Jean-Marc Aveline, o cardeal francês a quem o papa escuta

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19 Setembro 2023

Quem é o cardeal-arcebispo de Marselha, na França? O homem que receberá o papa no próximo fim de semana para o "Encontros Mediterrâneos" emergiu como o principal líder da Igreja da França no Vaticano.

A reportagem é de Héloïse de Neuville, publicada em La Croix International, 18-09-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como é que o cardeal Jean-Marc Aveline convenceu o papa a visitar a França quando nenhum outro bispo francês conseguiu fazê-lo? É claro que Francisco – que priorizou visitar “países pequenos” na Europa e outros lugares nas “periferias” – reiterou que sua visita de 22 a 23 de setembro não será à França, mas apenas à cidade portuária do sul do país, Marselha, onde o cardeal é o arcebispo.

Então o papa não vai à França? Isso não pode impedir os franceses de irem até ele. E o cardeal Aveline, que fez um esforço para garantir a visita papal, não deixou nada ao acaso.

E isso tem causado muita conversa sobre o fato de ele desfrutar do favor do papa jesuíta e sobre as perspectivas de ele eventualmente conseguir um cargo ainda mais importante na Igreja universal.

“Sabe, já tem tanta bobagem circulando sobre mim, de artigo em artigo, não que não é preciso acrescentar mais nada, não é?”, diz ele, rindo e sem muita pena, enquanto tentamos conseguir uma entrevista com ele, justamente para fazer um perfil dele.

Estamos no fim de agosto, e o cardeal – que completará 65 anos no dia seguinte ao Natal – é o convidado de honra de um encontro organizado pela Comunidade Chemin-Neuf.

O estilo Aveline

Esse se tornou um hábito desde que o Papa Francisco lhe deu o barrete vermelho em 2022. Aveline foi convidado a todos os lugares da Igreja na França, de modo que cada local pode ser posto sob o seu patrocínio e obter a sua bênção. Seu perfil é impressionante – um teólogo de 64 anos considerado brilhante, um homem da confiança do papa e um pastor que encarna uma Igreja próxima dos excluídos. Além disso, ele é marcado por uma bonomia mediterrânea...

Em um tempo em que outras figuras lutam para emergir no episcopado do país, o estilo comum de Aveline serve como um porto seguro: suas características unificadoras – até mesmo “consensuais”, reclamarão alguns – são tranquilizadoras.

O que precisamos entender é que, para esse francês nascido na Argélia, a unidade – ou “comunhão”, para usar a linguagem católica – é uma obsessão. Talvez seja porque ele teve a experiência fundamental de ser desenraizado e forçado ao exílio desde quando era criança. Sua família teve de fugir da Argélia em 1962, quando ele tinha apenas quatro anos, “pequeno demais” para compreender os “eventos” daquele ano em que o país do norte da África conquistou sua independência da França.

“Não é possível saber quem é Jean-Marc Aveline se não se vê que sua primeira Igreja foi a de seus pais, de sua fé viva, vivida na emigração, nas dificuldades e no luto”, conta o pesquisador Rémi Caucanas, que trabalhou ao lado dele em Marselha.

O cardeal perdeu suas duas irmãs – Martine morreu aos sete meses de idade, e Marie-Jeanne morreu de uma forma agressiva de câncer em 2011. Mas seus pais ainda estão vivos. Ele ajuda a cuidar deles e os vê regularmente.

Uma visão em sintonia com o papa

Quando regressaram para a França, em 1962, a família planejava inicialmente estabelecer-se em Paris, uma vez que o pai do futuro cardeal, um funcionário da SNCF (serviço ferroviário francês), seria transferido para a capital francesa. Em vez disso, acabaram nos subúrbios ensolarados do norte de Marselha.

Essa experiência forjou a sua visão, que está em perfeita sintonia com a do papa, particularmente sobre a questão candente do acolhimento aos migrantes. Aveline, que foi nomeado arcebispo de Marselha em 2019, conhece as fraturas do Mediterrâneo a partir de dentro.

Embora ele seja certamente o mais “bergogliano” dos bispos franceses, o cardeal Aveline se destaca pelo seu estilo, que é menos polêmico do que o do papa.

