20 Fevereiro 2026
"Essa recusa de [de membros do júri do Festival de Cinema de Berlim] se expressar publicamente e tomar uma posição, escondendo-se por trás da ideia um tanto ilusória de que a arte pode permanecer fora de qualquer debate, compreensivelmente provocou muitas reações."
O artigo é de Giovanni De Mauro, jornalista italiano, publicado por Internazionale, 20-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Na semana passada, ocorreu a coletiva de imprensa da Berlinale, um dos festivais de cinema mais importantes da Europa. Em determinado momento, o jornalista Tilo Jung perguntou se o silêncio do festival sobre a Palestina, geralmente solidário com países ou povos vítimas da opressão, estava relacionado à linha pró-Israel do governo alemão, principal financiador da Berlinale. Ewa Puszczyńska, membro do júri e produtora, entre outros, de "Zona de Interesse", filme sobre a vida nazista ao redor do campo de concentração de Auschwitz, foi a primeira a responder, de forma um tanto constrangida. "Fazer essa pergunta é um pouco injusto", disse Puszczyńska.
Depois falou Wim Wenders, presidente do júri: "Devemos nos manter fora da política, porque se fizermos filmes declaradamente políticos, entraremos no âmbito da política. Mas nós somos o contrapeso da política, somos o seu oposto. Devemos fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos."
Essa recusa de se expressar publicamente e tomar uma posição, escondendo-se por trás da ideia um tanto ilusória de que a arte pode permanecer fora de qualquer debate, compreensivelmente provocou muitas reações. Entre elas, a da escritora Arundhati Roy, que decidiu, em sinal de protesto, não comparecer à exibição de um de seus documentários. “Ouvi as declarações inaceitáveis feitas pelos membros do júri do Festival de Berlim quando questionados sobre o genocídio em Gaza. Ouvi-los dizer que a arte não deveria ser política é estarrecedor. É uma forma de silenciar qualquer discussão sobre um crime contra a humanidade que está sendo cometido diante de nossos olhos. Artistas, escritores e cineastas deveriam fazer tudo o que está ao seu alcance para impedi-lo. O que está acontecendo em Gaza é um genocídio cometido por Israel, apoiado e financiado pelos Estados Unidos, pela Alemanha e por outros países europeus, que são cúmplices. Se os maiores cineastas e artistas de nosso tempo não conseguem se levantar e dizer isso, saibam que a história os julgará.”
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