A cruz de Jesus, de Abel e de Caim: uma comparação bélica sem teologia. Artigo de Andrea Grillo

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18 Abril 2022

 

Se a palavra de Deus for reduzida a um martelo, perde a sua luz e fica cega. Essa é a tentação das teologias, ortodoxas ou católicas, que, a partir de dentro, tentam justificar a guerra de ofensa (sempre injustificada) e a guerra de defesa (dentro dos limites da necessidade).

 

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado em Come Se Non, 16-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Em um texto retomado e traduzido pelo Re-Blog (e que pode ser lido em português aqui) o vice-reitor da Universidade Católica Ucraniana, Myroslav Marynovych, expõe uma série de reflexões sinceras sobre o tema da participação de uma mulher ucraniana e de uma mulher russa, que carregaram a cruz juntas em uma “estação” da Via Sacra no Coliseu nessa Sexta-Feira Santa.

 

Obviamente, há o peso de uma experiência nacional e de uma experiência cristã e católica, que fundamenta e motiva o texto proposto. Mas, mesmo em caso de guerra, mesmo diante dos sofrimentos que um povo está sofrendo em medida intolerável e sacrílega, se forem usados argumentos teológicos, é preciso estar autorizado por uma leitura correta dos textos, das analogias e das passagens argumentativas.

 

Mesmo quando se é vice-reitor de uma universidade católica, para usar os textos sagrados, é preciso uma competência específica: precisamente os textos sagrados são os mais fáceis de se interpretar ideologicamente.

 

Uma experiência terrível, como a da guerra, pode trazer nova luz ou novas trevas aos textos que são citados. Portanto, gostaria simplesmente de levantar uma série de objeções ao uso dos textos que M. Marynovych pretendeu utilizar de um modo pessoal demais e sem fundamento, adentrando-se em uma exegese arriscada e com resultados no mínimo problemáticos.

 

Em primeiro lugar, tento reconstruir a argumentação de fundo do texto, com as suas passagens mais qualificadoras, para depois mostrar a fraqueza dos argumentos utilizados a fim de contestar a possibilidade de que uma mulher ucraniana e uma mulher russa possam “carregar a mesma cruz” em uma estação da Via Sacra.

 

a) As argumentações de Marynovych

 

A iniciativa do Vaticano é julgada como uma “tentativa de reconciliar imediatamente os dois povos”, que indignou muitos ucranianos e que é fruto não de má vontade, mas de uma visão das coisas “a partir de fora”. Falar de “povos irmãos” para russos e ucranianos parece ser uma concessão às lógicas ideológicas russas e à sua propaganda retórica.

 

E logo é retomado “outro” relato de “irmãos”, a história de Caim e Abel, que é imediatamente projetada sobre a história do povo russo e do povo ucraniano, sem qualquer mediação, pretendendo assim julgar as palavras do Papa Francisco como incapazes de identificar diretamente Putin com Caim e de endossar a punição de Deus contra ele.

 

Propõe-se a identificação de Putin com todo o povo russo e do povo russo com Putin. Qualquer distinção entre governo e povo seria fruto de uma propaganda à qual a Europa ocidental cede facilmente demais.

 

Assim, a exegese do texto do Antigo Testamento é apenas o prelúdio de uma passagem, na verdade ainda mais grave, na qual se cita este juízo: “Jesus e Pilatos, ucranianos e russos, não podem carregar a cruz ao mesmo tempo”. Diante da pergunta direta "por que ucranianos e russos não podem carregar a mesma cruz?" a resposta é teologicamente bastante problemática e soa assim: “Porque a cruz de Abel (a vítima inocente) e a cruz de Caim (o arrependimento do ofensor) são cruzes diferentes”.

 

Essa curiosa interpretação, que mistura Antigo e Novo Testamentos, cria uma convicção de que apenas a justiça retributiva é o verdadeiro evangelho, enquanto toda misericórdia é reduzida a compaixão sentimental.

 

Os europeus compassivos, quando jogam a responsabilidade sobre os russos, acabam piorando as coisas. Somente um verdadeiro arrependimento dos russos poderá permitir que eles se abram ao futuro. É necessário um reconhecimento de culpa formal, enquanto as “encenações excessivamente teatrais, mesmo que simbólicas”, não promovem a reconciliação, mas a prejudicam.

 

Embora reconhecendo que a cruz de Cristo é uma só, as cruzes com as quais vamos ao seu encontro são diferentes, assim como as vestes das vítimas são brancas, enquanto as dos culpados são manchadas de sangue. Por isso, o único amor do Senhor fala às vítimas com compaixão e, aos culpados, com dureza.