Especificamente sobre o tema dos migrantes, ele não será ouvido fazendo declarações ultrajantes e indignadas, sob o risco de afastar alguns dos fiéis. Isso não o impede de apostar nos encontros, enviando discretamente seus padres ou os jovens católicos da Marinha Mercante ao encontro da tripulação do Aquarius, navio da SOS Méditerranée.

“Isso os transformou completamente”, conta ele.

Essa preocupação com a unidade e as margens é constantemente ilustrada, acima de tudo, em sua própria arquidiocese. Em julho de 2022, na sequência da decisão do papa de restringir a missa de acordo com o rito pré-Vaticano II, o cardeal emitiu imediatamente um texto tranquilizador aos tradicionalistas de Marselha. Seis meses depois, ele até foi à Paróquia de Saint-Charles, em Marselha, para celebrar uma missa no Rito Tridentino.

Poucas questões sensíveis abordadas

Foi por medo de antagonizar com essa ala da Igreja, muito presente na vizinha Diocese de Fréjus-Toulon, que ele apelou ao papa para manter seu ordinário, Dominique Rey, o homem que foi acusado de graves falhas em seu governo?

Segundo as nossas informações, enquanto o Vaticano estava levando em consideração a renúncia do bispo Rey, foi o cardeal Aveline quem convenceu o papa a mantê-lo no cargo. No fim, Roma optou por nomear um coadjutor a seu lado.

Embora em privado o cardeal Aveline reconhecesse francamente os erros de seu confrade de Toulon, ele insistiu perante as autoridades vaticanas que Rey “não devia ser humilhado” e que qualquer divisão devia ser evitada.

Para grande desgosto de alguns, Aveline raramente se aventura no campo das questões delicadas. Abuso sexual na Igreja?

“Ele faz bem o trabalho, mas não é o campo dele. Ele ainda é um pouco ingênuo”, diz um colega bispo.

Qual a opinião dele sobre o casamento dos padres?

“Ah, eu não sei sobre isso”, responde o cardeal. Suas inclinações políticas? “Não é meu papel promover um partido específico”, diz ele.

Admiradores e detratores discordam dessa forma de não agir. Para os primeiros, é o resultado do desejo de “preservar as relações a todo o custo”. Para os últimos, Aveline tende a um “pensamento correto e simpático, que se adapta oportunamente a todas as situações”, conforme descrito por um conhecido católico de longa data.

Essa preocupação com a unidade também é forjada pela sua visão teológica amadurecida há muito tempo e pela sua intensa vida espiritual.

“Ele é um verdadeiro homem de oração”, dizem todos aqueles que lhe são próximos.

Em um tempo em que o catolicismo está desaparecendo e a base sociológica dos paroquianos está diminuindo, o cardeal defende uma visão da instituição que vai contra a de uma Igreja focada apenas em seus seguidores. Ele pede uma descentralização radical.

O papel único da Igreja

“A obsessão pela sobrevivência cansa a Igreja e seus membros, pois a Igreja não tem seu centro de gravidade em si mesma. Seu papel é acima de tudo pôr-se a serviço do amor de Deus pelo mundo”, disse ele aos padres presentes na Congrès Mission em 2022.

Outra forte convicção é a aguda consciência de que, embora a Igreja tenha um papel único e profético a desempenhar no mundo, os não cristãos também têm um lugar misterioso na realização da obra de Deus. Essa visão está enraizada em sua meditação sobre os escritos de João Paulo II, Bento XVI, Henri de Lubac e Jürgen Habermas. Seu trabalho teológico também o levou a dialogar com outras religiões, embora não necessariamente se propusesse a fazê-lo.

De fato, foi seu arcebispo, o cardeal Robert Coffy, quem avistou o jovem padre e o encorajou a estudar. Ele sonhava em se estabelecer em uma paróquia nos subúrbios ao norte de Marselha. Mas em 1992, por obediência, concordou em fundar o Instituto para a Ciência e a Teologia das Religiões e, 10 anos mais tarde, sua organização guarda-chuva, o Instituto Católico do Mediterrâneo.

Esses centros de pesquisa, que estudaram a espiritualidade de Charles de Foucauld e em particular dos monges de Tibhirine, alimentam a cultura da Igreja local, ao mesmo tempo que formam muitos católicos no encontro com os muçulmanos.

