Corine Pelluchon: “Comer carne todos os dias é simplesmente inviável”

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16 Mai 2022

 

Corine Pelluchon trabalha com objetivos de longo prazo. A filósofa francesa é vegana e autora, para ser mais preciso, de Manifesto animalista, mas sabe que não conseguirá fazer com que os humanos parem de comer carne da noite para o dia. Ela é a favor da transição energética, mas acredita que esse processo só pode ocorrer num longo período de tempo, sem revoluções ou mudanças radicais de paradigma. Seu objetivo, como anuncia o título de seu último ensaio, Reparemos el mundo (publicado por Ned Ediciones e traduzido por Sion Serra Lopes), é também uma tarefa lenta, pois tenta conciliar o ser humano com o mundo natural. Ela conversou sobre essas ideias com o paleontólogo Juan Luis Arsuagano no Instituto Francês de Madri.

 

A reportagem é de Manuel Ligero, publicada por Climática-La Marea, 12-05-2022. A tradução é do Cepat.

 

Todo o pensamento de Pelluchon está articulado em torno da oposição – na sua opinião, errônea – entre direitos humanos e direitos animais (nos quais poderíamos incluir toda a natureza). O Iluminismo colocou o ser humano no topo da pirâmide. Os demais seres vivos, nesse esquema, estavam abaixo. “Mas não somos melhores nem piores”, explica Pelluchon. “Nós simplesmente vivemos existências heterogêneas”.

 

Como esclarece Arsuaga, “a espécie humana era apenas uma espécie a mais até 11.000 anos atrás. É verdade que pintávamos bisões nas paredes e que alguém podia se sentir superior do ponto de vista artístico ou intelectual, mas no ecossistema nossa espécie era apenas mais uma, sem nenhum impacto especial, sem grande capacidade de transformação. Tudo isso muda com uma invenção: a domesticação dos animais e das plantas. Essa é a grande mudança. Não é uma mudança biológica ou evolutiva. É a mesma espécie de sempre, mas que começa a cultivar e criar gado”.

 

Na opinião de Pelluchon, “devemos modificar a concepção do sujeito que serviu de base para as filosofias dos séculos XVII e XVIII que representavam o homem como um império dentro de um império e a natureza como mero fundamento”. Entre os conceitos que a autora acredita que devemos modificar está “o dualismo cultura-natureza”. Reconfigurar essa perspectiva é vital para enfrentar o desafio climático. “E não há manual para fazer isso. Isso não é como consertar um carro”, alerta. “Não há receitas, há uma atitude. O que proponho para colocar a ecologia no centro da política é, digamos assim, uma revolução antropológica. Trata-se de promover um ambiente menos desumanizador, menos injusto com os humanos e os não humanos, mais sustentável. Devemos questionar nosso pensamento, toda nossa educação, que nos faz acreditar que outros seres vivos são simples meios para nossos fins”.

 

Pelluchon chamou essa ordem (de certa forma, antinatural) de “esquema da dominação”. Esse esquema “transforma tudo”, diz ela. “A agricultura, a pecuária, a nossa relação com os outros, a política, o trabalho... Transforma tudo em guerra. É uma dominação não apenas dos outros, mas da natureza externa, dos ecossistemas e também da nossa própria natureza interior”. A chave da reconciliação entre nós e a natureza é “o reconhecimento da nossa finitude, da nossa vulnerabilidade e da nossa condição terrestre. E o conhecimento da nossa interação com outros seres vivos”. Para ela, essa tomada de consciência tem um “impacto em nossos afetos, em nossa vida afetiva. Muda a nossa forma de agir e também as nossas aspirações e desejos”. Ela situa esta mudança não só ao nível individual (e também) mas ao “nível civilizacional”.

 

O desafio da carne

 

Entre as mudanças que o ser humano deve empreender diante da emergência climática está a da alimentação. Neste assunto Pelluchon faz uma distinção entre o veganismo e o vegetarianismo de ordem filosófica e aquele imposto pelos limites do planeta. “Subscrevo o primeiro, porque acredito que tirar a vida de um animal que quer viver, e que às vezes é um simples bebê, não é algo que se faça alegremente”, explica Pelluchon. “A este veganismo ético devemos acrescentar outro ligado às condições atuais. Quando eu era criança, havia 3 bilhões de pessoas no mundo e na minha casa comíamos carne duas vezes por semana. Então era um valor aceitável. Hoje temos outras condições demográficas, ecológicas e sociais. Comer carne todos os dias, quando em breve seremos 8 bilhões de pessoas, simplesmente é inviável”.

 

Entre as razões levantadas pelos inimigos do vegetarianismo está o fato de sempre termos comido carne, mesmo que nosso desenvolvimento cerebral, ao longo da evolução, esteja ligado ao consumo de carne. Pode ser verdade, embora na pré-história houvesse alguns condicionamentos físicos que não sofremos agora.

 

“Os sítios arqueológicos estão cheios de ossos de herbívoros consumidos por nossos ancestrais, isso é uma evidência”, explica Juan Luis Arsuaga. E o fenômeno ocorre em maior medida “em lugares com climas sazonais, como o nosso. Nessas condições, só se poderia ser carnívoro porque não havia alimento vegetal disponível para um ser humano durante três quartas partes do ano. Sim, existia na época da frutificação, mas então as árvores frutíferas não eram como são agora, que foram sendo modificadas ao longo de séculos de seleção artificial. Uma macieira, por exemplo, dá um fruto muito pequeno. As bolotas não eram consumíveis. Havia muito poucas castanhas. Havia, por exemplo, bagas e mirtilos, mas todos em pequenas quantidades e limitados a um período de tempo”.

