa dinâmica que provoca e não anestesia, que se abre ao universal e não permanece fechada em si mesma, que faz coincidir o próprio desejo com o de Deus, que permeia as relações sem as excluir, que favorece uma resposta livre à iniciativa divina e que se insere plenamente no horizonte da comunidade eclesial.
Se o "acontecimento" de que falava Bento XVI se reduz a um bem-estar de grupo, o horizonte da vida não se amplia, mas estreita-se. A verdadeira maturidade destes carismas manifesta-se quando a resposta do crente é livre e não coartada, quando não se distancia da comunidade eclesial universal e quando, em vez de alimentar o segredo, se torna uma luz transparente que não teme ser examinada. Só assim o encontro com a Pessoa de Cristo se traduz numa orientação decisiva que transforma toda a vida e não apenas um momento particular.
É aqui que se coloca o grande desafio do acompanhamento pastoral da Igreja para com estes movimentos, comunidades e associações, como espaço de discernimento entre instituição e carisma.
Fonte
[1] Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 1.
[2] Cf. Infovaticana (31 dicembre 2017).
[3] Disponível aqui.
[4] Disponível aqui.
[5] Cf. Journal Uniao (27 agosto 2025)
[6] Disponível aqui.
[7] Cf. Francisco, Evangelii Gaudium, n. 29.
[8] Cf. S. Rigon, «Gruppo, ambiente e leader», in Tredimensioni 4(2007) 65-72.
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