 

b) O limite de uma leitura sem elaboração teológica

 

Se quisermos falar em termos cristãos, deveremos utilizar os recursos que a tradição pôs à disposição, com largueza, ao longo dos séculos. No discurso de Marynovych, a referência tanto ao Antigo quanto ao Novo Testamentos aparece totalmente distorcida por um interesse político e bélico, nacionalista e fundamentalista, que não permite captar o sentido da iniciativa romana e das palavras do Papa Francisco. Tentemos ver onde se escondem as passagens falaciosas:

 

a) A história de Caim e Abel é uma história de “fraternidade rival”. Não é a propaganda russa, mas sim a história da salvação que nos faz nos deter sobre o paradoxo do assassinato entre irmãos. É certo, porém, que a leitura que pode ser feita sobre o texto no nível judaico e cristão dificilmente pode ser curvada a uma identificação imediata de Caim com Putin e de Abel com Zelensky. É ainda mais difícil propor uma identificação de Caim com todo o povo russo e de Abel com todo o povo ucraniano. Aqui, o texto bíblico é usado de modo ideológico, porque faltam muitas distinções, que são necessárias para dar a palavra aos textos de modo correto.

 

b) Ainda mais forçada, para não dizer gravemente distorcida, é a semelhança: Cristo é a Ucrânia, e Pilatos é a Rússia. Se assim fosse, se colocássemos imediatamente em jogo esse nível “nacional” ao ler a história da Paixão, ficaria evidente que a cruz que Jesus sofre como condenação não é a mesma que Pilatos inflige como pena capital. Mas aqui também, os terríveis sofrimentos de um povo não podem ser tratados como se excluíssem por princípio e de modo absoluto a possibilidade de que membros do povo ucraniano e membros do povo russo possam viver a profecia de uma reconciliação antecipada, que depois precisará de tempos institucionais, econômicos, morais e sociais muito mais longos e complexos.

 

c) A redução “bélica” da Escritura é o traço mais singular dessa proposta. Um Deus que “toma parte” na guerra e que se inclina por um povo contra outro é um modelo arcaico de garantia da justiça, que não conhece misericórdia e que não sabe discernir dentro de um povo. O fato de que, em Cristo, a misericórdia tornou todos os homens e todas as mulheres irmãos e irmãs não pode ser desmentido pela captura étnica da fé. Aqui, creio eu, falta precisamente a profundidade e a articulação de uma autêntica leitura teológica, da qual Marynovych parece totalmente desprovido. E esse talvez seja o fato mais impressionante e mais preocupante: que, sob a pressão de eventos trágicos e terríveis, se possa propor, sem qualquer competência, uma leitura teológica tão unilateral e sem respeito pelos textos, com a pretensão de propor sem hesitação uma leitura fundamentalista do Antigo e do Novo Testamentos, voltada a impedir todo gesto profético e a plantar a história apenas no plano da justiça não divina, mas humana e histórica, como único horizonte disponível e que condiciona toda palavra e todo gesto.

 

d) O fato de duas mulheres, uma russa e uma ucraniana, poderem “carregar juntas a cruz” só pode soar como um escândalo se a pretensão de justiça, que é legítimo que decorra da história das vítimas, tiver a presunção de bloquear todo espaço para criatividade do Espírito, quase temendo que um gesto simbólico, um ato de profecia, uma abertura de fraternidade entre “inimigos” só pudesse ocorrer por um ato de traição, por um indulto escandaloso, por uma anistia injusta. Mas um mundo em que, mesmo diante da cruz, existissem apenas “amigos e inimigos” e onde não pudesse haver irmãos e irmãs seria um mundo em que Deus realmente não tem nada a dizer e que os homens podem controlar antecipadamente. Essa fé na justiça de Deus, que não sabe ver nenhum russo a não ser como inimigo, é o produto de uma guerra que é também uma guerra contra toda teologia de verdade, contra toda transgressão divina de verdade das ordens do mundo.

 

Posso compreender as emoções e as tragédias que levaram a esse texto apaixonado, mas não posso seguir em nada a sua argumentação fundamental, que, pelo contrário, reputo como perigosa e sem evangelho. Essa fé que se desespera diante de gestos proféticos e solenes de fraternidade não alimenta a esperança e não se deixa surpreender pela caridade. Se a palavra de Deus for reduzida a um martelo, perde a sua luz e fica cega. Essa é a tentação das teologias, ortodoxas ou católicas, que, a partir de dentro, tentam justificar a guerra de ofensa (sempre injustificada) e a guerra de defesa (dentro dos limites da necessidade).

 

Talvez um ponto de vista externo, como aquele de que o papa é acusado, possa ajudar a evitar, senão todos os erros, pelo menos os mais graves e irremediáveis.

 

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