O ataque das gangues na Guatemala expõe a impotência do governo diante do crime organizado

Foto: Pexels/Canva

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24 Janeiro 2026

O governo autorizou o destacamento do exército para patrulhar as ruas, mas a resposta teve pouco impacto sobre as gangues ou o sistema judicial, que está repleto de corrupção.

A reportagem é de Bryan Avelar, publicada por El País, 22-01-2026.

O dia transcorre tranquilamente na Cidade da Guatemala, e nada parece indicar que, apenas 48 horas antes, a gangue Barrio 18 assassinou 10 policiais em diferentes partes do país, levando o presidente Bernardo Arévalo a declarar estado de sítio. Na rua principal do bairro de Alameda, na capital, uma blitz policial para dois jovens que trafegam em uma motocicleta sem capacete. Os policiais verificam seus documentos, inspecionam o veículo e, após dez minutos, detectam a infração: o ruído do escapamento excede o nível de decibéis permitido. Há uma multa. Eles os liberam. "Sabemos que os membros da gangue não serão pegos nesta blitz", admite o policial responsável pela operação. "Mas a lei não nos autoriza a procurá-los em suas casas. Não temos permissão para fazer isso."

Entre sábado e domingo, o Barrio 18 — designado em setembro passado como uma organização terrorista transnacional pelo Departamento de Estado dos EUA — manteve o controle de três prisões no país, fez 46 guardas reféns, assassinou 10 policiais na capital e forçou o governo a declarar estado de sítio e suspender as aulas em todo o território nacional na segunda-feira, em meio a temores de novos ataques.

A ofensiva levou o presidente guatemalteco Bernardo Arévalo a autorizar o envio do exército para patrulhar as ruas. No entanto, a resposta é praticamente imperceptível no terreno. Dois dias após os ataques, as autoridades relataram a captura de 23 suspeitos de pertencerem a gangues, 17 dos quais supostamente ligados diretamente aos assassinatos. A Procuradoria-Geral, porém, acusou apenas um deles de delitos menores: porte ilegal de arma de fogo e posse de drogas.

A violência do fim de semana evidenciou os enormes desafios que o governo enfrenta no combate à corrupção dentro dos sistemas penitenciário e judiciário do país. Os confrontos começaram na manhã de sábado com relatos de motins nos presídios de Renovación I, Preventivo e Fraijanes 2. No final da tarde, as autoridades confirmaram que uma das unidades havia sido incendiada e que 46 guardas estavam detidos após serem desarmados. Na manhã de domingo, durante uma coletiva de imprensa, o Ministro do Interior, Marco Antonio Villeda, afirmou que os ataques foram uma retaliação pela retirada de privilégios concedidos a líderes de gangues presos, que, segundo ele, exigiam camas king-size, ar-condicionado e entregas de comida de restaurantes.

Gangues infiltraram-se no sistema prisional da Guatemala, com corrupção e privilégios dentro das prisões. Um exemplo disso veio à tona em junho de 2024, quando o então Ministro do Interior, Francisco Jiménez, denunciou 102 guardas da prisão de segurança máxima Canadá, conhecida como El Infiernito (Pequeno Inferno) , por permitirem o tráfico de armas, álcool e até animais vivos durante anos. Apesar da gravidade das acusações, o governo não conseguiu demitir os funcionários devido a entraves legais, limitando-se a transferi-los. Jiménez foi finalmente demitido em outubro, após a fuga de 20 líderes do Barrio 18, uma crise que obrigou o governo a solicitar auxílio dos Estados Unidos. Em meados de janeiro, apenas cinco haviam sido recapturados. Em juízo, três admitiram ter pago subornos a guardas para escaparem sem resistência. Vinte e cinco agentes foram presos por suposto envolvimento de violência.

No final de dezembro, 12 corpos foram encontrados em Santa Lucía Los Ocotes, a 15 quilômetros ao norte da capital, em um incidente que as autoridades atribuíram a uma disputa de poder entre as gangues Barrio 18 e Mara Salvatrucha. No mesmo mês, o presidente declarou estado de alerta nas comunidades indígenas do sul do país após um ataque a um posto militar que deixou pelo menos cinco mortos e 12 feridos. Arévalo e altos funcionários da segurança culparam, sem dar detalhes, “máfias político-criminosas” que buscam desestabilizar o governo. “É importante reconhecermos que nada disso é coincidência. Sabemos quem está por trás disso: grupos que se beneficiam da corrupção que cresce nas sombras”, disse o presidente.

A crise de segurança coincide com um período de alta tensão política. No primeiro trimestre do ano, a Guatemala precisa eleger um novo procurador-geral e magistrados para o Tribunal Supremo Eleitoral e o Tribunal Constitucional. Diante desse cenário, Arévalo solicitou o apoio da OEA no final de 2025, em um contexto marcado pelo confronto com o Ministério Público, chefiado por Consuelo Porras, a quem o presidente acusa de ter tentado impedi-lo de chegar ao poder e que figura na lista de funcionários corruptos do Departamento de Estado dos EUA.

Lissette Lemus, diretora executiva da Fundação Mirna Mack, afirma que os recentes atos de violência nas prisões são uma mensagem política direcionada ao Poder Executivo. “O primeiro semestre de 2026 marca um momento decisivo, no qual o crime organizado está disseminando a narrativa de que o presidente deve ser destituído do cargo. Eles buscam enfraquecê-lo”, declara ela.

O estado de sítio anunciado por Arévalo chegou sem muitas explicações e, na prática, sem efeitos visíveis. Na capital, parece que nada aconteceu. As ruas mantêm sua rotina quase inalterada. Não há grandes mobilizações militares nem operações policiais em larga escala. Policiais posicionados em frente ao Palácio Nacional confirmaram que não há operações de grande porte ou buscas domiciliares em curso.

Algumas pessoas nas redes sociais compararam a medida ao estado de emergência de El Salvador, mas as diferenças são enormes. Arévalo enfatizou que a decisão não afetaria o cotidiano nem os direitos dos cidadãos. O modelo de Nayib Bukele, por outro lado, envolveu a suspensão de garantias constitucionais e a detenção de mais de 90 mil pessoas — quase 2% da população adulta —, com relatos documentados de prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia. “Aqui, só podemos prender alguém se o pegarmos ligado a uma gangue”, diz um policial guatemalteco. “Até que isso mude, estamos de mãos atadas. Tudo o que podemos fazer é esperar que não aconteça novamente.”

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