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10 Janeiro 2024

Eleição americana pode trazer fascismo de volta e tirar 2º maior emissor novamente do Acordo de Paris; para especialistas, volta de Trump seria “catástrofe” ou “retrocesso”.

A reportagem é de Leila Salim e Claudio Angelo, publicada por Observatório do Clima, 05-01-2024.

Esqueça a COP29 e o G20: o evento mais importante de 2024 para o futuro do combate à crise do clima acontecerá em 5 de novembro e não há virtualmente nada que a comunidade internacional possa fazer a respeito. Trata-se da eleição presidencial americana, que, a depender de seus desdobramentos, pode ser catastrófica, na avaliação de especialistas.

A já acirrada disputa entre o atual presidente, o democrata Joe Biden, e Donald Trump, o ex-presidente republicano que conduziu a retirada dos EUA do Acordo de Paris em 2017, abre um mar de incertezas sobre os resultados eleitorais – e o futuro da política climática no mundo. Uma pesquisa do Wall Street Journal publicada em dezembro apontou vitória de Trump com poucos pontos percentuais de vantagem, confirmando tendência de pesquisas anteriores que indicavam empate ou a vitória do republicano com uma pequena margem. A revista The Economist disse que Biden é a única esperança dos EUA contra Trump, já que os democratas não conseguiram produzir nenhum nome que substitua o impopular octogenário para disputar o pleito – e que Biden está “sonambulando rumo ao desastre”.

Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2021, nos quatro anos de seu governo, Trump não “apenas” retirou os EUA do tratado do clima, como operou o desmantelamento da política ambiental e climática do país. Levantamento elaborado pelo New York Times com dados das universidades Harvard e Columbia apontou retrocesso em mais de uma centena de leis que regulavam a poluição do ar, da água, a proteção à fauna e o controle de contaminação por produtos químicos tóxicos. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) foi instrumentalizada e ampliou os limites de emissões de gases-estufa nos setores de energia e transporte, além de enfraquecer a proteção ambiental em diversas frentes.

Coordenadamente, mostrou o estudo, o Departamento do Interior abriu caminho para novas áreas de exploração de petróleo e gás através da flexibilização de leis de proteção à fauna e licenciamento ambiental para empreendimentos. Além da expertise em política anticlimática, que o permite retomar o desmantelamento de políticas públicas em uma eventual nova gestão, Trump já anunciou que, se eleito, descumprirá a promessa de financiar US$ 3 bilhões para adaptação e corte de emissões em países em desenvolvimento. O compromisso foi assumido pelos EUA há um mês, na última Conferência do Clima, em Dubai.

O diplomata e professor de relações internacionais Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil em Washington, considera que uma eventual eleição de Trump representaria um retrocesso, mas diz que o cenário ainda é indefinido. “Ainda não perdi a esperança de que Trump não ganhe as eleições deste novembro. Caso aconteça, porém, seria um retrocesso para a democracia, a cooperação internacional, a paz e o clima”, diz.

Apesar disso, Ricupero não crê que um eventual governo do republicano representaria “o fim de tudo”: “Os Estados Unidos e o mundo sobreviveram a quatro anos de Trump e serão capazes de voltar a suportar o estrago, mesmo que seja pior. Em relação ao aquecimento global, há forças e tendências mais poderosas que qualquer indivíduo isolado, por mais poderoso que seja”, diz o embaixador, que também teve passagens pelos ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente no governo Itamar Franco.

Já Eduardo Viola, professor do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, considera que um governo Trump seria catastrófico para os Estados Unidos e para o mundo, impactando a agenda de clima e a democracia globalmente. “Uma das primeiras coisas que vai acontecer é um aprofundamento da erosão da democracia, que já é significativa. E certamente o fortalecimento da extrema direita no mundo, incluindo o Brasil”, afirma.

Ele avalia que a agenda climática não conta com mecanismos ou alternativas fortes o suficiente para seguir avançando sem a participação dos EUA. “[A eleição de Trump] seria um evento catastrófico em todas as áreas, também na climática. Os extremos climáticos vão cada vez se agravar mais, só que com governos pouco comprometidos e pouco dispostos a colaborar”, diz.

A boa notícia, segundo Viola, é que a vitória de Biden se configura como o cenário mais provável para novembro. “ Os independentes – swing voters – e os republicanos moderados reproduzem o cenário de 2020. Votam em Biden contra Trump – não porque gostam de Biden, mas por rechaço a Trump. Acho que isso é o que vai acabar acontecendo e vejo um cenário de 60% a 40% a favor de Biden”, projeta.

Coro dos descontentes

O principal efeito de uma nova gestão Trump e a consequente saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, segundo Eduardo Viola, seria um enfraquecimento generalizado nos compromissos climáticos da maioria dos países. “Os momentos mais favoráveis da política climática ocorreram quando houve convergência europeia, americana e chinesa – foi isso que permitiu o Acordo de Paris”, diz. Segundo ele, em um cenário já marcado pela continuidade das altas taxas de emissões chinesas, apesar do investimento em energias renováveis, o abandono da agenda climática pelos EUA soaria como um desestímulo para que o eixo europeu do tripé seguisse com seus esforços.

Além disso, paira ainda o temor de que uma saída dos EUA abra a porta para outros descontentes, como Rússia e Turquia. “A Rússia já está fora na prática, não saiu apenas nominalmente, mas é o maior predador do clima mundial. Talvez ninguém mais saia formalmente, mas permanece o problema do quanto levam a sério o tratado. A grande maioria dos países já não cumprem e não estão comprometidos, estão no discurso e não na prática”, pontua o professor da UnB.

Outro eixo fundamental da política climática, o financiamento estaria também ameaçado – como já prometeu Trump. Países de renda baixa e média baixa, que dependem de apoio externo para implementar planos de adaptação às mudanças climáticas e financiar suas transições energéticas, estariam desamparados não apenas diante de um eventual calote dos EUA, mas também por conta de uma nova dinâmica geopolítica – de “competição predatória”, segundo Viola – que forçaria os países a desviarem recursos a outras áreas.

Segundo os especialistas, as conferências do clima da ONU (COPs) e demais fóruns multilaterais, já fragilizados, tenderiam a uma perda ainda maior de efetividade. Ricupero, no entanto, avalia que, dadas as limitações desses mecanismos – que considera “demasiado complexos, com países demais envolvidos, pesados, incapazes de se moverem em tempo” – é mais provável que uma inflexão na política climática seja resultado do barateamento acelerado das energias renováveis ou da própria intensificação de desastres climáticos, que podem forçar os governos a agir com mais contundência. “Nesse contexto, a eleição ou não de Trump seria um fator de peso, mas não decisivo”, avalia.

A avaliação sobre as limitações dos fóruns globais é compartilhada por Viola, que julga as COPs como “disfuncionais”. Mas, na sua avaliação, uma eleição de Trump aprofundaria significativamente esse problema. “As COPs são cada vez mais disfuncionais, e, num governo Trump, se tornaram ainda mais. As conferências chamam a atenção do mundo e têm cada vez mais gente, incluindo os que participam para proteger os combustíveis fósseis. Se hoje já está muito difícil aumentar o financiamento para países de renda baixa e média baixa, como se viu com a aprovação do fundo de perdas e danos criado [na última COP], que é uma gota no oceano, isso vai piorar”, pontua.

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