Jean-Marc Aveline obteve um doutorado em teologia sobre a cristologia das religiões no ano 2000, comparando o trabalho de dois intelectuais protestantes dos séculos XIX e XX.

“As pessoas dizem que sou apaixonado pelo Islã e pelo diálogo inter-religioso, mas isso não é verdade. O que me apaixona é Paul Ricœur, a cristologia e os desafios da secularização. Foi o cardeal Coffy e as minhas raízes em Marselha que me colocaram no caminho rumo a tudo isso”, insiste Aveline.

Um homem radicado em Marselha

O cardeal diz que nunca quis sair de Marselha. Foi ordenado padre para a arquidiocese em 1984 e depois tornou-se bispo auxiliar em 2013. Embora seja costume que os bispos auxiliares sejam nomeados ordinários de outras dioceses, ele foi escolhido, para a surpresa de todos, para se tornar arcebispo de Marselha em 2019.

“Foi o arcebispo Pontier quem obteve do Vaticano a nomeação de Aveline para Marselha como seu sucessor. Ele insistiu tanto e obteve essa decisão raríssima”, conta o ex-prefeito da cidade, Jean-Claude Gaudin, amigo do cardeal.

As raízes profundas de Aveline em Marselha solidificaram sua autoridade moral na arquidiocese, onde ele é um pastor muito querido.

“Nós o adoramos”, diz o diretor de uma escola católica nos subúrbios ao norte. "Tudo o que ele pensa sobre Marselha, ele encarna. É verdade”, entusiasma-se o diretor.

Embora o sotaque regional do cardeal varie de situação para situação – de muito pronunciado a completamente inexistente – ele é descrito como alguém simples, acessível e caloroso em todas as circunstâncias.

Político refinado, ele conhece o poder dos símbolos para o povo de Marselha e sabe utilizá-los quando necessário. Em 2021, celebrou o funeral de um dos mais famosos de todos, Bernard Tapie. Para a visita do papa dentro de alguns dias, ele insistiu que a missa papal fosse celebrada no Vélodrome – o famoso estádio de futebol da cidade – e não em outro lugar.

Um destino abalado em 2022

O destino público de Aveline mudou em 2022, quando um padre amigo lhe telefonou para lhe dizer que o Papa Francisco acabara de anunciar que ele seria nomeado cardeal. O arcebispo de Marselha manifestou sua surpresa e sentiu-se até tomado de “medo”.

De fato, o primeiro encontro privado de Aveline com o papa ocorrera apenas um ano antes, quando ele tentou convencer Francisco a organizar uma assembleia sinodal sobre o Mediterrâneo.

O projeto não foi aceito, mas o papa foi conquistado pela franqueza do marselhês, que na época não falava uma palavra de italiano. Desde então, os dois homens têm-se visto regularmente, fora da agenda oficial, e o cardeal Aveline está tentando aprender a língua do Vaticano a toda a velocidade.

Essa proximidade com Francisco é intrigante.

“Ele é o favorito do papa”, sorri uma alta autoridade do Vaticano.

Outra pessoa o vê como “o novo homem forte da Igreja da França em Roma”. Nos últimos meses, Aveline tornou-se o líder católico francês mais presente no Vaticano, visitando-o quinzenalmente. Ele frequenta os membros mais altos da Cúria Romana, incluindo o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, assim como o cardeal João Braz de Aviz, chefe do Dicastério para os Religiosos...

Será que ele ainda tem tempo de sobra para cuidar dos quase 200 padres de sua diocese e para enfrentar os desafios de uma arquidiocese marcada pela violência e pela pobreza? Em Marselha, essa é a pergunta que está nos lábios de todos.

“Temo que ele se desdobre demais e acabe abençoando tudo indiscriminadamente”, diz um padre, apontando para a agenda sobrecarregada do cardeal e para seus muitos compromissos – entre os quais o de acompanhar a Comunidade Emanuel.

O cardeal defende-se e assegura-nos que ele aplica o conselho dado pelo seu antecessor: “Cada vez que o peso de sua carga de trabalho aumentar, você deve prolongar o tempo de sua oração”.

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