18 Outubro 2024
Em um verdadeiro “show de horrores”, bolsonaristas trataram a ministra do Meio Ambiente com grosserias durante audiência na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 18-10-2024.
Não é à toa que muitos consideram a atual legislatura do Congresso Nacional como a pior de sua longa e tortuosa história. Noves fora o domínio do Centrão fisiológico, boa parte das cadeiras na Câmara e no Senado é ocupada hoje por parlamentares que buscam muito mais pela “lacração” nas redes sociais do que a formulação de políticas públicas de verdade, com foco no bem-estar da população brasileira.
Um exemplo disso foi visto na última 4ª feira (16/10) durante uma audiência na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. Em tese, a sessão discutiria a resposta do governo federal à crise dos incêndios na Amazônia, no Pantanal e em outras partes do país, e como o Legislativo poderia auxiliar nesses esforços. Mas não foi o que se viu, muito pelo contrário.
A participação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, atiçou a ânsia ignorante e intolerante de parlamentares alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em um verdadeiro “show de horrores”, eles insultaram a ministra de toda forma, tentando obter os segundos preciosos de gravação para jogar depois à matilha nas redes sociais.
Por exemplo, a deputada Julia Zanatta (PL-SC) perguntou se Marina seria “capacho de ONGs”, o bicho-papão preferido da turma. “Capacho é quem faz discurso de encomenda. Mesmo conhecendo a biografia de uma pessoa, faz discurso de encomenda, para fazer lacração. E vem aqui fazer acusações inverídicas. Isso é ser capacho”, disse a ministra, mesmo com a tentativa de Zanatta de interromper sua fala.
Já o deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES), que presidiu a sessão, acusou a ministra de ser “adestrada” por seus assessores para escapar das perguntas dos parlamentares. Marina respondeu aos absurdos: “Adestramento é o quê? Quem é que é adestrado? Tenha santa paciência. O senhor [Vieira] não vai me dizer que sou uma pessoa adestrada”.
Outros parlamentares bolsonaristas classificaram Marina de “incompetente” por não conseguir conter a crise do fogo. A ministra devolveu lembrando o oportunismo do bolsonarismo, que passou quatro anos desmontando as políticas ambientais no Brasil. “Ambientalistas de conveniência, que nunca fizeram nada pelo meio ambiente e agora vêm com esse papinho de preocupação com incêndio, de preocupação com enchente. Isso é papinho de ambientalista de conveniência”, disse.
Em meio aos latidos bolsonaristas, Marina lembrou também que o Congresso Nacional dificultou a capacidade de resposta do IBAMA e dos órgãos da linha de frente contra o fogo por causa de cortes orçamentários impostos pelo Legislativo. “O Congresso aprovou, do pedido orçamentário que fizemos [R$ 122,7 milhões para o ICMBio], cerca de R$ 98 milhões, 13,8% menos do que solicitamos. Foi um corte feito pelo Congresso. A mesma coisa em relação ao IBAMA, foi feito um corte aqui de R$ 4,6 milhões dos R$ 61 milhões que havíamos pedido”.
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