Dan Brown, a Igreja – e o medo de histórias bem inventadas. Artigo de Mario Trifunovic

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13 Janeiro 2026

O que acontece quando um autor de thrillers coloca os dogmas da Igreja em jogo – e mais tarde ele próprio passa a acreditar numa vida após a morte? Um olhar sobre Dan Brown, sua briga com o Vaticano, seu novo livro e a questão de por que a ficção abala nossas certezas.

O artigo é de Mario Trifunovic, publicada por katolisch.de, 11-01-2025. 

“Não leiam nem comprem este livro.” Com essas palavras, em 2005, o então cardeal-secretário de Estado Tarcisio Bertone tentou conter a ascensão do best-seller de Dan Brown O Código Da Vinci. Indignado, o cardeal da Cúria falou de um “preconceito anticatólico” que atravessaria a história como um fio vermelho de heresia e sensacionalismo. O que mais o enfureceu foi a afirmação de que a Igreja teria tentado, durante séculos, esconder que Jesus teria tido um filho com Maria Madalena. “Vergonhoso”, trovejou Bertone, o livro contaria “mentiras sem fundamento”. Contudo, os muros do Vaticano estremeceram bem menos do que o próprio cardeal: seu acesso de raiva, fez-se saber discretamente, teria sido um solo, não uma peça orquestral da Cúria Romana.

Se non è vero, è ben trovato” – se não é verdade, é bem inventado. Poucos provérbios parecem tão adequados às construções literárias de Brown. Seu encanto reside justamente no fato de oscilarem entre uma verdade artisticamente encenada e a especulação. A indignação de alguns representantes da Igreja diante da ficcionalidade de um thriller soa, nesse contexto, muitas vezes um tanto deslocada.

Antes mesmo de O Código Da Vinci, Brown publicou Anjos e Demônios, no qual seu herói acadêmico e especialista em símbolos, Robert Langdon, investiga uma série de assassinatos e um suposto retorno da sociedade secreta dos Illuminati, enquanto no Vaticano não apenas ocorre um conclave, mas também uma amostra roubada de antimatéria ameaça explodir. Por trás de tudo isso, porém – atenção, spoiler – não estava a sociedade secreta, mas o camerlengo – um alto dignitário da Igreja no Vaticano que, durante uma Sé vacante, ou seja, após a morte ou renúncia de um papa, administra os assuntos da Igreja e prepara o conclave. A adaptação cinematográfica do thriller de Brown não pôde ser filmada no próprio Vaticano, pois autorizações para filmagens, ao menos em território vaticano, são raras e nunca concedidas a filmes de ficção ou, ainda mais, críticos à Igreja.

Repetidamente, Brown mistura Igreja, arte e criptografia, o que alguns interpretam como uma distorção “maliciosa”, enquanto os fãs celebram como uma aula magistral de entretenimento cheio de suspense. Em seu livro intitulado Inferno, publicado em 2013, a Igreja passou então para a periferia da narrativa – e eis que a indignação desapareceu, os apelos ao boicote se calaram. Onde não há dogmas a vacilar, parte da Igreja pode permanecer serena. Sua receita literária, porém, continua inconfundível: história da arte como motor da ação, simbolismo como um tempero discreto, um enigma que só se revela no último capítulo como um portal. E, acima de tudo, a longa tradição da arte que bebe de imagens da Divina Comédia de Dante… de Botticelli a Doré, até Rodin. Robert Langdon pode circular livremente por esse museu da cultura mundial.

Eis, então, a mais recente obra de Brown, lançada no início de setembro: The Secret of Secrets. Um título que já promete aquilo que o autor sabe fazer melhor – abrir portas cuja existência nem sequer se suspeitava – ou, ao menos, pouco. Mais uma vez, os leitores acompanham Robert Langdon, o “simbologista”, que na verdade é mais uma mistura de Indiana Jones, Sherlock Holmes e um historiador da arte. Desta vez, Brown conduz seu público ao que talvez seja o mais difícil de todos os temas: a consciência humana, esse grande mistério que ainda hoje levanta enormes pontos de interrogação até mesmo para a ciência.

E, de fato, este livro marca uma mudança no pensamento de Brown. Em uma entrevista publicada recentemente pela revista Stern, o autor confessou que hoje acredita numa vida após a morte. Há poucos anos, ele rejeitava essa ideia; hoje, vê as coisas de modo diferente. “Pessoalmente, imagino isso como um rádio de carro que recebe uma estação. Nosso corpo é o aparelho de rádio. De repente, ele quebra, e não se ouve mais nada. Mas isso não muda o fato de que as ondas de rádio continuam sendo transmitidas”, explica Brown. Uma simplificação, como ele próprio admite – mas uma que claramente se apoia em longas pesquisas. A investigação da alma, diz Brown, seria “o maior e mais significativo tema que existe, especialmente em tempos de inteligência artificial”.

No romance Inferno, de Dan Brown, Robert Langdon persegue símbolos misteriosos em Florença para salvar o mundo de sua decadência moral.

Talvez seja justamente aí que resida o sucesso de seus livros: eles conectam a antiga necessidade humana de interpretar o mundo com o medo moderno da perda de controle. Entre catedral e computadores, afresco e algoritmo, desenrola-se um drama que não é apenas adequado ao formato de thriller. Ele é profundamente humano.

E assim resta, no fim, a pergunta: por que as ficções nos incomodam tanto? Talvez porque tornem visível o quão frágeis são as certezas e o quão profundamente enraizado está o desejo por um mundo claramente ordenado. Um mundo que, assim, não existe. Os livros de Dan Brown mostram: o mundo é um labirinto. E, às vezes, é preciso um “simbologista” para lembrar que nos perdemos com prazer em seus inúmeros enigmas… ao menos pelo tempo que dura a leitura entre duas capas de livro.

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