Desigualdade: a lei do mais rico

Foto: lucas Favre/Unsplash

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21 Janeiro 2026

Em 2025, a riqueza dos bilionários atingirá um nível sem precedentes na história recente. De acordo com o novo relatório da Oxfam, apresentado na segunda-feira na abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos, existem agora mais de 3.000 bilionários no mundo, com uma riqueza total de 18,3 trilhões de dólares. Isso representa um crescimento de 16% em termos reais em comparação com o ano anterior e uma taxa três vezes maior que a média dos últimos cinco anos.

A reportagem é de Stefano Leszczynski, publicada por L’Osservatore Romano, 19-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

“O relatório mais uma vez revela os vencedores e perdedores da economia global”, explica Misha Maslennikov, pesquisador e analista de políticas públicas da Oxfam-Itália. “Estamos diante de uma quantidade exorbitante de riqueza, que cresceu 81% em comparação com 2020, o equivalente a aproximadamente oito vezes o PIB de um país como a Itália.” Um montante quase equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade, 4,1 bilhões de pessoas, enquanto a pobreza extrema volta a aumentar na África.

Uma riqueza que, enfatiza a Oxfam, seria suficiente para eliminar a pobreza extrema no mundo 26 vezes. No entanto, o crescimento vertiginoso dos patrimônios dos super-ricos não corresponde a nenhum progresso na redução da pobreza global: "A taxa de redução da pobreza permanece praticamente inalterada há seis anos", observa Maslennikov. "Se o crescimento econômico não se tornar inclusivo e melhor redistribuído, corremos o risco de não atingir a meta de eliminar a pobreza extrema até 2030 e de nos encontrarmos, em 2050, com ainda um terço da população mundial — quase 3 bilhões de pessoas — em condições de pobreza."

Segundo a Oxfam, a acumulação extrema de riqueza não é um fenômeno neutro, mas alimenta um ciclo vicioso que também reforça a concentração do poder político. "No relatório, destacamos uma ligação estrutural entre concentração de riqueza e concentração de poder", afirma Maslennikov. "Os indivíduos mais ricos utilizam seu poder econômico para orientar as políticas públicas em benefício próprio, e não no interesse coletivo." Essa dinâmica, continua a Oxfam, representa um fracasso dos sistemas democráticos: as desigualdades extremas corroem o pacto cívico, destroem o tecido social e alimentam desconfiança e fragmentação. Em muitos países, está se reforçando uma divisão territorial entre "lugares que importam" e "lugares que não importam", áreas deixadas para trás onde o desenvolvimento estagna e cresce o consenso em torno de propostas políticas populistas ou extremistas, que prometem mudanças radicais, mas acabam consolidando o status quo.

A Oxfam também assinala o impacto da desigualdade nos sistemas de informação. "O controle das mídias é um dos principais canais pelos quais o poder econômico exerce uma influência desproporcional no debate público", explica Maslennikov. "Sete dos maiores grupos midiáticos do mundo são hoje controlados por bilionários, o que ajuda a desacreditar alternativas mais igualitárias e a legitimar moralmente as desigualdades." Outra questão central é a dívida dos países mais pobres. A Oxfam considera isso um verdadeiro obstáculo, que limita o espaço fiscal necessário para investir em educação, saúde e bem-estar social. "Muitos países hoje gastam mais com o pagamento da dívida do que com a saúde e a educação de seus cidadãos", denuncia Maslennikov, destacando como isso acentua ainda mais as desigualdades globais.

Diante desse cenário, a Oxfam defende uma mudança de paradigma: a reestruturação e o cancelamento da dívida dos países mais pobres, uma tributação mais equitativa em nível global e a introdução de um padrão internacional para tributar a riqueza extrema. A Oxfam pede que a Itália assuma um papel mais ativo: aumentando os recursos destinados à cooperação internacional para 0,7% do produto nacional bruto, apoiando uma tributação global dos super-ricos e promovendo a criação de um painel internacional sobre a desigualdade, nos moldes do IPCC para as mudanças climáticas, capaz de avaliar com rigor científico o impacto das políticas públicas sobre as disparidades.

"Existe uma saída do abismo da desigualdade", conclui a Oxfam, "mas exige vontade política, cooperação internacional e a escolha de recolocar igualdade, direitos e democracia no centro das decisões econômicas globais."

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