 

Podemos usar esse argumento histórico para continuar consumindo carne? De forma alguma, e menos ainda nas quantidades em que nós humanos fazemos isso hoje. “Consome-se muita carne”, afirma Arsuaga. “A maior parte das proteínas animais que consumimos vai diretamente para a urina na forma de metabólitos. Não é assimilada. Um adulto, com atividade normal, precisa de pouquíssimos gramas de proteína por dia, e isso inclui proteínas vegetais, é claro. O equivalente seria apenas uma fatia de presunto. Consumimos um excesso de gorduras animais que além de não serem benéficas, são prejudiciais à saúde. E para o planeta mais ainda. Porque existe uma coisa chamada pirâmide trófica e em cada uma das etapas a maior parte da energia é perdida. É por isso que é preferível consumir vegetais do que consumir animais que se alimentam de vegetais. O fato inegável é que se produz muita carne. Não um pouco mais, mas várias ordens de grandeza a mais do que o necessário. Por isso deve ser reduzida. Isso não admite discussão. É um fato”.

 

Pelluchon, apesar de seu compromisso animalista, não procura culpar os consumidores de carne. Em vez disso, ela acredita em um processo de sensibilização que leva ao reconhecimento de que “a matança induzida de um animal para alimentar-se ou vestir-se é moralmente problemática”. E para isso, a emoção funciona melhor do que a razão.

 

É justamente esse excesso racionalista herdado do Iluminismo que ela combate em seus livros. Com muitas nuances, é claro. Tantas que ela corre o risco de não ser compreendida em uma sociedade polarizada que quer explicar tudo em 280 caracteres. A razão, como explicou em seu livro Les Lumières à l'âge du vivant [O Iluminismo na era dos seres vivos], deve ser defendida com unhas e dentes, mas não pode ser reduzida a um mero instrumento de cálculo e exploração. Do Iluminismo, como de todos os processos desenvolvidos no passado, “devemos recuperar algumas coisas e descartar outras”, explica.

 

Os perigos do saudosismo

 

Arsuaga concorda com ela sobre o perigo que o saudosismo acarreta, que não é algo atual, longe disso: “Todas as culturas e civilizações acreditaram no mito de um passado melhor em harmonia com a natureza. É o mito do bom selvagem de Rousseau, em poucas palavras. Devemos lembrar que no século XIX a expectativa de vida era de 30 anos e que metade das crianças morria antes do quinto aniversário. Existe alguém que seja saudosista em relação à mortalidade infantil? Para alguns parece ser o ideal em termos de sustentabilidade, mas a verdade é que eram sociedades patriarcais em que não existia liberdade. Cuidado com esses saudosismos agrários ou rurais. Em geral, as soluções para os problemas do presente estão no presente, não no passado. Não vamos desinventar o avião. O que foi inventado não pode ser desinventado. As tecnologias, e aqui poderíamos incluir também a grande mudança que ocorreu com a agricultura, não são desinventadas. Em todo caso, elas se desenvolvem. Teremos que ver como nos deslocamos de avião, ou sem ele, mas de uma maneira menos prejudicial ao meio ambiente”.

 

Em relação ao desafio climático, Arsuaga mostrou-se otimista. “O pessimismo é uma desculpa para não fazer nada, não se comprometer. Pensar que as coisas podem ser mudadas é uma obrigação moral”, assegurou. Na realidade, “não há nenhuma razão científica para dizer que é impossível para as gerações futuras viver vidas plenas e felizes neste planeta em harmonia com a natureza. Não há. As razões para negar essa possibilidade não são científicas, são políticas. Em Sumatra, as florestas originais estão sendo substituídas por plantações de palma que não são para o consumo dos indonésios, mas para os habitantes do Ocidente opulento. Na base do problema ecológico está a distribuição injusta da riqueza, que está nas mãos de poucos”.

 

Pelluchon compartilha dessa visão, mas se esforça, em todas as suas intervenções, para desideologizar a causa ecológica. Essa posição, sem dúvida repelente à primeira vista, tem sua explicação. Transformar a emergência climática em munição para a batalha cultural desencadeada pela direita global pode levar ao desastre. A população, superexcitada por um ecossistema midiático e digital conservador (quando não ultraconservador), frequentemente vota contra seus próprios interesses. É fato que as condições materiais de vida não constituem mais um argumento sólido em nenhum processo eleitoral. E as condições naturais ou as ecológicas muito menos. “Desconfio dos apelos à revolução. A única coisa que gostaria de eliminar é o dogmatismo”, explica. “Não porque sou uma pessoa amável, mas porque tenho um sentido muito desenvolvido para a tragédia. Acredito que a violência e o mal são tentações constantes”.

 

Em todo o caso, a filósofa francesa não perde de vista as implicações sociais da necessária transição energética: “É um processo que deve ser inserido num contexto social, geográfico e cultural. E é perfeitamente factível. Por exemplo, podemos mudar o modo de produção da pecuária? Claro. Sou abolicionista, mas até que chegue o dia do fim da exploração animal, acredito que deva ser dado um salário compensatório para as pessoas que exercem esta atividade de forma extensiva, em pequena escala e respeitosa com o ambiente. Porque, além disso, têm um papel na composição da paisagem. Mas as decisões não podem ser tomadas de cima, verticalmente e tecnocraticamente. E, com ainda mais razão, devemos fugir da tentação autoritária. A maioria dos políticos está de joelhos diante do poder do dinheiro. Alimentam um sistema extrativista e produtivista. É normal que os jovens fiquem enfurecidos. Também compartilho dessa raiva. O problema é saber o que fazer com ela. Porque, às vezes, a raiva pode ser um mau conselheiro”.

 

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