Tempo de espera e vigilância

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30 Novembro 2022

"Vigiar neste Advento será, portanto, para nós permanecer crentes na noite, vigiando para não transformar a pequena chama da nossa fé em um sol deslumbrante que cega a todos", escreve Goffredo Boselli, liturgista italiano, monge da Comunidade de Bose, na Itália, e colaborador da Comissão Episcopal para a Liturgia da Conferência Episcopal Italiana, em artigo publicado por Vita Pastorale, dezembro de 2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"Vigiai!" é a palavra do Senhor que faz acontecer o Advento, o faz acontecer, o faz começar a cada vez, criando ao mesmo tempo a vinda e a espera. Há palavras como esta, "Vigiais!", que quando ressoam têm a capacidade de dar vida a um mundo, desenhar horizontes, evocar imagens e sentimentos, mas também medos e esperanças.

"Vigiai!" ressoa no mesmo momento em que à nossa volta a natureza, exausta pelos frutos, adormece no sono do inverno e os dias veem a luz diminuir e a noite crescer. Não é por acaso que é nos últimos dias de novembro ou nos primeiros dias de dezembro que a Igreja inicia o Advento, os dias mais escuros do ano e, portanto, os dias de longa vigília. São os dias em que a luz é desejada e invocada mais do que nunca, até o Natal que, tradicionalmente, é o dia em que o sol e sua luz voltam a vencer as trevas.

A nossa vida humana e espiritual, com seus tempos e estações, com seu ritmo cotidiano tão repetitivo e uniforme, na realidade formam um todo com o ritmo da natureza. Ritmo humano e ritmo cósmico, ritmo do espírito e ritmo da terra são um só, para dizer que a natureza não é o pano de fundo dos nossos dias, a natureza não vive só à nossa volta, mas vive conosco até viver em nós.

O Advento é um tempo litúrgico porque está escrito no livro da natureza quanto no livro litúrgico. Reconhecer o Advento em tudo em que há um sopro de vida significa compreender que em tudo há uma expectativa, todo ser contém em si um futuro, todo vivente espera uma vinda. Em tudo isso se insere a espera de nós, cristãos, que invocamos Aquele que vem, fazendo-nos voz de toda criatura: “Marana tha! Vem, Senhor Jesus." Humanos, animais, criaturas animadas e inanimadas, tudo e todos esperamos, tudo e todos gememos na espera.

Nada e ninguém fica sem espera. Por isso, entrar no espírito do Advento não significa simplesmente entrar na igreja para realizar ritos seculares, ouvir leituras bíblicas e orações antigas, mas muito mais profundamente significa acessar uma dimensão do espírito que nos pertence. Não há vida plena onde não há capacidade e vontade de vigiar.

Permitir o futuro. “Vigiai!”, essa palavra do Senhor contêm em si toda a intensidade de um imperativo. Jesus não faz uma simples exortação, mas dá um mandamento aos seus discípulos e a nós, e diz: "Até o meu retorno, que a vossa maneira de ser crentes e a vossa maneira de estar no mundo seja um vigiar, seja um esperar-me na noite”.

É, portanto, Jesus quem institui a noite como o tempo e o lugar da nossa fé. Por isso nós, cristãos, somos crentes na noite, não porque o mundo em que vivemos é só escuridão, só mal e só pecado, mas porque o Senhor quis nos colocar na noite e não na luz do dia. Não fomos nós a escolher a difícil condição de sermos crentes na noite.

Para crer na noite, o Senhor deu-nos a única coisa necessária para quem está na escuridão, uma lâmpada: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119, 105). Temos apenas a pequena chama de uma lâmpada.

Mas uma chama não ilumina tudo, não permite que ver tudo, mas apenas o suficiente para mover os passos. Por isso, nossa fé, como a Palavra que a gera, é apenas uma pequena chama que não permite ver como em pleno dia, não possui clareza sobre tudo e, portanto, não dá certezas inabaláveis, não oferece verdades absolutas para serem impostas com força, não permite a arrogância de quem presume possuir toda a verdade.

Os crentes na noite buscam a verdade com o mesmo esforço com que se busca o caminho no escuro: tateando, muitas vezes errando e saindo do caminho.

Vigiar neste Advento será, portanto, para nós permanecer crentes na noite, vigiando para não transformar a pequena chama da nossa fé em um sol deslumbrante que cega a todos. Que a noite seja sempre a medida da nossa fé, porque se cedermos à tentação de querer tudo ver e saber, não viveremos mais no espaço da fé, mas das certezas, e nós não seremos mais crentes.

Ser crentes de noite, como nos manda Jesus, significa também tomar consciência de que a noite é tempo do silêncio, das vozes baixas, dos sussurros, de murmúrios abafados. De noite não se grita, não se levanta o tom, não se faz ressoar na praça a própria voz. Jesus, tornando-nos crentes na noite, quer que a sua palavra, o seu Evangelho se meça com o silêncio da noite.

O Evangelho, de fato, não é uma ideologia a ser propagandeada nas praças deste mundo, não é um produto a ser vendido no mercado e por isso não deve ser gritado nem alardeado. O Evangelho é uma boa nova, e a boa nova é contada uns aos outros. Contar é mais adequado à intimidade e ao silêncio da noite do que à praça apinhada de gente ao meio-dia. Para nós, portanto, vigiar neste Advento será saber contar o Evangelho sem infringir o silêncio da noite.

Cantar Rorate coeli desuper (chovam céus do alto) significa clamar ao céu invocando dele o que não podemos nos dar aqui embaixo. Significa reconhecer que todo ser humano é habitado por um anseio tão profundo que a terra não pode saciar. Rorate coeli desuper só é cantado por quem tem a humildade de admitir que não só não podemos nos dar tudo, mas que o essencial que nos faz viver o recebemos, certos de que a única salvação é a vida de um outro, de um Outro.

Sabemos que o passado não nos deu, entendemos que o presente é totalmente incapaz disso, por isso a esperamos no futuro e, invocando-o, atraímo-la para nós. “O futuro entra em nós, para se transformar em nós muito antes de acontecer” (R.M. Rilke, Lettere a un giovane poeta, 12 de agosto de 1904).

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